terça-feira, 3 de outubro de 2017

Analiticidade: Característica Fundamental do Individualismo

Hieronymus Bosch
Ano passado tivemos a oportunidade de especular sobre o que enxergamos como o paradigma aristotélico, em cuja esteira estaria o desenvolvimento do pensamento moderno[1]. Lá, distinguimos três conceitos aristotélicos formadores deste paradigma: o conceito de substância, o de definição e o de verdade por correspondência. Eles seriam responsáveis pela construção de um modo técnico de se pensar a linguagem, derivando o nosso cientificismo moderno. Em contraste com este paradigma, estaria um certo platonismo oculto pela história, expresso pelo que chamamos de paradigma guenoniano.

Agora, temos por interesse dar um passo adiante nesta especulação e estudar o traço distintivo deste modo técnico de se usar a linguagem, isto é, vamos tentar descobrir seu fundamento, seu modo de ser. E, trazendo-o à luz, tentaremos a partir dele interpretar o desenvolvimento político e artístico da modernidade. Nosso propósito, aqui, não é entrar em discussões sobre certas artes e certas políticas; pelo contrário, é tentar elevar o olhar à altura de uma visão metafísica capaz de enxergar uma lei por de trás de todas as formas particulares de expressão. Esta lei é o que deve determinar todas estas formas particulares e permitir que elas sejam o que são. Com isto, tentaremos mostrar também que o desenvolvimento artístico é inseparável do desenvolvimento político de uma sociedade, e ambos compartilham uma mesma visão de mundo que os mantém complementares um ao outro.

A linguagem técnica e “científica”, desenvolvida ao longo da história pelo paradigma aristotélico, tornando-se mais complexa, abarcando uma lógica que se torna cada vez mais ampla, está assentada sobre um modo particular de conhecimento, que é o da verdade por correspondência aristotélica. Ora, este conceito exige uma diferenciação ontológica entre uma coisa conhecida e sua expressão linguística (que é de onde surge o conceito de definição), de modo que será através da letra que o objeto será, indiretamente, conhecido. Ao ler um livro sobre a árvore, conhece-se a árvore. Esta dualidade primordial é uma caixa de Pandora que abre uma infinidade de diferenciações e separações sucessivas, impedindo o conhecimento imediato da coisa. Assim, separa-se também sujeito e objeto, mas separa-se além disso a definição “conhecida” da coisa e a representação dela, de modo que toda a realidade esteja cindida e mediada por algo que simplesmente não existe: esta “verdade” que não se encontra em lugar algum, esta “correspondência” que falta acontecer.


Partindo disto, separam-se os gêneros, as espécies, as subespécies, as substâncias primeira e segunda. E se formos ainda além para desenvolver o sistema aristotélico, passaremos a estudar genética, uma vez que encontraremos “lacunas” na teoria biológica que deverão ser preenchidas por novos conceitos, novas espécies, raças, famílias, etc. Mas não só genética: também os astros passaremos a desenhar nos papeis, a fim de diferenciar constelações, estrelas, planetas, até que encontramos elementos que não mais se encaixam nos conceitos antigos e assim por diante. “Conhecer” o universo é representa-lo. E representa-lo é imitá-lo em sua divisibilidade infinita, cortá-lo em pedaços cada vez menores, sempre separando o diferente de um lado e de outro. Ao invés da busca por encontrar padrões, semelhanças, este paradigma se multiplica por uma divisão que se parece muito com a implosão de um universo, uma vez que sua tendência é se dissolver na pulverização indeterminada, o que psicologicamente é sentido como vazio. A linguagem que antes trazia “conhecimento” já não trará mais nada quando perceber que, para fazer sentido, necessitará encontrar padrões que há muito já foram relegados ao esquecimento. A parte só faz sentido em um todo que dê-lhe um lugar e, com isto, um significado preciso dentro do sistema.

Pois bem, esta divisão constante tem um nome: aná-lise, do grego analyse, “separar”, “livrar” no sentido de uma liberdade negativa. A palavra “crítica”, muito usada nos nossos tempos e considerada a vanguarda da modernidade, tem uma origem semelhante, e significa também “cisão, rompimento”. O arquiteto mais importante por trás da atualização deste paradigma talvez seja Immanuel Kant, com sua Crítica da Razão Pura. E A Teoria Crítica, que encontra “na Crítica” de Kant uma maneira de oferecer oposição ao objetivismo platônico, leva este paradigma aos abismos mais obscuros das loucuras de um homem esquizofrênico que chega a pensar que ele é um sujeito transcendente, isolado de toda “contingência” do mundo exterior; de modo que todos os seus elementos biológicos, culturais e até mesmo psicológicos são apenas a “casca”.

A análise visa a divisão e seu argumento é que através da separação do diferente ela representará os fatos da realidade. Mas será mesmo que é possível dividir o infinitamente divisível? É possível representar aquilo que não tem fim? E mesmo que tivesse fim, de que modo seria possível que um elemento finito do universo representasse para si o universo por inteiro, em sua infinitude? Quais as ferramentas necessárias para uma tal façanha que seja capaz, ao menos, de igualar a infinitude do universo? São questões que devem vir à tona nestes momentos. Todo engenheiro, todo físico, químico, biólogo, matemático, está acostumado a lidar com universos ideais e, antes de qualquer projeto, averiguar as possibilidades de um tal projeto se concretizar, tendo como base para um tal julgamento os dados empíricos, as potencialidades dos elementos envolvidos, tanto as ferramentas quanto os planos, o mundo ideal utilizar etc. Pois bem, a ciência deveria ao menos buscar fazer o mesmo com o seu objeto de estudo: o universo. Antes de tentar descrevê-lo, deveria se perguntar sobre as possibilidades disto se realizar, e para isto se dará conta de que surgirão outras questões ainda mais fundamentais, que perguntam pela própria natureza do universo. Como conhecer algo sobre o qual não sabemos nem sua qualidade distintiva, seu modo de ser? Pois será que o que chamamos hoje de “ciência empírica” dá conta desta natureza? Parece-nos, pelo contrário, que ao se questionar deste modo a ciência se esbarraria com o próprio absurdo lógico. Surgiriam então muitos maravilhamentos sobre a natureza, e tudo poderia ser novamente repensado.

Uma grande questão a se fazer é: a analiticidade dá origem ao atomismo ou, pelo contrário, este é quem a gera? Pois um fato é inegável, ambos compartilham do mesmo paradigma. Assim como Aristóteles instaurou um paradigma ao mesmo tempo analítico e subjetivo em seu tempo, também a modernidade, da mesma forma, o atualiza em suas “críticas”. A questão talvez encontrará uma resposta se entender por “átomo” o indivíduo, este sendo uma boa razão para que os atomistas encontrem um porto seguro e não sejam obrigados a sair dividindo o universo mundo à fora. Mas apesar de ser uma boa razão em sentido pragmático, está longe de satisfazer na teoria: onde está que este “indivíduo” não é ele também divisível? As teorias liberais parecem se contentar com transcender cada vez mais o centro gravitacional deste indivíduo e deixar que as teorias, cada vez mais ferozes, acabem por consumir as “contingências” mais externas da casca que envolve este centro, isto é, o sujeito. Há um sujeito, então, que é individual, livre de toda contingência; os problemas começam a aparecer quando para além deste sujeito existem outros sujeitos: como conceber que hajam sujeitos múltiplos no mundo? Se tudo no mundo “exterior” é apenas projeção da subjetividade, o que será dos demais sujeitos que requerem também estatuto existencial? Queiramos ou não, este é o fundamento do neoliberalismo, o que em outras palavras quer dizer: cada um por si e ninguém por todos. Não é preciso ser gênio para perceber o nível de esquizofrenia de tais teorias; mas basta com observar a multiplicação cada vez mais histérica de coisas como “ideologia Queer”, “pedofilia é amor”, “penetração não é sexo”, “ejaculada não é abuso” para notar o nível absurdo de subjetivismo ao qual chegamos. Porém, já deveria ser o bastante quando décadas atrás clamaram pela normalidade do homossexualismo, que era apenas o primeiro passo de uma avalanche interminável de metamorfoses satânicas.

Não desligada destas correntes neoliberais, está a arte moderna. Para se observar uma ligação, bastaria constatar que os financiadores destas “artes” são os mesmos ativistas neoliberais. Mas vale um estudo mais aprofundado sobre os princípios destas artes para eliminar dificuldades na compreensão destes fenômenos. Para o moderno, a beleza é subjetiva, e tudo se resume a gostos: cada um tem o seu. Nada é compartilhado. Aqui há um forte elemento filosófico-político, que o conecta aos interesses do neoliberalismo de transcender o indivíduo. Mas há também um aspecto psicológico: a “arte” moderna é feita para “chocar”, para causar rompimentos psicológicos, estresse, desconforto, é feita para trazer o feio. O belo é por definição objetivo, todo abarcante no qual tudo flui e ao qual tudo pertence; o feio, portanto, é a destruição desta harmonia e a separação infinita de suas partes. Estas partes são, em nível psicológico, os aspectos da personalidade da pessoa, que se dividem em múltiplas reações, concretizando múltiplas personalidades, gerando a psicose, neurose etc. Em nível sociológico, as partes são os indivíduos, os partidos, os grupos, as tribos urbanas, que passam a lutar entre si, tendo cada uma delas uma percepção particular, puramente subjetiva e única, daquela “arte”, buscando torna-la universal através de uma aniquilação das demais teses no espaço público. A consequência disso é a total falta de confiança generalizada do povo, a solidão, a perda completa de bom senso e, mais adiante, a guerra civil. Estas “artes” são utilizadas para reforçar a teoria neoliberal de que cada um é um sujeito em separado: elas silenciosamente conscientizam o povo de que “é mesmo, cada um tem sua opinião e ponto”, como se não houvesse mais uma verdade objetiva a ser observada e constatada. Trata-se de um veículo de manipulação ideológica sutil, contra o qual há apenas a autoridade do Estado, uma vez que não há lei que seja tão sutil a ponto de conseguir limitar este tipo de expressão, de definir e por conseguinte proibir; os neoliberais sabem disso e se aproveitam. Usam discursos normalizadores que não param jamais, e assim como o homossexualismo foi normalizado, hoje estamos normalizando a pedofilia escancarada; há cinco anos atrás diziam “homossexualismo não é pedofilia, que é crime”, e hoje dizem “relação corporal com criança é amor”.

Estas “artes”, por serem analíticas, críticas, e são como um objeto qualquer exposto no espaço sideral, um ponto em um mapa cartesiano sem referências, não têm seu “lugar natural” (que exige um todo objetivo relativo a quem as partes têm existência) e carecem, assim, de significado. O “artista” se vê obrigado a explicar sua “obra” com alguma descrição, um texto, visando dar sentido à sua esquizofrenia ambulante a quem “não está à altura de compreender”. Eis, assim, o fundamento analítico da arte moderna.

A arte é um aspecto da política e vice-versa. Um complementa o outro e fornece fundamentos para o outro. Cada um fornece uma linguagem inteligível que expressa na e orienta ativamente a sociedade. Por este motivo, o neoliberalismo e a arte moderna compartilham uma mesma weltanschauung analítica, atomista, que constituem o paradigma moderno, que é um prolongamento do que chamamos de paradigma aristotélico. Seria impossível que uma arte cultuasse a beleza e fosse neoliberal, assim como seria impossível uma arte moderna como a que temos sem a negação da objetividade e da imediatidade do conhecimento metafísico.

[1] http://alvarohauschild.blogspot.com.br/2016/11/do-paradigma-moderno-e-do-tradicional-e.html

sábado, 16 de setembro de 2017

Você é Aquilo que Vê

Fidus
Os nutricionistas têm uma frase que resume bem os princípios por trás da sua ciência: você é o que você come. Isto é, em termos biológicos, no que cabe aos elementos nutricionais, que constituirão o corpo da pessoa, a pessoa se torna aquilo que ela come. Por isso deve comer certos alimentos, evitar outros, tudo dependendo da sua precondição genética, da sua condição e capacidade fisiológicas; cada pessoa, por conta destas variações que antecedem a nutrição, terá para si um “caminho” para a boa orientação e saúde corporais. Tudo é uma questão de proporção, de “boa medida”. Contudo, apesar das diferenças superficiais, o princípio determinante deste caminho é único para todos, motivo que dá para a nutrição ser uma ciência, capaz de observar padrões e de calcular sobre eles.

O mesmo poderíamos ouvir de um personal trainer: você é o que você faz/exercita. O aspecto físico de uma pessoa que busca um personal servirá para este construir um diagnóstico do modo de vida do seu cliente; este diagnóstico, muitas vezes, atinge tão bem o alvo que o personal é capaz de adivinhar até mesmo a profissão do cliente, seus hábitos profissionais e domésticos, quase no detalhe. Isto tudo se deve ao fato de que, embora cada cliente seja “único”, todos os corpos obedecem a uma lei comum, que permite, a partir dela, obter diagnósticos. Não que o personal seja um conhecedor desta lei corporal, isto é, possuidor dela; sua ciência, estudada em universidades, é apenas uma tentativa abstrata de representar o que podemos apreender logicamente desta lei, que é inefável; pois sempre há algo ainda que fica por se “descobrir”. Entre os cientistas, aliás, este tipo de especulação e raciocínio faz parte de suas análises cotidianas.

O farmacêutico, o médico, dirá o mesmo. Todos aqueles que trabalham na área da saúde dirão o mesmo. Infelizmente, porém, nossa sociedade moderna ocidental rechaçou o sentido amplo e antigo de “médico”. Hoje, o médico é aquele que prescreve curativos, remédios, para corrigir uma falha localizada, por exemplo, na perna, no braço. O médico é diferente do personal, do nutricionista, do farmacêutico e do psicólogo. Há, inclusive, uma clivagem perigosa entre “doenças físicas” e “doenças psicológicas”, que decorre de uma divisão filosófica moderna racionalista entre a “filosofia prática” e a “filosofia teórica”. O médico, portanto, nos nossos dias, é de um “conhecimento” deveras especializado, e nem mais dentro da sua própria profissão ele é capaz de curar seus clientes, porque o “ortopedista” não sabe lidar com dores musculares, e assim por diante. A capacidade de prever doenças, de diagnosticar o cliente como um todo, foge dos médicos hodiernos, porque eles não conhecem mais as amplas possibilidades e variedade que o corpo humano pode manifestar; origens de doenças, curas, são cada vez menos conhecidas. Mas mesmo assim, o médico é aquele que terá de dizer, em coro com os demais profissionais da saúde: você é o que ingere, faz, etc.

Quanto ao psicólogo, a questão é muito mais complicada. Ao invés de predisposições genéticas, temos um inconsciente ou subconsciente, sobre o qual nenhum deles entrou em acordo até hoje; pelo contrário, estes termos só lhes dão razões para divergirem cada vez mais uns dos outros. Alguns ainda conectam o inconsciente aos fatores biológicos, à cultura, etc., mas sem desenvolver até hoje nenhum solo concreto a partir do qual sustentar uma “ciência da mente humana”. Mesmo assim, todos eles assumem algo como “você é o pensamento que absorve ou manifesta”, etc. Daí decorre a sociologia, que lida com a “psicologia das massas”, mas que até hoje se mantém na dicotomia entre mente e cultura, manifesta na Teoria Crítica deveras contemporânea. O sociólogo, contudo, assumirá para si a tese exposta aqui da seguinte maneira: você é, enquanto espelho da sociedade, a cultura da sociedade. Eles sabem muito bem o que fazem, portanto, quando investem na “arte” contemporânea para “desconstruir” padrões estéticos e coisas afins; eles sabem que manipularão as massas, e agem como verdadeiros magos negros em defesa de interesses privados, seus e dos seus financiadores.

Em despeito das ciências modernas, cada vez mais especializadas, cada vez mais inúteis e incapazes de solucionar os problemas do homem, isto é, em despeito da figura do médico moderno, há uma ciência antiga que parte de princípios totalmente opostos. O médico dos renascentistas, o teurgo dos oráculos, não estuda apenas a “parte”; pelo contrário, é o “todo” que lhes interessa. Pois é no todo que está a alma, que não se divide no corpo, e só é possível ter um corpo saudável se se tem, antes de tudo, uma alma saudável. O médico renascentista, o teurgo dos oráculos é, assim, um mago, um “curandeiro”; pode usar de ervas, exercícios, mas pode usar também de talismãs, de rituais. Este médico lidará com religião, com arte, e usará de imagens, reformas políticas, com o fim de curar as pessoas do povo, tanto individual quanto publicamente – uma vez que é o “todo” no qual se foca, a parte só pode ser curada se o todo também o for. Por isso que nossos psicólogos contemporâneos são uma verdadeira mina de ouro: “curam” seus clientes individualmente sem curar o todo, tornando seus clientes dependentes de consultas, tanto quanto uma pessoa depressiva se torna dependente de remédios químicos: pois passado o efeito do remédio, ela “adoece” de novo. Em uma sociedade doente, não é possível manter o indivíduo saudável. Por quê?, poderíamos questionar. Porque o indivíduo é um espelho da sociedade, ele absorve os ideais da sociedade para até mesmo se adaptar a ela; isto inclui não apenas ideologia no sentido corriqueiro, mas em um sentido amplo e profundo, espiritual: o modo de vida e a visão de mundo sociais invadem e transformam o indivíduo, que depende da sociedade para viver. Indivíduo e sociedade são uma simbiose tão interdependente que, em verdade, são um só: o indivíduo é o que a sociedade é, e vicer-versa. Cada pessoa terá seus traços únicos, que em Platão entrariam no conceito de Daimon, mas estes traços se organizam na pessoa de tal forma a imitar o paradigma ideológico da sociedade. Se a sociedade cultuar o feio e a desordem, haverá desordem mental e fisiológica no indivíduo. Se a sociedade se fundamentar no individualismo e no egoísmo, egoísta será o indivíduo, e mais do que isso: será também insaciável, instável, em suma, ansioso, depressivo. Será, pois, psicopata, pedófilo, serial killer, fetichista, e tudo isso e muito mais poderá vir a se tornar “normal” quando a sociedade por inteiro por invadida por esta inclinação à desordem, pois quem determina o que é normal e o que é anormal é o “bom senso” social, e nada mais. Tudo é construção social.

Giordano Bruno previu isto tudo. Ele foi apenas um dentre os tantos que previram em toda a história da humanidade, mas o caso dele é digno de nota. Sua teoria do Eros, isto é, do amor, identifica o ser a um conjunto de entidades ligadas pelo amor. Assim, a abelha e a flor estão ligadas pelo amor, os elementos do cosmos, homem e mulher, os elementos sociais etc. Ioan Culianu, em Eros e Magia no Renascimento, destaca Bruno como o filósofo que previu as grandes manipulações sociais, de cuja doutrina saíram a psicologia e a sociologia. O médico bruniano cura doenças fisiológicas, mas também cura as da alma, manipulando o desejo alheio, ou manipulando as coisas desejadas pelos outros. O médico, porém, o é porque é mago; mas o mago não necessariamente é um médico: o médico cura, mas o mago pode também amaldiçoar. Daí vem a noção de magro negro, que pode ser aplicada, por exemplo, ao George Soros, à Rede Globo, aos feministas, mas também ao Bolsonaro e Olavo de Carvalho; também aos empresários que publicam outdoors, baseados inclusive na Publicidade e Propaganda, que hoje se tornou até mesmo ciência e estatística. Todos estes visam ao enfraquecimento social, ao distúrbio, que levará consequentemente ao enfraquecimento das pessoas individualmente, mais fáceis e passíveis de serem controladas, seja pela força, seja pela mente. Surge o consumismo, a concentração de poder aquisitivo, a passividade dos povos em relação aos governos corruptos; isso tudo está aliado, certamente, à ansiedade, à depressão, à solidão, às altas taxas de suicídio, à sede sexual excessiva, estupros, pedofilia etc. Retornando aos Bolsonaro e Olavo de Carvalho, que se tornaram personalidades das massas, bastaria observar a total carência, neles, de objetividade e argumentação, ciência no sentido forte; não há conhecimento de coisa alguma, e mesmo assim eles convencem, arrastam as massas ao seu favor. Quais são suas armas por trás disso? Inflação de ego, elogios, aliados à criação de uma imagem sobre si de personalidades “fortes” e “independentes”; então basta, para as massas, carentes e vazias, ansiosas e depressivas, com baixa auto-estima, exclamar “mito” e ofender o “comunista” para que elas, enquanto “opressoras”, se sentirem fortes e independentes quando não são – e o quadro se agrava conforme o tempo passa, porque cada vez esse vazio se torna maior. Podemos ver que tudo aqui é uma questão de criar necessidades imediatas entre o povo e apresentar um remédio fácil, gratuito e pronto; e tão mais fácil é convencer o homem pobre, egoísta, ansioso e ambicioso, do que o estável, independente, emocionalmente satisfeito, etc. O mesmo ocorre com pornografia e sites de relacionamento adulto: só as mulheres não pagam, recebem bônus, “proteção” ao toque e privacidade (isto é: distanciamento em relação ao objetivo real de um relacionamento, que é a intimidade); isto é tudo muito bem pensado, porque a mulher é o princípio passivo de uma relação, de modo que será sempre lucrativo quanto mais distante ela estará do homem. Isto, a longo prazo, fomenta a ansiedade masculina, e leva aos exageros do estupro e das ejaculações precoces, em locais públicos etc. Mas nenhum intelectual, nenhum dono de site de relacionamento, nenhum financiador de ideologias individualistas, é jamais responsabilizado pelos crimes que se disseminam entre o povo, que sempre sofre a carência e depois sofre também a prisão, a multa etc. Banqueiros e intelectuais estão do mesmo lado, fazem parte da mesma estratégia.

O “mago branco” de Bruno está no extremo oposto: ele busca estudar a lei natural de todas as coisas com o fim de observar os nós na imensa rede erótica do ser e, a partir de então, diagnosticar onde está de fato a raiz do câncer, a fim de exterminá-lo. O mago negro é um câncer, o mago branco é um médico; o primeiro é Saruman, o segundo é Gandalf. George Soros, mago negro, destruiu países inteiros, como a Ucrânia, projetou verdadeiros massacres em todo o mundo e transformações sociais profundas em todos os países do Ocidente. Vladimir Putin pode ser colocado entre os magos brancos; homem inteligente e amante do povo, não se deixa levar pelos golpes baixos na geopolítica (aviões civis russos sendo derrubados, cercamento da Rússia pelas tropas da OTAN, protestos do FEMEN, que buscam atacar onde mais dói, tanto para o presidente russo quanto para o projeto desenvolvimentista nacional russo); pelo contrário, a diplomacia se torna, na mão de Putin, um verdadeiro remédio para conciliar distúrbios artificiais entre as duas Coréias, a China, a Índia, permitindo-o intervir em favor de Assad na Síria sem que fosse necessário uma declaração de guerra, assim como no Donbass, na Crimeia e na Turquia, quando houve um golpe militar que quase levou o mundo ao caos em 2016. A diplomacia russa é sutil, de uma eficácia alarmante, extremamente sensível, que nenhum intelectual ocidental é capaz de compreender, pois é demasiado grosseiro e estúpido para tal. O mago branco, então, mexendo aqui e ali, reformando aqui e ali, visa à cura das feridas mais graves, o que certamente enraivece os magos negros, que veem seus planos sendo continuamente desmanchados. Enquanto os homens ocidentais vivem de doenças psicológicas, terrivelmente deprimidos e sem-rumo, os homens russos se tornam cada vez mais vigorosos, fortes, prontos para defender sua pátria, suas mulheres e crianças; o que também é um fator muito relevante no caso de uma guerra, além de ser sinal para algo mais: saúde mental, física e, sobretudo, espiritual! As reformas de Putin envolvem uma participação profunda das comunidades religiosas, sobretudo da Igreja Ortodoxa, censura de ideologias feministas, proibição de ONGs (em geral, ligadas ao Soros) etc., e alcançam todas as áreas da sociedade e da alma humana, desde a econômica/doméstica até a cultural, biológica e emocional. Pois é bem entendido que o homem não tem apenas necessidades econômicas, nem que suas necessidades emocionais estão ligadas à necessidade de consumir, como pretende o mundo ocidental.

Assim, podemos retornar ao que vínhamos falando no início, e afirmar que o homem é aquilo que reflete, em sentido amplo. Isto é, ele é o que vê; se seu meio for o de uma cidade repleta de outdoors pipocando por todos os lados, desorganizada, agitada, feia, sem uma regra e uma definição estética que organize todo o ambiente, então o homem será também desequilibrado, desordenado, o que será sentido como vazio, carência de sustentação e firmeza, carência de força. A civilização moderna é em si um câncer do mundo; assim também será o homem moderno, um câncer, um parasita emocional que não enxergará mal algum na pedofilia e na deturpação da mente das crianças, porque ele apenas reflete suas necessidades interiores. Em suma, o homem moderno é por natureza um psicopata, um louco, que só pôde tomar as ruas, as instituições tão abertamente depois que proibiram os hospícios e libertaram a “esfera privada” da “esfera pública” – então, banqueiros, tendo dinheiro, se sentem certamente no direito de fazer o que bem entenderem com ele, pois tudo é “legal”. A “livre expressão” se tornou uma arma de transformações profundas da sociedade humana, usada por quem tem dinheiro e cargos públicos, uma arma grosseira, mas muito sutil para os olhos de um homem ocidental, imbecilizado, grotesco, bruto e animalizado.

Só haverá mudança neste quadro horrendo quando surgirem magos brancos capazes de desenvolver armas poderosas que neutralizem os efeitos causados pelos magos negros. A autoridade de um mago é necessária, pois sua atividade requer poder, e seu poder requer a confiança do cliente, tanto quanto um médico requer a confiança e a passividade do doente. Isto envolve uma estratégia estética profunda, pois são as imagens que orientam os desejos na mente humana; iconoclastia neste ponto de decadência só levará ao perpetuamento do estado doentio da sociedade (daí a destruição de monumentos antigos na Síria por parte do ISIS, que está em pé de igualdade com a retirada de monumentos nos EUA, com a desculpa de um “neonazismo”, que está longe de significar qualquer ameaça e, pelo contrário, serve como arma sociológica do status quo para gerar medo e criar desculpas para reformas), o que não quer dizer que, em outros contextos, a proibição de imagens ou ídolos não poderia ser realmente curativa. A Quarta Teoria Política é, em nível político, o remédio perfeito para o momento; ela concentra todas as vantagens buscadas por todas as demais teorias políticas, e não apresenta nenhuma das desvantagens que elas representam. Vladimir Putin, por sua vez, parece cada vez mais próximo das influências de Dugin, e sua diplomacia reflete não apenas uma tradição russa e uma arma genuína, mas também certa influência quartoteórica, pois o discurso russo foca cada vez mais em uma conciliação internacional entre povos, seguindo uma linha completamente diferente da qual seguia a União Soviética e os próprios EUA, em que ambos buscam estabelecer cada qual uma influência única e uniforme sobre todos os povos, transformando-os a seu bel prazer e possuindo-os para si.

Em contraposição a um globalismo abstrato, a uma cultura cosmopolita globalista, uma economia capitalista padronizada, a Quarta Teoria nos convoca a nos voltar cada povo para si mesmo, e encontrar remédios próprios para cada povo; as consequências disso são, em primeiro momento, multipolarização das relações de poder, imanentização dos poderes nacionais em benefício de autoridades regionais. Uma vez que cada povo tem sua linguagem própria, só autoridades regionais para conhecer melhor seus povos e, enfim, indicar-lhes os remédios próprios. Isto exige uma nova ciência: etnosociologia. Não se trata mais de uma sociologia abstrata, derivada das maluquices do pós-estruturalismo globalista e cosmopolita, mas uma sociologia fundamentada no Daimon de cada povo, que Dugin parece unir no Dasein heideggeriano. Os fatores genéticos, culturais, familiares, climáticos, etc., começam a se tornar relevantes para a sociologia, de modo que cada grupo étnico e religioso se torne uma comunidade fechada e independente, um universo. O Daimon platônico é um “espírito-guia” ao qual cada pessoa pertence e escolhe antes de nascer, são as influências profundas, que incluem também o que na linguagem junguiana se torna o “inconsciente coletivo” de um povo e de uma pessoa, mas incluem também as predisposições genéticas. Outra consequência de um estudo aprofundado da etnosociologia certamente será uma concepção holística da sociedade: enquanto na sociedade civil, que é composta por átomos, há um degradê entre dois polos, o individualismo e o totalitarismo, na sociedade holística, pelo contrário, há uma imensa rede de contatos na qual os nós são os indivíduos, de modo que cada indivíduo tem um espaço próprio, determinado por suas inclinações e predisposições, isto é, seu Daimon. Em outros termos, uma sociedade holística permite que as potencialidades inatas dos indivíduos sejam instigadas para que se realizem; uma vez que todos indivíduos têm Daimones distintos, cada um terá um espaço próprio, mas cuja definição está na própria relação com o todo, isto é, a rede. Aqui, cada homem é definido por sua função, mas uma função que não pode ser identificada pela profissão na sociedade civil, porque a profissão não leva em consideração as potencialidades inatas, mas o dinheiro, a ambição que cada qual tem que o leve a disputar cargos; e assim temos milhões de médicos, ricos, insatisfeitos com sua vida.

O desvelamento da dignidade de todo o “espaço” etnológico permite a cada um aceitar seu lugar, busca-lo. Isto será feito com a desconcentração de ganhos e salários e introdução de todas as funções em um imenso rito nacional, em que todas as funções estão interligadas dentro de uma máquina coletiva, que visa não os lucros, mas a realização da missão humana na terra. Trata-se de uma experiência religiosa profunda, fundamentada não na abstração de conceitos e valores arbitrários, mas naquilo que cada um é e foi feito para ser. O guerreiro, o filósofo, o sapateiro, o líder, o médico, o agricultor, etc., são modos de realização espiritual, e cada um destes modos tem sua razão espiritual. A beleza observada não apenas nos objetos produzidos, mas na própria atividade como um todo, decorre dessa realização, pois tudo é feito por zelo e perfeição, por fazer uma obra sagrada, para embelezar e coroar a existência, a vida, a divindade. A beleza não apenas é vista no objeto, mas sentida no íntimo; o sapateiro sentirá diferente do guerreiro, mas ambos sentem cada qual a seu modo a beleza, uma harmonia inefável e inexplicável à qual pertencemos enquanto agimos. Ou por que então teríamos nós nascido? Para ser escravo de banqueiro, que usa seus milhões de dólares mensais para comprar criancinhas e estupra-las nos bastidores é que não foi. Sequer o banqueiro sabe porque nasceu e se sente satisfeito com o que faz; mas caso perguntássemos a um bom sapateiro, a um bom filósofo, a um guerreiro berserker, certamente a resposta seria diferente; não necessariamente as palavras, que vacilarão, mas o modo como elas são ditas, com ardor e paixão, ou então com aquela tranquilidade típica de monges orientais. Em se realizando, o homem poderia dizer: você é o que você faz, identificando-se naquilo que faz – é um ritual.


A beleza é isso, é a harmonia, que existe antes de tudo no Eros, na rede do ser. O câncer é a perturbação dessa harmonia, para o que nossos “intelectuais” encontraram um eufemismo vergonhoso: “arte provocativa”. A propagação da feiura não apenas é uma corrupção dos indivíduos, mas é um parasitismo do corpo de deus, da rede de Eros a qual todos pertencemos, e é imperdoável, antinatural. É Mordor que se alimenta do corpo da Terra Média, é o vampiro que se alimenta do sangue alheio.

domingo, 25 de junho de 2017

(POEMA) Teu Nome Inefável

Álvaro Hauschild

Teu nome eu respiro
nos ventos da aurora
e o fogo sem demora
me inflama o espírito.

Preciso dizer teu nome
às flores e macieiras do jardim,
mas não consigo dizer o que está em mim,
ó, esta maravilha incessante!

Permitiriam-me os anjos dizê-lo?
Não dizê-lo é doloroso
quando o nome amoroso
é da amada esquecida e dormente.

Morre o mundo por dormir
do amor o centro lácteo
que nutre o mundo ordenado,
ó, linda, dona de mim!

Desperta e olha nos olhos meus
vida pura e flamejante,
reflexo no teu amante
da vida e do amor que é teu!

Com teus olhos, me olhando,
então dizes o inefável,
o qual dizer é necessário:
teu nome, nós nos amando. [24/06/2017]

segunda-feira, 19 de junho de 2017

(POEMA) Deusine

Karl Wilhelm Diefenbach

Das lâmpadas odeio a luz,
amo a das velas e ainda mais a da lua,
amo ver nelas minha amada nua,
a quem estas luzes todas me conduzem.

Dos homens todos odeio o barulho,
amo o dos trovões e ainda mais o do silêncio,
amo sentir neles da minha amada a presença,
que me leva para casa, dentro do seu útero.

De toda a humanidade odeio a atividade,
amo o sossego e ainda mais o recolhimento,
amo inspirar neles da minha amada o alento,
minha vida pura, pura felicidade.

As vozes do mundo todas odeio,
amo a solidão e ainda mais o vazio,
amo deitar com minha amada no frio,
mergulhar meu espírit' em seus alvos seios.

Odeio com os homens à mesa comer,
amo o alimento do belo e sublime,
amo as delícias da minha amada Deusine,
pelas quais meu corpo deixo morrer. [19/06/2017]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

(POEMA) Wie die Blumen Wieder Kamen

Konstantin Vasiliev
Auf dem Feld lauft ein Kind,
das ein Speer in die Hände hat
und stark zu den Wind
schreit es, um die Götte rufen an...

Da kommen die Götte alle heraus,
die das Kind eine Frage lassen:
“was suchst du unser Kind, so schwach und allein?
Du bist d' erst in tausende Jahren...”

“Ein Mädchen, das ich sehr viel liebe,
ist krank, und sie sagen, dass es sterben muss;
aber die Welt kann nicht ohne seinen Kuss.
Was kann ich tun?”, kommt es, um zu bitten.

“Uns'r liebes Kind”, sagen die Götte im Feld,
“das Mädchen, von dem du jetzt sprichst,
aus (dem) Tod das schreckliches Fleisch isst
und kein Medizin kann das Mädchen helfen.

Du kannst aber dein Leben gut nehmen:
währen du lebst, du darfst ein Schloss haben,
berühmt und ansehnlich sein von allen,
und niemal von die Krankenheit errecken”.

So antwortet das Kind: “ohne den Kuss,
den gibt das Mädchen, kann nicht der Fluss
in meinem Schloss schönen fliessen,
auch nicht die Vögelein fliegen,
die Sonne im Himmel mir scheinen...
ohne es gibt es nichts von meinen.

Geb mir den Tod, die fürchterliche Fleisch;
die Welt will in Ginnungagap zurück-sterben;
die Blumen blühen nicht in die Reich von Melkor;
Eros kann aber nicht ohne Psychê bleiben...

da mach, dass mir der Donner kommt...!”
Und mit seinem Speer starrt es auf sein Herz.
Das Blut durch die Welt macht, dass neue Meere
und neu' Erde für alle kommen.

Die erste Blumen blühen aus,
um die Sonnens Scheinen erreichen,
wo das Blut auch erste kam – Heiss!
– von einem Geist und Herz raus. [12-16/02/2017]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

(POEMA) O Vale Remoto

Hans Dahl

No vale remoto, em meio a silentes
picos nevados cobertos por coníferas
que guardando verdejam secretos sonidos
ouvidos por todos e por flores e abelhas,
desce um riacho tilintando suave
percorrendo os campos de flores repletos,
e de musgos, e liquens, gramíneas completos,
e descendo do alto se perde e se vai...

Apolo do alto, iluminando secreto,
toca dourado no campo sozinha
fiel e farta macieira amorosa
dando frutos a mãe generosa
à bela Urânia, amor d'uma vida...

Urânia, Urânia, corpo celeste,
de estrelas longínquas é feita tua pele;
teus olhos brilhantes o riacho te deu
das águas frescas que o céu as bebeu;
longos, muito longos, finos e leves
são de ouro os fios tecidos,
no ar dançando e mostrando o caminho
a mim, que longe poderei me perder do paraíso,
da tua alma feitos, luminosa e cristalina...

Mas desce correndo também do castelo
para os campos, até nós, se misturando
e perdendo entre as flores mirantes,
e seus risinhos com o tilintar fresculento
do riacho se confundindo e fundindo,
desce ali graciosa nosso fruto
saído do ventre celestial, do tudo,
desce ali Ágata, a da beleza detentora
para quem mil olhos com mil lágrimas
suficientes não seriam na alegria redentora.

No alto do vale remoto, por Apolo desenhado
guincha sobrevoando um pássaro observado. [09/06/2017]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

(POEMA) Florzinha sob o Caos

Arno Brecker

Ó doce florzinha,
tão pálida e pequenina,
tão frágil, ó menina,
qual é o segredo que germina
e existência te dá,
e resistência também,
neste mundo onde vão e vêm
a dor, a morte, a impermanência e o caos?

Ó minha anjinha,
tão sensível e tão levada,
quando os ventos mornos
te levarem para longe
e então te abandonarem,
o que farás em meia-estrada
sozinha, indefesa e machucada?

Ó livre andorinha,
princezinha dos céus,
por que te vais sempre mais longe
em busca do alaranjado,
no horizonte açucarado,
se o sol é o mesmo todo dia
e encontrarás apenas a noite?

Ó transparente cristal,
por que te maculas te afundando
na lama, te fazendo perder
em movediça areia decaindo,
para onde te encontrar ninguém
poderá, nem mesmo querendo?

Ó filha de Selene,
luz fria e tenebrosa,
ó minh'alma manifesta
em doçura amorosa,
assim tão longe não te percas,
assim tão grave não te machuques,
assim tão feio não de mudes,
assim tão dolorsamente
não me mates. [01/05/2017]