domingo, 18 de agosto de 2019

(VARIA) I'll Never Find Another You

Abaixo, uma das mais belas músicas populares do século XX cantada por uma das mais belas vozes.


The Seekers: I'll Never Find Another You

There's a new world somewhere they call the promised land,
And I'll be there someday if you will hold my hand.
I still need you there beside me, no matter what I do,
For I know I'll never find another you.
There is always someone for each of us they say,
And you'll be my someone forever and a day.
I could search the whole world over until my life is through,
But I know I'll never find another you.

It's a long, long journey, so stay by my side.
When I walk through the storm, you'll be my guide, be my guide.

If they gave me a fortune, my pleasure would be small;
I could lose it all tomorrow and never mind at all
But if I should lose your love dear, I don't know what I'd do,
For I know I'll never find another you.

(Instrumental bridge with wordless vocals)
But if I should lose your love dear, I don't know what I'd do,
For I know I'll never find another you.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

(POEMA) A Essência na Metade


Edvard Munch
Falta um pedaço bem aqui,
que causa dor e até gemidos;
isto que sangra é uma ferida
de onde jorra a essência minha
em busca da que falta a partezinha.

Mas quão surpreso eu não seria
se não soubesse o que a guia
para fora no escuro
e na árdua vida dura.

Sei bem o que falta
e que atrai minha alma
como à lua do mar as águas
e arrisca dissolver
minha essência no vazio
até o último fio
e assim se extinguir
para nunca mais viver. [14/08/2019]

sábado, 10 de agosto de 2019

A Alquimia do Fogo à Meia-Noite

Arthur Rackham

Ei, tu, larga este punhal, tu aí, afasta este veneno, desce desse parapeito e põe o banquinho onde é o lugar dele. O Brasil precisa de ti agora mesmo. Levanta e marcha.

Perdeste o pai para o tráfico, perdeste a mãe para o câncer, viste tua irmã alvejada em latrocínio e teu irmão perseguido e humilhado por dívidas. Viste teu avô se enforcar, teu filho se drogar. Foste buscar tua filha estuprada. Tu mesmo, ó cidadão da pátria, tu foste humilhado em casa, no emprego, e humilhado depois de novo no banco; teu sonho da casa própria e da faculdade se esvaneceram, e tua eterna amada, aquela menina do colégio, trataram de afastá-la de ti e de corrompê-la e pervertê-la, enviando-a para os labirintos, sujos, grotescos e inseguros da vida moderna.

Sim, a noite mais escura se fez presente. O céu enegreceu, pois o Sol fora eclipsado. A única luminosidade existente são os raios tortuosos que chegam raros e vermelhos como o sangue. O sangue vaza pela abóbada celeste e disputa tão somente com o negro mais profundo do Nada, do Vazio.

Está e a sensação da consciência diante do absurdo existencial. É o aspecto obscuro da Consciência divina, que é Luz e Trevas. O perfeito encaixe dos elementos existenciais só existe ao lado do seu oposto, o caos do sem sentido, que é quando os elementos relutam em realizar a obra divina. Pois mesmo que a Ordem seja posta em questão e as forças coesas do universo sejam desreguladas, ainda assim a Consciência permanece existindo – e existir é experienciar, é viver a realidade, e ver assim que algo está errado. A sensação do absurdo acontece quando esta Consciência se depara com a desregulamentação das forças cósmicas. Neste instante, então, também surge a filosofia. A filosofia acontece quando a Consciência, diante do caos, se questiona: “mas não deveria haver o Nada e tão somente ele? Mas não deveria haver o Todo e tão somente ele?”. Nesta pergunta está em jogo toda a existência humana daquele que questiona, está em jogo a Consciência no trabalho de realização divina, e o que ela exprime, antes de tudo, tanto de um aspecto quanto de outro (pelo Todo ou pelo Nada), é que há algo de muito errado com ou na realidade. Afinal, ou não deveria haver Consciência, ou então o caos deveria ser, na verdade, uma Ordem. Essa é uma pergunta fundamental que, de múltiplas maneiras, sempre aparece diante de um suicida, um tipo psicológico e sociológico muito comum em nossos tempos.

De alguma forma, a Consciência está conectada com os elementos cósmicos e se realiza com eles. Não é possível haver uma Ordem divina se a estrutura cósmica, as relações sociais mais íntimas estiverem caóticas. A Consciência se realiza através da Ordem cósmica, através do êxtase comunitário: a realização de um avô é morrer tendo deixado um neto em um caminho seguro, a realização de um cientista e de um místico é morrer tendo se aproximado ao máximo da beleza presente nas leis universais da natureza. A realização de um amante é morrer em sacrifício ao objeto amado.

A dor acontece quando a Consciência é consciente de sua missão, mas é impedida de realizá-la. E é impedida por causa das turbulências, do ruído, do caos universal, que promovem um desgoverno cósmico. Este desgoverno é o desencontro de todos os elementos: nada está onde nem como deveria estar. E só a Consciência pode constatar esse fato, só ela é capaz de pressentir algo a respeito da realidade, um pressentimento que é já um questionamento de ordem filosófica.

O Nada, o Vazio... às vezes são frios, inóspitos e solitários, mas às vezes são quentes e perturbadores como as chamas do inferno.

Mas o questionamento da Consciência diante do absurdo da realidade deve levar a algumas respostas. Afinal, se as coisas não estão como deveriam ser, é porque existe alguma coisa agindo contra a naturalidade do real. Existe algum agente interferindo nas relações entre os elementos cósmicos e dando a elas novas direções, novas orientações. A Ordem, que deveria estar aí – que deveria ser Da-sein – , não está por algum motivo, isto é, porque existe alguma força que atenta contra ela, visando dissolver sua unidade.

E nesse caso tratam-se de forças cujo princípio é a dissolução. Assim, na política é o liberalismo, que visa libertar o indivíduo dos laços cósmicos (políticos, sociais e naturais); na filosofia são o atomismo, que constituem o paradigma pós-estruturalista antiplatônico, segundo o qual o todo é não mais superior à soma das partes, mas a soma das partes tomadas cada uma em sua individualidade; na estética é o subjetivismo, que corta as relações do sujeito individual com o mundo objetivo. Em todas essas instâncias, o princípio fundamental é a dissolução da composição orgânica, e não apenas isto: é também a imposição da autoridade do elemento particular sobre o conjunto total. Em outras palavras, é o indivíduo que passa a legislar sobre a “comunidade”, é o átomo que definirá o comportamento do composto, e é o sujeito que determinará o que é bom e ruim, o que é belo e feio, e isto se ele de fato não abandonar completamente estas noções, relativizando a realidade externa em função dos interesses exclusivamente internos.

Sendo forças dissolventes, também são forças satânicas, uma vez que atentam contra o Ser, que é a Ordem, o ser que aí está (Dasein) em sua totalidade experiencial, isto é, no conjunto experimental da parte com o todo, do sujeito com o objeto, do indivíduo com o mundo. Essas forças, em última instância, atentam contra a existência das próprias partes, porque, afinal de contas, as partes dependem do todo para existir. Uma prova muito clara disso é que os agrotóxicos, criados para acelerar e garantir estritamente o processo de produção, está acabando com as abelhas, o que poderá fazer colapsar todo o ecossistema, do qual nós dependemos para comer, respirar etc. Isso para não falar do câncer e demais doenças decorrentes do consumo, muitas vezes involuntário, do veneno.

Estas forças não estão aí por acaso, elas têm um centro difusor que organizadamente prolifera em forma de propaganda, filmes (Hollywood, Netflix etc.), música (Miley Cyrus, Lady Gaga, Beyoncé), ciência (LGBT, feminismo, maio de 68, Direito anglo-saxão, Economia ortodoxa etc.), estes princípios que lhe são tão úteis. O Ocidente atlantista (mundo anglo-saxônico e Israel) dissemina essas doutrinas ao redor do mundo através da linguagem comercial, que até hoje não possui fronteiras bem delimitadas no mundo e apenas muito recentemente está sendo levada em consideração por alguns países como a China e a Coreia do Norte, que continuamente estudam e desenvolvem maneiras de bloquear a influência cultural e exterior.

A uniformidade com que essas forças se espalham nos países periféricos evidencia como elas andam atadas umas às outras como pertencentes a um mesmo fundamento. Isso permite a Alexandr Dugin as definir muitas vezes como satânicas: elas existem exclusivamente para a dissolução, elas têm uma função precisa e partem de uma intenção refletida de destruição da realidade em todos os seus âmbitos. Em termos teológicos, isso equivale ao satanismo – Satã é o “adversário” de Deus, a essência de Satã é o próprio esforço de erosão do poder e da realidade divinos.

No Brasil, essas forças entram com a perda de soberania, que é um conjunto de fatores, desde o entreguismo dos setores da Defesa à própria incapacidade tecnológica, científica e administrativa de lidar com as influências externas que inesgotavelmente adentram nosso território e as mentes do nosso povo sem qualquer tipo de filtro. Os setores entreguistas da direita brasileira, seja na política, na classe empresarial, no rentismo ou mesmo nas Forças Armadas, conscientemente trabalham para essas forças satânicas que ameaçam a existência de todos os brasileiros em conjunto e de cada brasileiro em particular. Como disse uma vez Darcy Ribeiro e tantos outros, a falta de um projeto de Brasil é, na verdade, ele mesmo um projeto, isto é, o país está presa de forças conscientes daquilo que fazem, e o que desejam é realmente dissolver sua unidade pátria em busca de poder individual (seja como banqueiro, juiz, ou empresário etc.), não importando a vida dos brasileiros nesse processo.

Portanto, tu, ó brasileiro, que estás aí humilhado, não estás sendo humilhado pelo acaso ou por um suposto fracasso teu. Não, meu companheiro, tu estás sendo deliberadamente atacado e, se deixares, definharás até o teu trágico fim. Tu foste jogado em um campo de batalha sem o saber, porque é assim que mais facilmente, e covardemente, se vence um opositor – e tu, brasileiro, na visão de um ianque, de um liberal, de um banqueiro, de uma feminista, és o inimigo a ser escravizado e humilhado, ou então destruído.

O Governo (não me refiro a um governo em particular, mas ao poder autoritário do estadista), porém, não é o problema. Os empresários querem te fazer crer que o Governo é inimigo, mas na verdade o Governo é a única solução possível, pois o Governo é a deliberação do Estado, e o Estado é nada mais que o povo. É com o Governo que se orienta os investimentos, que se organiza a economia, que se pune os corruptos diante da Constituição, que se protege o povo da violência interna e externa, que se educa os jovens e se protege os costumes regionais e populares. E, sobretudo, é com o Estado que se combate o inimigo do povo. Como então fazer tudo isso quando o Estado for enfraquecido e não mais puder combater as forças dissolventes dos megaempresários bilionários? Como ter dinheiro para investir quando as estatais forem privatizadas, o imposto anulado; como ter força política para organizar, proteger e fiscalizar o país se o próprio país estiver desindustrializado e sucateado? Como punir os corruptos e fazer justiça sem a autoridade governamental do Estado? Alguém precisa deliberar para manter a ordem, mas quem deliberará se não for o Governo? Por acaso os empresários? E como eles se reuniriam, e através de que tipo de mecanismo fariam valer todos os serviços públicos necessários, como legislação, fiscalização etc.? Por definição, o empresariado não pensa no conjunto, mas exclusivamente em sua empresa, e é por isso incapaz de compreender e gerir a economia do todo, pois o mundo (e a comunidade humana no mundo) não é uma empresa e não funciona como uma empresa. A empresa tem uma lógica linear em que de um lado entra dinheiro e de outro sai, e o objetivo do empresário é otimizar o lado que entra e minimizar o lado que sai; o mundo, pelo contrário, tem uma lógica circular, cíclica e autocentrada, e dele nunca coisa alguma sai nem coisa alguma entra, nunca se acumula energia de um lado nem se definha permanentemente de outro.

Muito misterioso é o mundo, muito misteriosa é a Consciência. E mais misterioso ainda é que o mundo sem a Consciência jamais seria experienciado (o que equivaleria a não existir), e a Consciência sem o mundo jamais teria um objeto pelo qual ser consciente. E nisto consiste a Ordem, a perfeita organicidade da realidade. Não o individualismo, o liberalismo, o atomismo e o subjetivismo, mas a comunidade, a síntese e o misticismo (união entre sujeito e objeto).

Mas o que fazer com as vidas destruídas, com os queridos assassinados, com a filha estuprada, com a amada profanada? Deixemos que Deus cuide de salvá-los e purifica-los, agraciando-os para uma nova vida seja lá e como for. Quanto a nós, não deixemos que eles morram na nossa memória. Mas, ao invés de deixarmos nossa dor nos definhar até a inação e a morte, transformemos essas memórias, negras como a fuligem e como a noite mais escura, em fogo puro de vingança e de ódio dirigido contra nossos inimigos. E façamos assim de modo que a Consciência se eleve, com força, potência e vontade, ao nível do ígneo absoluto, frente a frente com a totalidade, banhados em puro néctar extático do real.

A Ordem é a Pax e a Lux Divina, mas contra essa paz e essa luz existem forças caóticas e satânicas. Entre estes dois lados não há conciliação, há guerra. E tu, brasileiro, se estiveres entre os primeiros, terás escolhido o povo e a soberania. Caso contrário, terás escolhido o liberalismo, o individualismo, o feminismo, a usura e o lucro.

Levanta e marcha.

''É quando se tenta tirar tudo de alguém que este alguém fica diante do que não lhe pode ser tirado ou destruído. Isso é o que sobrevive à própria morte. Situações limites nos mostram o que é indestrutível, isto é, algo que nos ultrapassa e pelo qual vale a pena morrer, pois alça nossa existência mortal ao valor semântico da imortalidade. A busca por algo assim é o que permite dar sentido à vida.''(Camila Jourdan)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

(POEMA) Lava que Canta

Michelle Pier

Sete dias em fechadas matas
o herói procura sua amada,
mas não aparecia nenhuma luz;
de escuridão em escuridão ele andava
até que de repente: zhuhz!
Com um estrondo iluminou-se
e piscou uma trilha em transe.

De novo reina o escuro,
mas dessa vez junto de um barulho...
terrestre, grave, profundo, e algo ruge
muito quente mais adiante
e um canto, suave, também surge.

De doçuras fala a cantiga,
embora de língua desconhecida
e de palavras que não se entende.
Apenas ouvindo é que se apreende
o conteúdo de beleza pura;
suave e virgem, mas carregado e muito quente
ele promete alguma cura.

Nosso herói, um pobre cavaleiro buscador,
descobre então de onde vem tanta flor.
De um penhasco em vermelho,
sob um céu também sangrante,
brota, líquida, a tanto buscada amante,
de cujo seio, sublimando, sopra um único conselho.

Perfeita, ardente, absoluta, tenebrosa
é a substância primeira e última,
a razão de todos os cultos,
a paixão de todos os vultos,
a direção de todos impulsos.

Chamado e convocado,
nosso herói se oferece
e se atira lançando uma prece,
e mergulha, e se afunda, e fenece. [01/08/2019]

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Por um Nacional-Desenvolvimentismo Sacro e Brasileiro

Getúlio Vargas e a cartilha da moral cívica no Estado Novo

A crise política que estamos vivendo no Brasil, mas também em todo o Ocidente, nos faz buscar por soluções. Entre as massas, predominam as palavras de ordem e as frases feitas, as soluções mais imediatas, superficiais, catalisadas por espantalhos tragicômicos como “a corrupção” (do lado da direita) e do “patriarcado” (do lado da esquerda). O mais grave de tudo isso é que a defesa das soluções fáceis se tornou norma também nos debates universitários em congressos internacionais, em meio a uma classe, a acadêmica, que deveria, pelo menos por obrigação, ser a mais apta a esclarecer a escuridão, a desfiar o nó da nossa crise.

Neste texto, eu proponho uma breve análise da realidade e uma solução sintética, porém não simplista e menos ainda definitiva, para os nossos problemas. E muito do que está aqui não se trata de ideia nova, revolucionária, a não ser que consideremos a revolução no âmbito político e não no âmbito das ideias.

Então primeiramente, delimitemos o problema, isto é, a situação real em despeito dos múltiplos discursos que se fazem sobre a situação real. O Brasil sofre e se desconstrói enquanto Estado e enquanto Nação porque está submetido, indefeso e inconsciente, a uma lógica internacional para a qual não está preparado, a saber a lógica do mercado e dos grandes impérios financeiros globais. A tempestade das transações financeiras bilionárias, que um dia estão de um lado e outro dia de outro, está maltratando a solidez do sistema estatal e das instituições.

Mais do que isso: o interesse financeiro está agindo sobre os Estados e burlando leis, comprando e subornando juízes, políticos, cientistas, lideranças estudantis, para que estes defendam o interesse do mercado (consciente ou inconscientemente), que hoje se resume em (neo-)liberalismo. Assim, enquanto famílias bilionárias permanecem patriarcais, mantendo desse modo a solidez do seu império, elas promovem, através de ONGs, propagandas e burocratas, a supremacia das mulheres e do ideário feminino no âmbito estatal e o paradigma irracional do atomismo, do identitarismo, porque assim eles enfraquecem o poder soberano e a coesão social dos Estados, que se tornam meros reguladores, meros reprodutores de paradigmas impostos, meros “cuidadores” das “minorias” etc. etc., enquanto descuidam totalmente da unidade estatal como um todo, da segurança, da proteção etc. Além disso, as identidades individuais impostas reproduzem o paradigma liberal do atomismo e do subjetivismo, que redundam, social e politicamente, no cosmopolitismo urbano tão aberto às relações de contrato, puramente externas, superficiais, econômicas, entre os indivíduos. Desse modo, o Estado enquanto sistema de leis, jurisdição, de presídios, está sendo submetido a papel de prostituta do império financeiro, servindo apenas para regular as forças sociais de acordo com o interesse último do mercado.

Enquanto isso, o Estado vai sendo solapado através das privatizações, da manutenção dos juros altos, da política cambial e dos mecanismos de importação/exportação desfavoráveis ao Estado e, por conseguinte, desfavoráveis aos cidadãos. Como exemplo, podemos citar as privatizações mais simbólicas da Embraer e da Petrobrás (que representavam não apenas o fornecimento de produtos ao país, mas a própria manutenção da soberania através da Defesa aérea e da segurança energética do país frente às flutuações monetárias e cambiais internacionais) e a prisão do engenheiro nuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva pela farsa da Lava Jato, responsável pelo nosso programa de energia nuclear, que poderia redundar em Defesa na parte militar. As consequências dessa política entreguista são o aumento da inflação, os juros altos, a quantidade imensa de pessoas inadimplentes (63 milhões de brasileiros[1]), o aumento catastrófico do desemprego (quase 13%[2]) ao mesmo tempo em que nossa indústria tem 25% de sua capacidade produtiva desocupada[3], o número de 341.600 empresas fechadas de 2015 a 2018[4], dentre elas indústrias e comércio, que já vinham fechando nos anos anteriores e continuam fechando no governo Bolsonaro; por causa da pobreza e do endividamento, falta de policiamento inteligente, educação, problemas psicológicos decorrentes etc., explodem também a violência, os estupros em crianças e assim por diante.

Os grandes bancos e impérios financeiros, pelo contrário, enquanto os povos todos afundam no caos e na pobreza extrema, ganham ainda mais fôlego para o enriquecimento[5], apoiados pelo serviço do Estado regulador que lhe serve de instrumento, seja no apaziguamento/domesticação da população a fim de obter maior controle (o liberalismo precisa da paz para reinar), seja por intermédio da própria legislação atomista e juridicista, que desenraiza os povos, fornecendo um ambiente individualista, abstrato, “sem fronteiras”, ambiente mental propício para o florescimento de relações contratuais e puramente econômicas entre os membros da sociedade, ou cidadãos. É claro que o outro aspecto desse fenômeno explorador do sistema financeiro sobre o Estado é o surgimento de um novo tipo de escravidão, muito mais cruel do que aquela da Idade Média e do período colonial brasileiro, porque lá os senhores eram responsáveis pela saúde e pela vida do escravo como um todo, mas no sistema neoliberal o banqueiro não possui nenhuma responsabilidade sobre o devedor explorado (isso decorre da igualdade constitucional entre todos os cidadãos, da libertação do indivíduo em relação aos laços sociais).

Portanto temos carência de Estado, de intervenção estatal, e não apenas intervenção, mas de soberania governamental frente aos setores nacionais: as ações estatais não devem ser intervenções com vistas aos objetivos do mercado, mas com vistas à preservação da unidade estatal cujo Estado é o próprio povo constituído por relações enraizadas (o Estado enquanto macrotecido de microrelações étnicas, familiares, comunitárias). A preeminência dos interesses do mercado está fazendo com que nos desindustrializemos e nos impossibilitemos cada vez mais, assim, de fazer frente ao inimigo do Estado, que é o próprio mercado e/ou o sistema financeiro. Porque nos faltam os instrumentos para proteger e manter a unidade estatal em toda sua complexidade: aparato tecnológico de inteligência, militar, ciência, engenharia, para não falar do sistema jurídico, tributário, que deveriam sofrer profundas reformas, etc. Faltando estes instrumentos, o mercado tem ainda mais força para atingir seus objetivos, e as contradições se agravam. É um ciclo vicioso e catastrófico, e, a longo prazo, se as elites financeiras não transformarem profundamente o sistema civilizacional, dando a ele novas formas “coesas”, a tendência é que a civilização entre em colapso e a anarquia se instaure, atingindo, em último caso, também a eles.

A única solução genuína para o Brasil neste momento está de alguma forma entrelaçada com o desenvolvimentismo enquanto economia política. E por dois motivos principais: primeiramente, só um conjunto de ideias ou uma doutrina capaz de reorganizar as forças capitalistas pelo e para o Estado, buscando ao mesmo tempo reindustrializar o Brasil, distribuir renda, investir em obras públicas, é capaz de fazer nosso país combater a doença desindustrializante como os anticorpos do corpo combatem uma anemia provocada, como a alta imunidade combate o marasmo, injetando energia e nutrientes no sistema e colocando a máquina para girar – e, muito importante!, dando a essa máquina uma finalidade precisa, um caminho para trilhar, racionalmente. O segundo motivo, e não menos importante, é que o desenvolvimentismo é uma doutrina latino-americana, assentada em necessidades latino-americanas, e floresceu justamente como um antídoto para os problemas estruturais que mantêm o Brasil e a América Latina submissos no cenário internacional como países periféricos, cuja relação de submissão é grandemente responsável pelas contradições internas, entre elas a própria concentração de renda e a desindustrialização.

Cabe a nós, então, conhecer um pouco sobre esta doutrina. Eu me basearei em alguns artigos de Pedro Fonseca, professor de Economia e Relações Internacionais da UFRGS, para delimitar, de modo bem geral, o conceito do desenvolvimentismo e depois dar alguns exemplos concretos, históricos, de governos desenvolvimentistas.


A Gênese e o Conceito do Desenvolvimentismo

Segundo a definição encontrada nos artigos, o desenvolvimentismo se define como:

“uma política econômica formulada ou executada, de forma deliberada, por governos (nacionais ou subnacionais) para, através do crescimento da produção e da produtividade, sob a liderança do setor industrial, transformar a sociedade com vistas e alcançar fins desejáveis, destacadamente a superação de seus problemas econômicos e sociais, dentro dos marcos institucionais do sistema capitalista.”

O desenvolvimentismo é então uma prática política, mais do que mera teoria econômica, uma prática sistemática que possui objetivos concretos a nível estatal. A deliberação é projetada, planejada e executada pelo governo, portanto exige um poder centralizado capaz de organizar e pôr em marcha todos os elementos do Estado em conjunto, com vistas a um único fim coletivo. Isso pressupõe a submissão da economia em relação à política e aos interesses do Estado. Na definição entra o setor industrial como líder do processo desenvolvimentista porque entende-se que é a indústria, através da produtividade, da geração de empregos, da provocação de demandas, de demanda e geração de tecnologia, etc., que impulsiona o Estado rumo ao objetivo central, que é o desenvolvimento aliado à soberania e à justiça social. Também entra na definição o marco institucional do capitalismo, a saber, o comércio, o crédito, as relações de mercado etc., por uma questão histórica (o desenvolvimentismo é uma reação longa e processual no interior do capitalismo internacional). É importante notar que, embora o desenvolvimentismo se utilize da economia capitalista vigente, e a submete para fins não econômicos, ele se diferencia totalmente do liberalismo, que segue a orientação oposta de submeter o Estado aos interesses do mercado, através das privatizações, do corte de “gastos” estatais etc.

Assim, entre as características presentes no desenvolvimentismo, destaca-se principalmente as três seguintes:

1) A existência de um projeto deliberado ou estratégia tendo como objeto a nação e seu futuro. Esta pode ser associada, com certa licenciosidade, a projeto nacional, desde que não se entende por isso repulsa ao capital estrangeiro nem rompimento com a ordem internacional, mas simplesmente a nação como epicentro e destinatária do projeto.

2) A intervenção consciente e determinada do Estado com o propósito de viabilizar o projeto, o que supõe autores aptos e capazes para executá-lo no aparelho do Estado e com respaldo social e políticos de segmentos e classes no conjunto da sociedade.

3) A industrialização, como caminho para acelerar o crescimento econômico, a produtividade e a difusão do progresso técnico, inclusive para o setor primário. (Fonseca, 2014, p.42)

Estas três constituem o núcleo central do conceito definido por Fonseca. O desenvolvimentismo, ainda assim, sempre surge acompanhado de outras muitas ideias, como por exemplo i) a burocracia ou grupo técnico recrutado para executar o projeto, ii) planejamento econômico, i.e. um desenho para longo prazo de intervenções consecutivas e acompanhamento em vistas do objetivo almejado, iii) redistribuição de renda, iv) reforma agrária e v) banco (estatal) de desenvolvimento ou instituição de fomento (Fonseca, 2014, p.43).

Por trás desse projeto, ou dessa política econômica, existe uma consciência de atraso em relação a algo externo, por exemplo o mundo capitalista Ocidental. Nos debates desenvolvimentistas, é comum dividir o mundo entre nações centrais e nações periféricas, em que as primeiras ditam as regras no cenário internacional e mantêm as segundas em condição de submissão. As primeiras são as nações já desenvolvidas, que uma vez receberam forte incentivo estatal para seu desenvolvimento e hoje promovem liberalismo nas nações periféricas, porque é através da abertura de livre comércio que as indústrias das nações centrais podem penetrar nos espaços periféricos, escravizando assim os povos ao redor do mundo. O desenvolvimentismo vem acompanhado de um projeto nacional, portanto de protecionismo econômico, e visa ao desenvolvimento, ao industrialismo, como meio para a superação desse atraso tecnológico, político, militar etc.

Como exemplos de governos desenvolvimentistas, Fonseca (2014, pp.57-58) cita, entre tantos outros brasileiros e latino-americanos, os governos de Juan Perón (1946-55), Getúlio Vargas (1930-45; 1951-54), Juscelino Kubitschek (1956-61), João Goulart (1961-64), Emilio Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79). Cada um desses governos cumpre as três características nucleares, que são o projeto nacional (ou nacionalismo econômico), a intervenção deliberada e o industrialismo, mas para além dessas características eles diferem bastante entre si. Por exemplo, Perón focou na distribuição de renda, Vargas na indústria e no banco de desenvolvimento, Juscelino e Geisel no planejamento, na burocracia, Goulart na distribuição de renda e reforma agrária. No geral, são raros os governos que propunham reforma agrária; Goulart parece ter sido o único desses que demonstrou investir determinadamente na reforma, e por isso também acabou deposto.

Em artigo de 2004, Fonseca faz um estudo histórico a respeito dos movimentos político-econômicos que colaboraram acidentalmente para o surgimento do desenvolvimentismo. O desenvolvimentismo viria, então, da fusão de algumas ideias já presentes nas discussões políticas. Os movimentos são 1) os nacionalistas, que defendiam a ruptura com a coroa portuguesa e a preservação do Brasil como unidade pátria, 2) os industrialistas, que defendiam o desenvolvimento industrial do Brasil, 3) os papelistas, que defendiam o crédito e a ruptura com o padrão ouro, e 4) os positivistas seguidores ou derivados de August Comte que defendiam a noção de progresso social, de separação entre Igreja e Estado, Estado laico etc.

Cada um desses quatro movimentos era uma conjunção de intelectuais com múltiplos sistemas de ideias e objetivos distintos. Por exemplo, entre os nacionalistas, haviam aqueles que visavam o desenvolvimento industrial e cosmopolita, mas também aqueles que viam no nacionalismo uma maneira para reafirmar o setor agrário ao se libertar da coroa portuguesa etc. O desenvolvimentismo não se compromete com essas ideias em bloco, de modo que, então, ele simplesmente teria se apropriado de algumas ideias desses movimentos e passado a utilizar em uma lógica própria, um novo sistema sintético de ideias.

Assim, o nacionalismo passa a significar um projeto nacional, estatal, com vistas à manutenção da unidade pátria, não necessariamente negando relações com o mundo externo, mas usando-as em benefício próprio, a saber da nação como um todo, o que se traduz pelo desenvolvimento técnico e econômico da nação em todos os setores. O industrialismo também vem para servir a este desenvolvimento técnico e econômico nacional, submetido a este propósito; a defesa do crédito aparece para fomentar o investimento em indústrias e empresas privadas, que impulsionarão a produtividade, a demanda e o consumo, fazendo avançar o crescimento econômico a nível nacional, e o positivismo, por fim, coloca os objetivos concretos do país na pessoa do Estado e empresta o progressismo, que se significará agora o próprio crescimento progressivo, evolutivo, característico do desenvolvimento – mas, mais do que isso, o desenvolvimentismo herda do progressismo também aqui uma noção já de matiz hegeliana, a saber a noção de um “destino da história” (Fonseca, 2004, p. 18).

Por trás de todo este crescimento, esta indústria, este crédito etc., está o controle firme do Estado, que planeja e projeta o desenvolvimento de acordo com seus próprios desejos e objetivos. De modo que o desenvolvimentismo é menos uma utopia do que um guia político-econômico para o alcance de uma utopia qualquer, ficando a cargo do Estado definir seus objetivos concretos e os próprios contornos da sua marcha na história. No artigo de 2004, Fonseca escreve o seguinte:

“O emprego da palavra marcha não é fortuito: ajuda a revelar que o desenvolvimento não brotaria espontaneamente, deveria resultar de decisão organizada, implementada com determinação e disciplina; requeria sacrifícios (“desbravar”), legitimava-se por princípios iluministas (“civilizadora”) e exigia a sua frente governos fortes e – quem sabe? – ditatoriais. Fazia-se mister o estabelecimento de nova relação entre o Estado e os responsáveis diretos pela produção, a fim de, em um pacto, ambos cooperarem para a expansão das atividades produtivas e fortalecerem-se para enfrentar as consequências nefastas do mercado.” (Fonseca, 2004, p. 19)


Um Desenvolvimentismo para o Brasil do Século XXI

Vimos que o desenvolvimentismo promove o industrialismo e o crescimento econômico estatal como um todo a fim de superar dificuldades que até hoje permanecem não superadas, a saber o “atraso” do Brasil em relação ao cenário internacional e a consequente submissão do povo brasileiro aos interesses do mercado, que é hoje um sistema internacional sem freio e parasitário.

Atualmente, o liberalismo avança até o transumanismo, modificando radicalmente as relações humanas e a própria natureza humana com o uso de IA para robôs eróticos, pornografia, cirurgia de mudança de “gênero”, idade, raça etc. As consequências não são qualquer tipo de “mudança de conceito de humano”, como pretendem os liberais que não acreditam em uma natureza humana dada, mas o aumento dos suicídios, dos problemas psicológicos, sociais, o rompimento de todos os laços existenciais e a “evolução” civilizacional rumo ao colapso. Estas são consequências de Estados fracos, impotentes diante da intensificação na concentração de renda e da ingerência das relações de mercado, sempre superficiais e avulsas, na própria intimidade da vida humana, nas relações familiares, étnicas, religiosas etc.

O urbanismo e o cosmopolitismo servem como paradigma para a noção de “vida humana”: o homem é um átomo que cria relações com outros átomos e as rompe a seu bel prazer, quando, com quem, onde, por que e como quiser. Não existe simbiose entre homem e meio externo, não existe copertencimento à família, à pátria, à religião, em suma às comunidades locais etc. Isso porque é assim que o mercado enxerga o mundo: objeto de consumo, de compra e venda. Para o mercado, não existe nada de essencial, de eterno, de sagrado, nem no homem, nem no mundo e nem em lugar algum; ele pressupõe o niilismo, a distopia, o vazio existencial. E é por isso que as gerações nascidas nesse meio tendem a se identificar com as ideias de Sartre, Foucault etc., porque para eles não existe sentido na realidade e seria nosso papel, então, dar sentido ao mundo. Eles esquecem que, na verdade, sabemos muito pouco sobre o mundo, e no entanto ele está dado e tem uma lógica, embora nosso conhecimento dele seja ínfimo.

Para combater o mercado, a luta deve ser em muitas frentes, porque o mercado também é ao mesmo tempo promotor do niilismo e beneficiador do niilismo, da fraqueza, da falta de lógica e razão em sentido metafísico (o Logos universal). Um dos objetivos do desenvolvimentismo é, como vimos, o alcance da soberania, da proteção e preservação dos povos diante das ações nefastas do mercado. Para isso, muito provavelmente ser-lhe-ia necessário um governo ditatorial, que diz e afirma por si mesmo qual é o fim desejável da nação, em detrimento dos fins do mercado. Mas, e agora temos que engolir a pílula vermelha, para termos um governo forte temos que combater o feminismo, o pacifismo, o igualitarismo, o marasmo do antivoluntarismo das ideologias identitárias, que servem como bombeiros do sistema, apagando e destruindo toda ação soberana, tanto em protestos pelas ruas, que se tornaram brincadeira de criança, quanto nas academias, que proíbem qualquer referência à força e ao autoritarismo, sobretudo se ele for masculino e não primar, antes de tudo pelo “cuidado”, i.e. em fornecer sua autoridade aos seus inferiores, em fornecer o direito de opinião e até de decisão aos seus subordinados (em suma, se ele não promover o protagonismo das vítimas e dos subordinados).

Todo esse identitarismo, que é financiado aos milhões e bilhões[6] por magnatas, todos homens de famílias patriarcais visando transformar o Estado em sua babá ou prostituta, tem por fim tornar inviável qualquer possibilidade de rebelião, e se apoiam na proliferação de paradigmas intelectuais como o do maio de 68, no existencialismo, no Teatro do Absurdo etc., como mecanismos capazes de dissolver, progressivamente, os laços sociais, e assim fazer com que a única força imperante permaneça sendo o mercado, que passaria então a regular a novas “sociedades” a seu bel prazer. As fundações de George Soros e sua “Sociedade Aberta”, também aqui bebendo de Karl Popper, servem a este propósito. Por isso Soros não tem escrúpulos em financiar LGBT e feminismo nas Américas e na Europa, na Rússia, neonazismo na Ucrânia, na Rússia e no sul da Ásia e assim por diante, uma vez que para ele não lhe importam os símbolos utilizados, importa o papel que eles possuem em cada localidade – e, uma vez que ele financia, é ele que dá significado e sentido aos símbolos empregados, sejam eles suásticas, martelos e foices, bandeiras coloridas etc.

A esquerda acadêmica caiu no conto do mercado e, acreditando combater os mesmos neonazistas na Ucrânia, visam se opor aqui no Brasil a todo autoritarismo, seja ele de “esquerda” ou de “direita”. E assim, por exemplo, quando estudam a ascensão dos partidos estatistas europeus (AfD, Salvini, Front National etc.), os consideram “inimigos da democracia” (já pressupondo um significado específico em ‘democracia’), quando na verdade são estes os únicos partidos europeus que desde muito se levantaram com força contra o mercado internacional, que também assola o povo europeu tanto quanto o brasileiro. A esquerda promove, também, a imigração em massa, considerando os migrantes como “fugitivos de ditaduras ou guerras”, quando na verdade estes migrantes, quando não são agentes treinados pela CIA, são apenas uma massa impulsionada pelo próprio mercado a inundar os Estados ocidentais de mão-de-obra barata, para fazer os salários baixarem, os laços sociais se romperem e criar, assim, uma “sociedade global” que fala inglês e que trabalha como escravo.

Em vista disso, deve-se combater todas estas influências ao mesmo tempo em que se busca o desenvolvimento nacional, pois elas partem de financiamento do mercado e estão servindo diretamente ao próprio mercado, fortalecendo-o em detrimento do Estado e da soberania do povo.

Para além desse combate contra o que deve ser levado a cabo, também devemos ter em vista em nome do que se deve combater. E é isso o que refletiremos agora.


A Utopia Quarto-Teórica

Um assunto muito comum na economia política contemporânea é o ambientalismo, de modo que também este elemento entrou nos debates desenvolvimentistas. Afinal, o homem percebeu que o mundo e seus recursos são finitos, e que a vida humana depende da saúde da natureza, da fauna, da flora, das planícies, dos mares, da atmosfera etc. Logo, um desenvolvimento da indústria e das metrópoles deve levar em consideração esses fatos, e buscar algum tipo de desenvolvimento que não agrida “tanto” a natureza, uma espécie de progresso simbiótico entre a civilização e a natureza.

Este é um assunto muito espinhoso, porque facilmente é capaz de pôr em xeque e contradizer a pedra angular do desenvolvimentismo, que é a indústria, a modernização da tecnologia etc. Mas em primeiro lugar, é necessário conceber a impossibilidade de um “desenvolvimento sustentável” tão alardeado pelos próprios magnatas ocidentais. Este jargão é apenas um meio de encobrir os fatos, porque muda-se a tecnologia, mas a exploração e a destruição do ambiente permanecem; mais do que isso: o gasto de energia e tecnologia usado para financiar projetos, por exemplo, como o do motor elétrico, motor a consumo de hidrogênio, água etc., não compensa a falta de emissão de carbono que haveria com a combustão de derivados de petróleo. “Desenvolvimento sustentável” é, então, uma desculpa para os magnatas continuarem lucrando, sem que se questione a própria natureza destruidora do mercado.

O problema não é apenas a emissão de tal ou qual substância, mas a própria essência do capitalismo, do mercado. O mercado pressupõe uma visão-de-mundo que concebe a natureza como objeto de exploração interminável (e isso inclui a natureza humana, como consequência temos o tráfico de crianças, a pornografia, o tráfico de drogas, a indústria do sexo com os robôs, os sites de relacionamento pagos, a indústria da “cultura” como Hollywood e tantos outros, que são exemplos da exploração das necessidades humanas pelo mercado), e isso está arruinando não apenas os recursos (afinal, a natureza não é e não deveria ser vista como um estoque de recursos, mas como alma viva passível de saúde e de doença, de prazer e sofrimento), mas matando a própria natureza enquanto organismo vivo, em que os elementos todos são como órgãos interdependentes de um corpo gigantesco.

A luta contra o mercado é uma luta para salvar a natureza, curá-la da doença, do câncer que lhe está fazendo definhar, agonizar, e para então salvaguardá-la, reencontrar nosso espaço no seu interior, reajustando-nos às suas leis. O sofrimento humano, os distúrbios psicológicos, são apenas expressão individual de um sofrimento holístico que toda a natureza sente. Nós somos órgãos da natureza e sofremos como um fígado que deixa de receber irrigação sanguínea por causa de um câncer que está se alastrando por outras partes do corpo. Quando alguns elementos são destruídos, todo o sistema entra em desequilíbrio e tende a se acavalar, se autodestruir durante o esforço por recobrar o equilíbrio original.

O mercado, assim, no nosso objetivo último, deve ser destruído, aniquilado, pulverizado. Todo esforço por domá-lo, sob a liderança de uma forte ditadura estatal e popular, deve tender, ao fim, à destruição dele. O desenvolvimento e a soberania, uma vez alcançados, não significariam aí o fim da missão de nossa utopia, mas apenas o alcance de um estágio inicial, que poderíamos juntamente de Marcelo Gullo chamar de insubordinação fundante realizada, concretizada. Este esforço desenvolvimentista existe para tomar o controle da situação e a partir disso, então, desenvolver uma verdadeira guinada para um novo paradigma, dessa vez político (de pólis) e, assim que possível, abandonar a economia enquanto realidade humana. A economia, em última instância, deve ser aniquilada enquanto atividade e ciência humanas, e dar lugar a um paradigma que se oriente pelo holismo da natureza, pela simbiose do homem com o mundo enquanto universo político em que o homem se vê como apenas uma pessoa dentre tantas outras pessoas presentes, incluindo aí o mar, o ar, a terra etc. A realidade de um pampa gelado em pleno inverno, onde se pode acampar com a prenda sobre as faíscas de uma fogueira, e diante do chiado de uma chaleira e sob o lusco-fusco do sol nascente ou poente, deve ser soberana acima de tudo, deve ter preeminência sobre os interesses de empresas mineradoras ansiosas por lucrar com a destruição alheia. A natureza tem tudo de que precisamos, e a preservação deste paradigma deve ser um dos elementos de nossa utopia.

Um segundo elemento muito importante, não desconectado do primeiro, mas muito raramente considerado na literatura econômica e científica como um todo, é a sacralidade da vida, a saber a beleza contemplativa, a sutileza dos laços comunitários e a hierarquia humana. Nada disso é levado em consideração, mas tudo isso é expressão de saúde; o êxtase religioso, seja ele experimentado pelo monge recluso nas montanhas, seja por uma negra mãe-de-santo em comunidades negras do Nordeste, seja por um agricultor germânico luterano dos vales do Rio Grande do Sul, seja por um filósofo místico ou um músico sutil, todos os êxtases experimentados por estas pessoas como paixão do seu modo de vida, de seus costumes, dos momentos sublimes que lhes ocorrem na experiência com a natureza, ou com seus deuses, esses êxtases todos são expressões da concretude (realidade) da simbiose que existe entre homem e mundo. E é na experiência íntima, silenciosa, sutil, entre o homem e os prados, os deuses, Deus, as borboletas, que se manifesta o sagrado, muito sutil e muito frágil ele. E é cada homem nascendo, crescendo e morrendo no mesmo local que o ciclo se realiza perfeitamente; cada espaço geográfico moldou uma raça específica, os genes de cada raça foram feitos por e para locais específicos, e são estes locais que tendem a gerar uma relação sempre mais íntima entre homem e mundo, até o nível extremo de o homem se perceber como unificado à natureza que o circunda – para se ter uma noção de como o misticismo de alguns filósofos tem sinais mais de realidade do que de pura abstração.

O pintor, o filósofo, o cientista, muito embora vivam vidas um tanto abstraídas do trato direto com a natureza, requerem retirar dela as formas para suas obras. O pintor não pinta a não ser formas que ele imita, o filósofo não descreve a não ser formas que ele descobre ao olhar penetrantemente o mundo, o cientista busca recompor sistemática e racionalmente os contornos não menos lógicos, mas infindáveis, do mundo que ele observa. Na nossa utopia, devemos devolver à natureza, e consequentemente ao sagrado, seu status de centro do universo. As obras devem buscar não na distopia cosmopolita e liberal a “realidade” a qual descrever em suas obras, mas devem buscar no mundo como um todo, nas formas universais da natureza terrena, da natureza supraterrena das galáxias, o paradigma de realidade para imitar ou inspirar suas obras. As obras devem exprimir o real, isto é, o belo, o êxtase sutil passível de ser admirado. Isso inclui a arquitetura, que deve abandonar o paradigma da feiura, do desconforto e do horror dos blocos de pedra, ou das contradições visuais feitas pelo contraste entre o antigo e o bizarro pós-moderno, voltar de novo os olhos para a experiência humana, para as sensações de grandeza, de inspiração positiva, que a arquitetura greco-romana, por exemplo, inspirava. Isso inclui a vestimenta, isso inclui tudo.

A hierarquia, também, está na natureza, e deve ser paradigma para a política. E a hierarquia humana acontece nas relações familiares e comunitárias mais regionalizadas. Deve-se destruir, aniquilar completamente o feminismo e as demais ideologias de gênero e restabelecer a autoridade paterna, masculina. A nível microcósmico, o pai deve reinar sobre a vida doméstica, mulheres e filhos, e a nível macrocósmico o homem deve retornar ao seu trono de chefe de Estado, de comandante. Não se trata aqui de um direito, até porque o Direito enquanto disciplina (e as relações direito/dever) deve ser destruído junto com o mercado. A posição de autoridade exige, antes de tudo, responsabilidade, sacrifício, ela tem que deixar de ser vista como uma concessão, como um “direito de mandar”. A autoridade é não uma carta branca para fazer o que quiser a seu bel-prazer, mas uma instituição sagrada, e sua função essencial é liderar, mostrar o caminho, abrir com seu facão as matas escuras para dar passagem aos que lhe seguem na trilha da história. E essa é a função do homem, tanto quanto a função do sol é iluminar. É claro que autoridades que abusam do seu poder não devem ser permitidas, mas tudo se trata de uma questão de paradigma mental; se, por exemplo, só porque alguns homens estupraram crianças através do tráfico, dermos a autoridade para as mulheres, então quem começará a praticar abusos são elas, e isso porque o paradigma da autoridade contemporâneo está em função do paradigma econômico das relações de propriedade e de usura, de exploração. Hoje, as autoridades acreditam serem “donas” dos seus filhos, de seus súditos, quando na verdade elas são, ou deveriam ser, líderes, guias, sóis para planetas menores e indefesos ou para plantinhas que crescem. Os súditos, por sua vez, devem manter relação de abertura diante da autoridade, senão o único jeito, e neste caso seria lícito, seria o uso da violência por parte da autoridade para que a relação novamente seja aberta. E certamente a natureza não deu ao homem a força por acaso, assim como lhe deu também a capacidade, não repetida na mulher nem na criança, de governar.

Assim, a natureza, as comunidades regionais, a hierarquia, devem ser o centro de realidade do novo paradigma mental. Toda a estrutura sócio-política, econômica, científica, deve convergir para este fim. Certamente a mudança não será nem um pouco fácil, nem um pouco simples de se pensar e realizar. Porque toda uma estrutura civilizacional seria mobilizada para se alterar e mudar de posição, como uma casa que, estando voltada para o Oeste, tivesse que agora se erguer, com todos os seus departamentos, móveis e hábitos de rotina de quem ali mora, e voltar para o Leste.

Isso tudo se circunscreve na Quarta Teoria Política, que clama por um paradigma holístico, por uma superação da pós-modernidade e do liberalismo, mas também clama por uma superação da própria economia (ou do capitalismo, dentro do qual também se deveria incluir o comunismo, que nada mais é que um desenvolvimento posterior do capitalismo) enquanto realidade. Para a QTP, as atividades econômicas devem ser superadas, seus conceitos devem ser superados, e toda atividade de troca deve ser regida não mais por paradigmas econômicos, mas estritamente políticos, orgânicos, planejados e executados pelo Estado, banindo, assim, o lucro como possibilidade, consequentemente banindo o surgimento de classes econômicas. A nova organização estatal, ao invés de se organizar em classes, deve se orientar por novas categorias, e buscar respostas no estamento ou na casta, que pressupõem no pano de fundo uma natureza orgânica, objetiva e supra-subjetiva, para a alocação dos elementos, que são os cidadãos.


Conclusão

Muito do que está aqui escrito precisa ser renovadamente refletido, repensado e reconstruído. Mas os desenhos gerais parecem sólidos. Uma única questão que eu me faço, e que me faz sempre retornar às reflexões sobre o assunto porque de alguma forma abalam o sistema e exigem reconstrução, é a seguinte: o ideal seria então um retorno à vida idílica? Pois, se isto for impossível, de que forma poderíamos pensar um desenvolvimento industrial permanente? E ainda, com Malthus, de que forma conciliar o crescimento populacional, e civilizacional como um todo, com um mundo que sofre? Uma alternativa poderia ser simplesmente uma suspensão completa das preocupações e assumir que o homem está destruindo mundo, se autodestruindo, e que isso é imparável e que este é o destino de toda civilização, que isso também se vê no mundo animal e até no mundo mineral etc., quando uma população, encontradas as condições, cresce ao nível do absurdo e então, de repente, uma pequena crise de recursos faz a espécie desaparecer.

No fundo, tudo é uma questão de como respondemos a estas perguntas. No fundo, tudo é metafísica, tudo é derivado de como enxergamos a origem e o destino das coisas. Eu prefiro, então, deixar esse primeiro questionamento a respeito do industrialismo ou do retorno idílico em aberto. Em ambos os casos, porém, exigir-se-ia projetos sólidos, inclusive de eugenia; pois, de um lado, precisaríamos preparar uma humanidade para o retornar a condições naturais e assim realocar cada qual em seu espaço; do outro lado, precisaríamos selecionar os genes mais adequados para tocar adiante uma marcha pela torre de Babel, uma vez que a tendência, com a tecnologia, é que também, ou sobretudo, se proliferem genes que, em condições normais, não sobreviveriam e que, em civilizações tecnológicas, seriam incapazes de sustentar e liderar o sistema.

O que, porém, nós devemos parar de pensar, é em como levar a humanidade para viver em outro planeta, se nós já temos o melhor e o estamos destruindo.


Notas:



[3] Fonte: Observatório Trabalhista do PDT, 200 dias de governo Bolsonaro.


[5] Itaú lucra 6,8 bi no primeiro trimestre de 2019, subindo 7,1% em relação a 2018: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/05/02/lucro-itau-1-trimestre.htm
Santander lucra 3,48 bi no primeiro trimestre de 2019, subindo em 22% em relação ao ano anterior: https://www.infomoney.com.br/santanderbr/noticia/8266582/santander-brasil-lucro-liquido-gerencial-vai-a-r-3485-bi-no-1tri19-alta-de-219-em-um-ano
Bradesco vai a 6,8 bi com aumento de 22% no mesmo período: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/04/lucro-do-bradesco-cresce-22-no-1o-trimestre-e-vai-a-r-62-bi.shtml (todos os links: 11/07/2019)



Referências:

FONSECA, P. “Gênese e Precursores do Desenvolvimentismo no Brasil”, Pesquisa & Debate, 2004, pp. 225-256

FONSECA, P. “Desenvolvimentismo: a construção do conceito”. Presente e Futuro do Desenvolvimento Brasileiro, Brasília: IPEA, 2014, pp. 30-79

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O Dasein: o Ser-para-a-Morte

Cassiano Sottomaior

O objetivo deste texto não é debater-se sobre o que poderia ter dito Heidegger em Sein und Zeit, mas, investigando, fazer florescer uma hermenêutica do próprio homem enquanto Dasein, à luz, aí sim, do sistema heideggeriano.

Segundo Heidegger, o Dasein ou “ser-aí”, enquanto conceito a definir o modo de ser do home, ou de um sujeito como o ser ao qual a história decidiu definir como ‘homem’, é um ser projetado em um mundo e que, embora lhe seja de algum modo ocultado metafisicamente, é presa de um propósito misterioso. O ser-projetado do Dasein é um acontecimento, um evento, mas não um evento do acaso que simplesmente acontece de acontecer diante de nossos olhos. Nesse acontecimento em si mesmo se esconde um propósito, de onde a noção de projeto bem traduzida ao português. O projeto pressupõe, antes de tudo, uma enteléquia ou causa final que já possui em si mesma o logos do seu desdobramento existencial. Assim, para Heidegger, podemos dizer que o homem é um ser para o qual sua própria existência e sua essência, que são a mesma realidade, se ocultam e se revelam continuamente, de modos mais ou menos intensivos e de acordo, sobretudo, com o próprio modus vivendi escolhido pelo sujeito. Essa existência, que também é essência, constitui, resguardada e oculta, a própria enteléquia do sujeito que vive e que se lhe revela, de modo mais ou menos claro, ao longo do próprio acontecimento de viver.

Além disso, Heidegger também compreende esta enteléquia, este logos que ora se oculta e ora se revela para o sujeito, como o ser-para-a-morte. Em suma, o Dasein, ou o ‘homem’, é um ser que é de algum modo projetado intencionalmente para a morte enquanto resolução do seu próprio ser. Na morte enquanto fim objetivado se oculta, e se revela, a resolução do ser do próprio sujeito: em outras palavras, na morte o homem encontra-se a si mesmo, de modo sintético e, mais do que isso, metafísico. A morte enquanto noite oculta o ‘dia’ do ato de viver, mas nesse ocultamento, que é em verdade o findamento, aquele logos que uma vez iniciou seu ‘projeto’ retorna a seu estágio transcendente, sintético, resoluto. Na morte, o homem se assenta em sua própria morada, sua Heimat. Nesse sentido, a noite apenas oculta um estágio intermediário para, ao mesmo tempo, revelar um estágio primordial, ao mesmo tempo ‘anterior’ e ‘posterior’ ao acontecimento enquanto ser projetado no mundo. Aquilo que se oculta na noite é qualquer coisa de efêmero, enquanto aquilo ali que se revela é, ontologicamente, sua superação.

A experimentação da morte através do símbolo, e portanto da arte, da filosofia e da política – em suma, da Linguagem enquanto morada do ser -- , não da morte meramente objetiva em seu aspecto de putrefação, mas do seu aspecto de ocultação e revelação de algo transcendente experimentada pelo sujeito que é findado, é um modo de ser autêntico que tende à resolução do ser e à proximidade do logos, que pode ali se revelar como uma epifania.

O Dasein é o ser que se dá aí, que acontece e se resolve na visada do resoluto, que para o olhar humano se traduz como a experimentação da própria morte. Isso exige que a morte seja vista e lidada não mais como um mero fato em meio a fatos, mas como uma situação-limite, um acontecimento privilegiado de importância ímpar, ‘momento” em que tudo pode ao mesmo tempo ser ocultado, mas, também, revelado. É na noite do ser ou na morte que o logos se aproxima maximamente do Dasein. Em outras palavras, na noite o elemento sacro do ser se revela no interior da realidade profana e comum do Das Man no mundo, e semelha à intervenção divina e profética na tradição das grandes religiões, que fazem representar este fenômeno por raios luminosos dourados, penetrando no interior negro das catacumbas.

O pensar a morte por este caminho, que é o direcionar a visada do projeto na direção da resolução de si mesmo, é o próprio ato de se resolver. O filósofo, o artista, o monge religioso e o profeta, que possuem a morte como norte de sua visada, vivem sua própria morte e, assim, vivem autenticamente como manifestações ônticas do logos ontológico, ou como luz negra, oculta para o profano, no interior da cegueira de um ser profano que, embora pareça claro e distinto, oculta com seu ‘barulho’ a verdadeira revelação.

domingo, 23 de junho de 2019

O Capitalismo: as origens do identitarismo (LGBT, feminismo etc.)

Nelson Marchezan, prefeito "de direita", liberal, promovendo o Orgulho Gay em Porto Alegre/RS.

Em “Capitalism and Gay Identity”, artigo publicado ou republicado em 1993 por John D’Emilio, o autor argumenta com sucesso como a identidade gay é consequência direta do capitalismo. Ele deixa claro que não está tratando das práticas gays em si, que puderam ter existido durante toda a história humana, mas da identidade gay, que é um fenômeno moderno e estritamente capitalista, ocidental. No mesmo artigo, ele argumenta contra a tese segundo a qual as pessoas que hoje se apresentam socialmente como gays seriam simplesmente pessoas que já teriam nascido assim e só puderam vir à tona com a “liberação” social no âmbito da cultura. Em outras palavras, ele argumenta que as próprias práticas gays são artificiais e são consequências de uma configuração social determinada; que, além disso, o sistema capitalista e liberal promove, de algum modo, o ambiente (que eu tomo aqui o direito de considerar doentio e anti-natural) propício para a multiplicação dos costumes gays e, assim, da própria identidade gay no âmbito social.

D’Emilio sustenta, então, que a ideia de que a liberação-gay apenas estaria dando permissão existencial a uma fatia da sociedade que antes era oprimida e que por isso não aparecia em público, é um mito criado pelo próprio discurso libertário. E a base deste mito está em outro mito, a saber a noção, obviamente equivocada, de uma identidade gay, isto é, a noção de que a homossexualidade é um tipo particular de pessoa assim como o homem e a mulher heterossexuais.

A tese do autor em seu artigo é, então, mostrar que gays não são uma identidade, eles não sempre existiram enquanto tipo específico, mas que são, pelo contrário, produto da história e que vieram a existir apenas em um período específico da nossa era:

“Sua emergência está associada com as relações do capitalismo; foi o desenvolvimento histórico do capitalismo – e mais especificamente seu sistema de free labor – que permitiu uma grande quantidade de homens e mulheres ao final do século XX chamarem-se a si mesmos de gays, a ver-se como partes de uma comunidade de homens e mulheres similares, e a organizar-se politicamente na base de uma identidade.” (D’Emilio, p. 468)

Segundo D’Emilio, foram particularmente as relações de trabalho de caráter capitalista que permitiram, em primeiro lugar, a multiplicação das práticas gays e, assim, de comunidades gays suburbanas. Ao longo do século XX, as relações de trabalho começaram a se tornar mais liberais, isto é, começaram a se destacar das relações sociais, inclusive das funções tradicionais do casamento, e isso permitiu que as relações econômicas entre as pessoas também se desligassem de suas funções sociais e passassem a ser impulsionadas não mais pelos papeis tradicionais de cada pessoa no corpo social (por exemplo e sobretudo na família), mas pelo desejo imediato e especialmente sexual dos indivíduos.

Como resultado, começaram a surgir bares onde o salário começou a ser gasto, no que resultou também na popularização de bares gays, ambientes gays em geral. Isso explica também porque a maior parte da comunidade gay era masculina: como eram os homens que trabalhavam fora de casa e estivessem mais profundamente inseridos em uma lógica capitalista e liberal, também seriam eles aqueles que passaram a se investir mais em atrações fetichistas como bares gays. As mulheres, ainda bastante domésticas e centradas em relações tradicionais e na diferenciação dos papeis entre homens e mulheres, eram uma minoria entre as populações que se viam como gays. Por isso, o autor também considera ser mito o argumento dos movimentos identitários segundo o qual a mulher só não aparecia socialmente como gay porque era oprimida pelo sistema e portanto escondia sua “identidade”.

Conforme as relações de trabalho foram se tornando cada vez mais liberais, mais numerosa também foi se tornando a comunidade gay, ou as comunidades gays. Isto se tornou um problema social e político no final do século XX porque começou a fazer da população, antes organizada por relações sociais que dariam continuidade ao ser humano, um grupo desorganizado de caráter destrutivo. Surgiram então, aí sim, o policiamento, a “opressão” do Estado que afugentava as aglomerações de gays em bares e ruas etc.

Segundo o autor, isto resulta em uma contradição da própria lógica do capitalismo. Por um lado, as comunidades gays são frutos do capitalismo. Por outro lado, o capitalismo necessita de relações tradicionais porque, sem uma base social, a estrutura das relações capitalistas também feneceria junto com a destruição da sociedade como um todo.

A conclusão do artigo do autor segue então uma “solução” estranha. Dado o problema do sistema capitalista, auto-destrutivo e destruidor da própria sociedade, a solução seria, segundo ele, a promoção de mecanismos de proteção à comunidade gay. Infelizmente, ele não desenvolve mais muito seu artigo, porque muito provavelmente enxergaria o quão despropositado é este argumento.

A prova de que esta não é a solução nós podemos observar hoje com mais clareza, se é que naquela época isso já não era claro. O capitalismo tende a desenfreadamente se liberalizar, imparavelmente; portanto, se nós resolvermos simplesmente criar remédios que servem apenas para o remendo dos rasgos no tecido social, enquanto a fera destruidora for deixada ilesa, a tendência é que a fera, gradualmente, acabará destruindo o tecido completamente, e nosso esforço de remendar servirá apenas para prolongar o sofrimento social – afinal, o homossexualismo, como se vê, é uma doença individual, e o identitarismo é uma doença social.

O que vemos hoje é que o capitalismo não apenas causou, acidentalmente, o surgimento do identitarismo, mas é o identitarismo o melhor instrumento para o capitalismo. O identitarismo é a colonização mental que aparece nas sociedades tradicionais para destruir as relações e funções enraizadas por relações mecânicas de contrato e de comércio. O identitarismo é a criação de um ambiente propício e sem o qual o capitalismo nem poderia avançar, pelo menos na intensidade em que o sistema liberal-capitalista, hoje financeiro, se tornou.

O identitarismo substitui as relações regidas por funções sociais enraizadas na essência social, como a de pai, mãe, filho, regente, educador etc., embebidas no interior de um todo sólido, por relações acidentais entre “essências” onde as essências são as identidades e as relações sociais são obsoletas e obedecem exclusivamente ao sujeito e não mais à sociedade. Assim, cada pessoa se torna “dona” dos seus direitos, os pais se tornam “donos” dos filhos, os homens (caso for em uma sociedade patriarcal) se tornam “donos” das mulheres, os proprietários se tornam “donos” das terras que ocupam, a pessoa que ocupa um cargo se torna “dona” daquilo sobre o que ela rege e assim por diante. E tudo isso está regido pela lei do dinheiro, que deixa de ser apenas um meio para se tornar um fundamento social, a base do novo “tecido” social, não mais regido por entrelaçamentos orgânicos, mas por relações avulsas passíveis de serem substituídas continuamente.

É esse ambiente, essa mentalidade, de caráter estritamente liberal, que permite o avanço ininterrupto do capitalismo.

É por isso que, em países conscientes dessa realidade, como a Síria, o Irã, a China, a Coreia do Norte, a Rússia, Cuba, a tendência é que o identitarismo se torne proibido e que a sexualidade enquanto puro prazer seja relegada a um estatuto estritamente privada, enquanto as relações sociais são protegidas nos papeis do pai, da mãe etc. É a maneira de impedir a existência de um ambiente necessário para o capitalismo no estágio financeiro em que nos encontramos, e, consequentemente, de impedir a destruição das sociedades e sua subjugação ao monopólio dos centros de poder ocidentais.

Enquanto isso, ‘investidores” como George Soros, agentes dos Rockefeller e dos Rothschild, promovem as chamadas Revoluções Coloridas nos países periféricos, com o fim de derrubar governos “autoritários” – em outras palavras, governos que não permitem o desenvolvimento de uma ambientação propícia ao avanço da monopolização dos centros de poder ocidentais.