segunda-feira, 5 de março de 2018

A Desintegração da Vida Humana (ou A Reintegração da Psyckhê)

Fidus

A tendência da condição atual da história humana é a desintegração em um sentido amplo, metafísico poderíamos ainda dizer. Desintegração social, psicológica, política, econômica, religiosa etc. Neste texto, pretendemos nos ater aos princípios fundamentais que gerem a civilização, mostrando como eles tendem a se desintegrar e, com eles, o homem também se desintegra. Pois a civilização é a imagem do homem e o homem, por sua vez, também passa a refletir os princípios da civilização uma vez estabelecida.

Analisemos o seguinte ponto: a seriedade que a atividade econômica atualmente impõe ao homem, o compromisso moral com o emprego, com as leis que protegem propriedade privada, contrasta cada vez mais com os momentos de histeria aos quais os mesmos homens se atiram em momento de festa. A festa é sentida como uma “pausa” no determinismo doloroso da vida profissional, e nesta pausa o homem pretende recuperar os efeitos de um estágio psicológico harmônico onde não há este rompimento entre os impulsos humanos e os da vida como um todo.

Vejamos bem: ele visa recuperar os efeitos, não exatamente o estágio harmônico e primordial da psykhê. Pois seria de fato natural que os efeitos acusassem a realidade da origem; mas este não é o caso. A festa é como uma rebelião controlada dentro de um sistema rigidamente determinista que aprisiona a vontade humana rumo a uma direção que não lhe é natural. Na festa, o homem, ao invés de retomar ativamente a harmonia universal, acontece um movimento de entrega passiva às leis objetivas, em imitação à necessária entrega que ocorre na vida profissional. O determinismo profissional ensinou ao homem que a única solução é a entrega ao sistema, o não-pensar, o não-se-rebelar, através de toda a repressão policial, midiática e institucional que um sistema neoliberal apresenta. A festa, portanto, reproduzirá o mesmo padrão de entrega passiva: o homem quer poder se entregar sem que seja necessário sentir dor, efeito típico de uma desintegração.

E quem determina estas leis determinativas da roda da civilização é a classe superior dos banqueiros e multi-bilionários, que se apoderaram da imensa rede civilizacional que a tudo interconecta organicamente. E como eles atuam apenas para si, nunca para a civilização como um todo, naturalmente vêm à tona um principial desequilíbrio civilizacional que a todo o sistema determinará enquanto lei.

A única maneira de reencontrarmos o equilíbrio psicológico e sociológico, sobretudo metafísico (a metafísica abarca e determina todos os estágios existenciais), é encontrarmos um Rei que governe para o Todo, e não para si mesmo. O Todo deve ser-lhe superior, de modo que o ato de reinado seja um ato de sacrifício. As civilizações mais antigas, ainda na época das tribos, ao fundamento de uma família, um reinado, costumavam matar um animal como um javali, um touro, representando este sacrifício da divindade masculina. O sangue do animal que escorre é o sangue que cimentaria a civilização e a alimentaria como substrato, tal qual a figura do Rei que governa para o Todo e, nisto, desaparece enquanto indivíduo.

A desintegração entre o momento de festa e o momento da ação determinista, que cada vez mais se intensifica no dualismo trabalho-lazer, só pode ser curada mediante a reavaliação metafísica do significado das necessidades humanas existenciais. Pois, mediante esta reavaliação, o trabalho enquanto atividade de suprir as necessidades básicas pode ser reintegrado ao ciclo orgânico e se identificar com o próprio “lazer”; melhor dizendo, os efeitos e a atualidade dos fatos podem ser reunificados apenas mediante a fusão das esferas dever e lazer. Isto é, não a junção destas esferas que hoje jazem separadas, mas a origem una daquilo que hoje se apresenta separado.

Vejamos bem, na vida do campo, o ciclo da vida humana acompanha o ciclo de toda a natureza circundante: no início do dia, deve-se tirar o leite da vaca, alimentar os animais em geral, aproveitar o ambiente fresco para trabalhos sob o sol; no final do dia, o pasto colhido deve ser entregue aos animais. E este ciclo diário acompanha ainda o ciclo das estações, dentro das quais as atividades se modificam por conta principalmente do ciclo da semeação e da colheita e assim por diante. O homem, de fato, não tem como se ausentar uma única vez sequer deste ciclo, senão os animais passam fome e a lavoura fenece. O homem está integrado com uma tal força a este ciclo que, uma vez rompido, para sempre se romperá. Neste sentido, a vida urbana costuma enxergar a vida no campo como uma escravidão, pois na cidade há uma maior flexibilidade de horários; contudo, devemos ter em mente, esta flexibilidade é uma suposta “liberdade” para optar entre a pobreza e a escravidão profissional. O homem é livre em suas escolhas, mas se não escolher se escravizar não sobreviverá dentro do sistema neoliberal. Além disso, esta flexibilidade do sistema urbano e neoliberal está no cerne da nossa questão porque ela é justamente o dado que temos, como uma espécie de febre que acusa uma doença, mostrando a ruptura na estrutura metafísica: em um círculo perfeito, não deve haver “flexibilidade”, de modo que se há “flexibilidade” isto quer dizer que o círculo já fora violado.

Assim, enquanto o homem do campo, ao qual tanto as algazarras quanto o dever matemático da profissão são desconhecidos, e vive portanto em uma espécie de serenidade que não deseja pois não busca nada fora de seu ciclo, o homem da cidade intensifica cada vez mais seu dualismo na medida em que são os próprios momentos de tortura no trabalho, cada vez mais levados a sério, que permitirão algazarras cada vez maiores. Ao invés de buscar o equilíbrio, o homem em uma sociedade liberar age bruscamente na direção dos dois polos como um pêndulo que, tendo sido empurrado em uma direção errada, se impulsiona com todas as forças rumo à direção oposta, atravessando o limiar do saudável e incorrendo em excessos pelo outro lado também.

Este parece ser um desequilíbrio de caráter tipicamente moderno. Usamos o termo neoliberal para descrever a estrutura em que isto acontece, mas deve-se entender isto não como um conceito preciso da economia mais recente restrito a uma “fase do capitalismo”. Usamos o termo neoliberal aqui como a representação de um fenômeno em que o princípio determinador da atividade do Todo é, na verdade, o indivíduo, a parte. Talvez o capitalismo seja apenas uma expressão deste princípio.

O antídoto deste desequilíbrio deve ser buscado em civilizações xamânicas, onde todos os impulsos subjetivos estavam organizados dentro de uma imensa roda cósmica, onde cada qual estava em seu lugar e executava sua função, não por força externa e coercitiva, nem por vontade individual, mas de um modo em que a “força externa” de um lado e a “vontade individual” de outro se apresentam apenas como dois momentos analíticos de uma mesma força e de uma mesma vontade. O que o homem precisa fazer ele faz porque quer, e o que ele quer fazer ele faz porque precisa – esta seria a equação-chave da solução.

Mas de que modo desenvolver uma tal integração em civilizações avançadas em hábitos urbanos? A urbanidade não necessariamente é uma desintegração metafísica. Ela está sendo uma desintegração, de fato, porque é o meio pelo qual o que chamamos de neoliberalismo atua, tecendo sua rede global sobre os mais longínquos rincões do planeta.

A solução estará lá onde a civilização está organizada em um único e imenso impulso e uma única e imensa força, onde todos os homens estão integrados lado a lado, não como iguais, mas justamente como diferentes, uma vez que somente linhas distintas partindo de um ponto único perfazem um círculo perfeito. O que deve ser igual a todos, porém, é o balanço equacional entre o impulso individual e o impulso civilizacional, tal como no círculo a extensão e o modo de extensão de cada uma das linhas que partem do ponto central são a mesma para todas.

Isso exige que o que hoje chamamos de “liberdade para empreender” seja, evidentemente, aniquilado. Não deve haver liberdade alguma para “inovar” e, portanto, introduzir elementos alógenos e dissonantes na melodia universal. Pois no neoliberalismo, “liberdade para empreender” é o homem que monta um site pornográfico, aproveitando-se da carência psicológica dos demais, ou um salão de festas, ou uma rede de turismo, ou ainda um banco multi-bilionário, sempre se aproveitando de algum ponto fraco no sistema para gerar “riqueza”, isto é, lucro, um conceito essencialmente individual e dissonante na oikonomos do todo.

Em suma, a linguagem economicista deve desaparecer por completo, ou ser toda ressignificada dentro de rituais religiosos. A civilização deve ser sentida como uma roda mística onde sua unidade é a preservação e ordenação dos impulsos de cada uma e todas as partes como um todo, como uma alma. O mistério da semente que germina na terra durante uma dada estação deve ser observado também na perfeita harmonia com que os alimentos do campo chegam à cidade, alimentando a todos os homens ali alocados, como um fenômeno que manifesta a organicidade do sistema. A produção industrial, coordenada e controlada por mãos humanas, deve manifestar o milagre da inteligência criativa, de modo que os operários participem, não como peças substitutivas, mas como participantes de todo um corpo de produção que gerou este milagre, e todo dia de trabalho deve ser um dia de dança, e o trabalho deve ser uma dança, e a produção industrial ali gerada deve ser limitada aos movimentos desta dança e da demanda da civilização. A dignidade de todo participante e o equilíbrio da demanda com a da produção deve ocorrer não em honrarias individuais, mas devem saltar, como consequências, de um ritual do qual a produção é apenas uma das expressões. O trabalho não deve ser por causa da produção, mas “por causa” do ritual estabelecido, de modo que se trabalhe ainda quando não haja demanda, mas apenas para a execução de uma função (aqui, não necessariamente deve haver superprodução, porque a produção de um dado produto pode ser substituída pela de outro, ou ainda porque a jornada de trabalho pode não incluir, em caso de excesso, a produção efetiva dos produtos – e todo excesso casual deve ser ofertado às divindades da civilização).

Em outras palavras, a organização civilizacional deve mudar de paradigma, e seu objetivo deve ser o reajuste da esfera humana dentro da esfera cósmica, através de um estudo holístico dos ciclos naturais e da estrutura psico-social humana. As atividades que hoje chamamos de econômicas em um contexto neoliberal e que continuarão a existir, como alimentação e produção de alimento, devem estar integradas em um ciclo universal regido por rituais religiosos: aquele ato de produzir o alimento figurará como uma expressão de um ato maior, o motivo de produzir deve não ser a demanda física, mas o simples atuar no ritual, participar dele; de modo que, atuando neste ritual, o alimento também estará sendo produzido “por consequência”, e o homem alimentado “por consequência”. Assim, eliminar-se-á o dualismo entre as vontades individuais e a força coercitiva, a satisfação e o dever, pois nesta roda que gira a satisfação e o dever estão sublimados em um propósito superior – e não por conta de um sistema nivelador e opressor da individualidade, como aconteceria em Estados-nações socialistas, que tendem a empurrar o pêndulo neoliberal com toda a força no sentido oposto, também errando o alvo central, incapazes de encontrar a posição correta.

O homem só encontrará a salvação para seus problemas psico-sociais quando estudar os ciclos cósmicos e perceber sua posição, e a posição de cada uma das coisas em seu redor, nesta imensa roda cósmica girada por seres misteriosos. Pois a harmonia da roda psico-social humana depende de uma harmonia maior, de leis que ultrapassam a capacidade calculativa humana.

Um tal projeto se apresenta bastante difícil de se realizar, e vai depender de uma intensa atividade filosófica por parte de sábios e acadêmicos. O ponto positivo disso tudo é que duas ferramentas muito úteis a humanidade moderna já forneceu: Hegel e Mircea Eliade.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Dois Conceitos de Indivíduo

Tree of Life on Behance
Pintor desconhecido


Muitos homens, nos nossos tempos onde a confusão e a discórdia predominam em nível intelectual e político, encontram no neoliberalismo um meio (o único meio, em geral) para o desenvolvimento e a dignificação do “indivíduo”, e passam assim a explicar o neoliberalismo enquanto teoria política, na medida em que ele se oporia a todas as outras teorias, que, por sua vez, “aviltam” este mesmo indivíduo. Esses homens não sentem ser, então, muito imodesto opor em essência este “neoliberalismo” a uma espécie de “meta-comunismo” que estaria por trás de todas as demais doutrinas que supostamente sufocariam este indivíduo, seja em prol de um comunitarismo forçado seja em benefício de uma classe política dominante, “corrupta”.

O terrível dessa tragédia é que ela não apenas ocorre entre as classes populares, que estão distantes das pesquisas acadêmicas, mas que ela acontece sobretudo nas nossas classes intelectual e política, dentro e fora da universidade as duas classes de quem a mão facilmente alcançaria o conhecimento, bastando a reflexão e a busca desinteressada.

Devemos distinguir, assim, dois conceitos de indivíduo que estão inseridos nessa confusão, a fim de esclarecer melhor a distinção entre o neoliberalismo, de um lado, e as doutrinas de tonalidade espiritual de outro.

O conceito de um indivíduo que cria e transforma o mundo, que se desenvolve através de uma constante labuta sobre si mesmo, em uma guerra espiritual contra seus demônios internos, figura muito frequentemente em autores como Nietzsche, Oswald Spengler, Aleister Crowley e Georges Gurdjieff. Ela também é comum em autores cristãos, como Kierkegaard, Santo Agostinho, assim como aparece em geral em toda tradição neoplatônica desde Plotino e Porfírio.

O que estes autores pretendem com suas doutrinas é incitar o desenvolvimento de um homem que, em despeito de um mundo decadente e corruptor, deve voltar a si mesmo a fim de trabalhar sobre si, purificar-se a si mesmo das impurezas do mundo circundante. Ao se purificar em isolamento, ativando potências criativas profundas, ele também é capaz de se tornar deus de si mesmo; ele se torna um deus criador que plasma sobre o mundo uma realidade divina que ele mesmo havia alcançado por um esforço individual, uma luta interna.

Nestes casos, uma espécie de loucura e de permissividade para a loucura é muito comum. Uma loucura que, por sua vez, já encontramos em Platão, no Fedro, quando Sócrates afirma que a loucura (mania) traz algumas das maiores bênçãos ao homem, e distingue seus tipos; primeiramente, a loucura é definida como um certo destacamento do homem em relação à comunidade, depois que há dois tipos, um que surge da doença e outro que surge de uma libertação divina do homem em relação aos hábitos comuns. Esta loucura divina ainda é dividida em quatro categorias: a profecia, inspirada por Apolo, a loucura mística, por Dioniso, a poética, pelas Musas, e o amor, por Afrodite e Eros.

Nietzsche também foi um adepto dos discursos proféticos (Der Antichrist, por exemplo), do isolamento individual (So Sprach Zarathustra) e, sobretudo, de uma doutrina que ele chamou de vontade de poder (Wille zur Macht). Para Nietzsche, um certo niilismo é necessário, porém não enquanto fim, e sim enquanto meio para o homem se tornar criador do próprio mundo, tornando-se inatacável pelas chagas e pela dor. Um certo estoicismo se faz presente aqui, o uso da dor para a superação dela mesma, uma transformação interna, um trabalho espiritual que o homem faz consigo mesmo. Nietzsche também foi romântico, amante das belas artes, da inspiração de Wagner e da grandeza de Napoleão. As sutilezas do belo deveriam vir com a paixão interior e se unir aos acontecimentos do mundo, à vida em um transe. Este mundo o qual o Übermensch cria ele mesmo é um mundo de beleza e superioridade moral, a Kalokagatia dos gregos que unia o bem ao belo como o ideal da nobreza, sobre o qual Werner Jaeger discursa em Paideia.

Goethe também pode ser incluído entre estes que clamam por um certo isolamento. Leonardo da Vinci, os alquimistas e os renascentistas em geral, que buscavam encontrar o padrão matemático do mundo, o elixir da juventude ou a transformação do bronze em ouro também. Assim, seu isolamento de modo algum tendia a uma certa permissividade absoluta, a uma “liberdade individual” para a exploração coercitiva do mundo em benefício de prazeres desregrados. Muito pelo contrário, o objetivo desses homens sempre foi o afastamento do conforto e das facilidades da vida em comum, para que pudessem entrar nas cavernas do seu interior e confrontar seus próprios demônios, vencê-los; ou ainda, a fim de esculpir em si mesmo formas cada vez mais sutis, polidas, capazes de encontrar também na natureza níveis de padrões cada vez mais profundos e sutis, identificando-se a estes padrões, espelhando-se neles.

Isso leva a uma conexão intrínseca do homem com o mundo, a uma fusão espiritual que a vida em comunidade não é capaz de proporcionar (pelo menos entre seus contemporâneos decadentes, já que todos estes homens acreditavam em uma comunidade primordial e mística que foi perdida, como é o caso de Hiperbórea e de Atlântida).

Todos estes homens são adeptos daquilo que na Qabalah se chama de “caminho da mão esquerda”, isto é, do caminho que leva a um rompimento individual em relação ao comum, com o fim do aperfeiçoamento interno. Aqui também o homem se torna deus de si mesmo e se torna ele mesmo criador do mundo, em despeito daquilo que havia sido dado pelo mundo e que deve ser destruído, tornado cinzas de onde deve renascer a Fênix. É o caminho que nada contra a maré e investiga as leis profundas da realidade, vindo a conhecer o paraíso perdido, depois do que o mundo em si mesmo é levado a ele por um homem renascido mago, sábio, profeta. O mago visa a reconstrução da harmonia primordial, a ordem (kósmos), de modo que, na medida em que deve transformar a si mesmo, passa a transformar também o mundo; Giordano Bruno é um dos grandes exemplos que podemos conceber, a quem a ordem sócio-política e religiosa, cada vez mais prestes a uma catástrofe de reformas que aprofundariam a confusão europeia do momento, era uma preocupação de caráter e de cura metafísicos.

O mais novo mago, filho desta mesma tradição alquímica, hermética e qabalista da Renascença, é o professor Alexandr Dugin, para quem as teorias não são verdades abstratas, mas feitiços capazes de reorientar o homem a um estágio que imite a harmonia perdida. É por isso que a Quarta Teoria Política não encontra vias de ser compreendida pelas categorias dicotômicas das teorias modernas. A QTP não pode ser individualista, comunista, porque ela enxerga o indivíduo e a comunidade como dois aspectos complementares de uma mesma realidade indivisível[1]. Nas ciências, na Física por exemplo, aproxima-se de especulações semelhantes e fala-se do mundo como um holograma plasmado por um padrão externo.

Este Solve et Coagula, princípio que rege a alquimia e, podemos dizer, a “mão esquerda” na Qabalah, embora assuma um certo isolamento individual em relação ao comum, está longe de significar uma dissolução do comum ou uma certa auto-permissividade absoluta; o objetivo é a superação de si, o que leva a uma luta consigo mesmo, e não a escravidão do mundo aos desejos subjetivos. É uma certa iniciação ao mistério do mundo ele mesmo, semelhante às viagens órficas ao mundo inferior, o Hades, para salvar sua amada. Ele não exclui, portanto, o comum, muito pelo contrário: é com o intuito de reorientar este comum, que tem preeminência ao particular, que o isolamento acontece. A ordem é um todo ao qual as partes pertencem, mas cada parte tem seu lugar natural; o adepto da mão esquerda quer conhecer este “mapa” metafísico e, conhecendo-o, tratar de Solver o desigual e confuso e Coagular de novo os elementos de acordo com a ordem do todo, em suma, separar o que deus separou e reunir o que deus uniu.

Analisemos agora o que é o individualismo neoliberal, para vermos o quão distinto ele é deste conceito dignificante do indivíduo, que a imensa maioria dos liberais atuais julga encontrar na primeira teoria política, por falta de estudo (estudo não é só leitura, mas também permanente reflexão) e por excesso de prepotência.

O liberalismo é uma ideologia baseada em um sistema abstrato restrito à Inglaterra da época das revoluções industriais. O império marítimo de John Dee, de caráter espiritual, foi sufocado e substituído por uma máquina moderna, um Estado-nação cuja atividade máxima é a regulação das relações entre indivíduos. O indivíduo é a substância, enquanto o Estado é o acidente, o instrumento por meio do qual o indivíduo deve “se realizar”, isto é, realizar seus desejos. Com Thomas Hobbes, John Locke e Adam Smith o liberalismo ganha seus contornos fundamentais; a noção do contrato e da mão invisível do mercado determinam o significado da comunidade.

Isto favoreceu os primeiros industriários, burgueses que, transformando o cenário sócio-político, se tornaram os grandes magos-negros de um sistema corrosivo que tendia à derrubada dos reinados europeus e a substituição da nobreza por uma classe financista, cujo poder se baseava no dinheiro. A estrutura do Estado visava, assim, assegurar a propriedade destes “homens de negócio” através da polícia, protegendo, assim, o câncer de seus antídotos naturais. O surgimento do conceito de indivíduo moderno, embora tenha raízes profundas no medievo e na antiguidade, se cristalizou apenas com a chegada dos sistemas liberais e contratuais que visavam a proteção e a legitimação dos grandes capitalistas, banqueiros etc. O indivíduo surgiu como um elemento mecânico dentro de uma grande máquina artificial, portanto está longe de ter alguma conexão com a realidade ou de ter nela algum embasamento, até mesmo nas especulações quase-metafísicas dos filósofos ingleses, como é o caso de Locke, que usa a concessão divina a Adão de povoar a Terra como uma legitimação paradigmática da propriedade individual.

A propriedade individual dos liberais não quer dizer usufruto ou mera posse, ela quer dizer a liberdade de o dono exercer sobre ela total imposição de suas vontades em detrimento dos demais homens que pertencem ao mesmo Estado. O indivíduo passa a ser um átomo, e toda sistematização “filosófica” passa a servir apenas como sustentáculo de uma vontade de legitimação de um estado de coisas, como instrumento de homens de poder. Aqui, a metafísica passa a servir o homem, a Sofia adorada e buscada pelos platonistas passa a ser subjugada para os propósitos ônticos de um grupo seleto de homens; há uma completa inversão na via da “mão esquerda” qabalista, de modo que o liberalismo não seja uma via iniciática, mas contra-iniciática, pois ele não é meramente o aspecto terrível do divino, mas encarna o mal e nele pretende permanecer. O Solve liberal passa a dissolver o que deveria permanecer unido e Coagular o que deveria permanecer separado, e quem determina o quê e o como é meramente a vontade abstrata de alguns homens de obter prazer insaciável e uma onipotência que pertence metafisicamente apenas à Árvore da Vida.

O resultado é a transformação do mundo, não pela vontade de poder nietzschiana, que transforma a si mesmo a fim de vencer as intempéries da vida, mas pelo mero desejo subjetivo do indivíduo de fazer o mundo ter que se transformar para conviver com o indivíduo, que se tornou átomo e sujeito do mundo. Nesse sentido, o homem liberal é claramente um autista, um psicopata cuja psique não está adequadamente formada. O Estado-nação liberal, por sua vez, se torna o câncer do mundo, esmagando e corrompendo a natureza em todos seus âmbitos e níveis, trazendo nada mais nada menos do que sofrimento interminável e a eterna corrupção da Árvore da Vida.

Mais do que isso, o liberalismo se alimenta justamente da inversão deste Solve et Coagula, pois todo ocultista e neoplatônico sabe a que ponto a natureza sempre tende a buscar uma resolução para os seus problemas. Se há uma calçada, a planta contorna pelas frestas, até que, com o passar dos anos, o sol, a chuva, o vento, o caminhar dos insetos, dissolvem a calçada, fazendo com que o lugar volte a ser inteiramente harmonizado com os ciclos cósmicos. É a vontade da natureza eternamente dinâmica que visa a dissolução dos obstáculos e a harmonização do movimento cósmico como um todo; nesta harmonização há o êxtase divino, e nele o êxtase de todas as coisas em conjunto, em uma experiência erótica. O liberalismo, pois, se alimenta da criação de obstáculos a esta harmonia, pois a “cura” ele oferece em troca do poder aquisitivo (o dinheiro) daqueles que carecem da harmonia em si e entre si e o mundo: a indústria alimentícia lucra com a destruição dos nutrientes, uso de toxinas, transformação genética, ao passo que a indústria farmacêutica lucra com o resultado disso, oferecendo um remédio (nunca a cura, apenas o remédio!); a destruição da fauna e da flora, a transformação dos ciclos das estações, das abelhas e insetos em geral, torna o homem carente da sociedade para se alimentar; o homem nascido nas cidades, ignorante das leis da natureza, se torna dependente da sociedade para viver em todos os sentidos; aliado a isto, a propaganda, a televisão, as mídias em geral reforçam sua ignorância e dirigem sua atenção. Isto tudo escraviza o homem ao sistema, mas um sistema cujo único amálgama é a força policial, e não a natureza e as necessidades naturais.

Mais recentemente, o liberalismo tem focado, através da cultura, na dissolução das relações entre homem e mulher, entre pais e filhos. Isto alimentou a indústria pornográfica, a de relações por redes eletrônicas, subjugou as universidades aos interesses do mercado, além, claro, da indústria de cosméticos e a farmacêutica, que lucram com qualquer tipo de transtorno social, que sempre tem sua correspondência psicológica – pois o homem é, internamente, um espelho do universo.

O subjetivismo das teorias pós-estruturalistas está nesta esteira também. Embora haja no pós-estruturalismo a figura do dividuum, isto é, de um homem não mais homogêneo, e sim heterogêneo, ela não contrasta com a figura do indivíduo, mas é mais um aprofundamento da crise existencial em torno do conceito de indivíduo moderno. O indivíduo continua sendo ele mesmo, mas agora ele é dividido internamente: assim como anteriormente ele havia se divorciado do mundo e da sociedade, agora suas partes se divorciam entre si. A psicologia nunca foi tão necessária às massas insaciáveis quanto nos nossos tempos! As doenças psicológicas, a quantidade de psicopatia, psicose e neurose alcançaram níveis catastróficos e ameaçam a teia civilizacional. É a força da polícia e da esfera jurídica que mantém o corpo social unido, para o imenso gozo dos capitalistas, inatingíveis em suas torres de marfim. O conceito de indivíduo e a teoria liberal como um todo servem para dar sustentáculo intelectual a este sistema, fortalecendo ainda mais o poder coercitivo das autoridades e a sujeição cada vez mais massiva e cruel das massas.

Nisto não há nada de nietzschiano, como muitos costumam pensar. Não há nada de “mão esquerda”. E não há nada de natural. É abstrato e, mais do que isso, falso, hipócrita, pois a única pretensão da teoria é ser instrumento político – nada mais[2].

E desse modo desfazemos também a dicotomia liberalismo-comunismo e ampliamos o olhar sobre o debate político. Nem tudo o que se opõe ao conceito de indivíduo visa a uma dissolução dos homens enquanto elementos de uma totalidade; muito pelo contrário, é a abstração atomista e subjetivista do indivíduo que nivela o mundo, apagando diferenças e modelando os elementos de acordo com sua vontade. O liberal, obcecado, cego, autista, incapaz de observar a objetividade no mundo, encara todas as teorias segundo seu próprio paradigma, tornando-se cego às nuances e diferenças de sentido dos conceitos entre os sistemas. Nem mesmo o comunismo é, como pensa o liberal, uma nivelação brutal das diferenças, e bastaria que estudasse as teorias para que compreendesse melhor – pois sua ignorância o está levando a um nível de arrogância violenta que o fará cometer erros terríveis.

O liberalismo é o mal absoluto. Repetindo o que afirmou Dugin, é puro satanismo.

NOTAS

[1] É por isso que a Quarta Teoria Política prefere falar em pessoa como o aspecto que representa a particularidade, e não “indivíduo”. Este conceito de indivíduo, de fato, não é muito adequado para estudar a polaridade entre particular e universal. O significado etimológico de “indivíduo” é de algo que não se divide, que é inteiro, completo, autossuficiente (o que torna o comum algo inessencial), o que, metafísica, natural e politicamente falando, é um evidente absurdo para definir o homem e qualquer outro ser vivo. O homem como pessoa, pelo contrário, pressupõe o comum, porque a pessoa tem um rosto, uma personalidade, uma função, uma aparência por meio da qual ela se insere e se encaixa na rede comunitária, sendo vista por ela, assim como ela é vista pela natureza e pelo kósmos aos quais ela participa por ser aquilo que ela é; a pessoa sempre tem um contexto (natural, social, político, metafísico etc.), o indivíduo, por ser abstrato e metafisicamente inteiro e completo, não. Uma boa imagem é conceber a pessoa como um trecho de uma narrativa poética, um pedaço de uma pintura, um elemento da natureza, e o indivíduo como um ponto no mapa cartesiano.


[2] Sobre este uso hipócrita da teoria liberal, vale a leitura do livro Insubordinación Fundante, de Marcello Gullo Omodeo, onde ele mostra que a ideologia privatista é usada, desde o início do colonialismo imperial inglês, como ferramenta para confundir povos estrangeiros a fim de derrubar seus governos e dominá-los, ao passo que, na própria Inglaterra, o Estado sempre teve uma participação intensa nos investimentos econômicos e na organização social como um todo, ainda que não tenha sido de maneira ideal, mas em um contexto liberal.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

(POEMA) A Short Mission of Beauty

Aleah
From somewhere distant
comes a voice from without
delivering a message
into my soul, a whisper.

Clad in words and sounds
something different she speaks
and no one acquaints
but directly by soul.

A breath, a phantom of voice,
a ripple of memories from anywhere
moans down here and there
-- a spark who awakens and toils

disturbing men, demons and gods,
lifting them by only mots
which sink bright into the earth
to disperse chaos and dark.

Eternity comes true
and life turns a dream;
death, only a mean
for this goddess Beauty.

Yes I can breath
thee entirely;
while thou speakest to me
I merge, Aleah.

From night skies thou fallest down here,
sparkling stars from ether
the smoothing cold God's face,
to us affordest a painful Starbridge
(to walk, to think, to love and die through).

Creation for god is an instant
as for it into itself is his message,
everything in a trance we grasp,
in our heart everything is intimate.

So thou came to shine
and stayed for short,
put the world in lost
and departed to Light.

Up is down and down is up,
left is right and right is left,
death is life and life is death,
in this way all is sure:
by thy side I will be fine,
by thy side god ever shines.[01/01/2018]

Em memória de Aleah Liane Stanbridge (Starbridge). Não a conheci, mas sua voz, seu rosto e seus poemas, gravados em músicas, além de serem de uma beleza incomum são de alguma forma muito familiares e misteriosos, e de alguma forma profetizam seu estranho destino. Veio e foi-se jovem, feito uma centelha que desceu apenas para estalar uma mensagem e recolher-se à sua morada original. Nem todos descem sem missão.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

Andrey Gusielnikov
Comunicação apresentada em 09/12/2017 por ocasião do I Fórum das Resistências, organizado pela Resistência Sulista e pela Nova Resistência - Brasil, em Porto Alegre.

Nossa comunicação tem por objetivo tornar mais clara a Quarta Teoria Política, buscando compreender como ela funciona em termos de prática política, isto é, compreender como o sistema político pensado pela QTP se organiza socialmente.
Para isto, começaremos por construir uma 1) breve introdução à QTP; 2) em seguida, nos aprofundando mais, trataremos um pouco sobre o conceito de Mitsein encontrado em Heidegger e, por fim, 3) entraremos no nosso objeto de estudo, que é o sistema holístico subjacente na QTP.

1) Introdução à Quarta Teoria Política

Ao fundar a QTP, Aleksandr Dugin busca apresentar um modelo político para substituir os modelos já existentes.
Estes modelos já existentes são a) o liberalismo (a 1ª teoria política), b) o socialismo (a 2ª teoria política) e c) o fascismo (a 3ª teoria política). Destes, só o liberalismo continua vigorando, enquanto os demais foram enterrados para nunca mais voltar.
Dugin difere estes modelos a partir da concepção de sujeito político que cada uma tem.

a) O sujeito político do liberalismo está fundamentado no indivíduo. É a função do indivíduo, enquanto átomo formador da sociedade, que determina toda gerência da sociedade. É em função dele que as normas são desenvolvidas. Não há, assim, reconhecimento de identidade ou comunidade qualquer: cada homem é um átomo, um indivíduo separado dos demais.

b) O sujeito político do socialismo é a coletividade. Não é mais o indivíduo solitário que serve de base para a gerência estatal, mas é o agrupamento geral e universal de todos os indivíduos em conjunto. Contudo, esta coletividade compreende a classe social, sobretudo a classe proletária, que deve lutar contra as demais em benefício de uma tomada de poder.

c) Por fim, o sujeito político do fascismo é a raça, ou, no caso dos nacionalismos burgueses, o cidadão, compreendido em sentido genérico.

Todas estas três teorias políticas são modernas. Estão estabelecidas sobre a concepção de sociedade civil, que não existia ainda no período medieval.
Contrapondo estas três teorias, a QTP, buscando negar a concepção de sujeito delas, estabelece um novo sujeito: o Dasein.
O Dasein é um conceito do filósofo alemão Martin Heidegger, um conceito existencial, metafísico do homem. Para Heidegger, o homem não é um ser isolado do mundo nem das outras pessoas, não é um sujeito fechado em si mesmo, independente, e muito menos completo.
Para ele, o homem já nasce determinado por características que o ultrapassam e que o definem enquanto pessoa. Isto inclui genética, religião, cultura, nacionalidade, tradição familiar, contexto histórico, político e social, etc. O modo de pensarmos e de existirmos está determinado por estas características. O homem que é gaúcho não tem como se colocar no lugar de um nordestino para avaliar um objeto determinado; eles têm maneiras diferentes de enxergar as coisas. Mas nenhum está errado em si; ambos estão corretos.
Dessa forma, o homem está intrinsecamente conectado com aquilo em que ele está inserido, isto é, com sua tradição. O que ele determina vale para sua tradição, mas não vale para as outras.

Mas existem níveis distintos de identidade.

Podemos diferenciar estes níveis chamando um de a) microcósmico e outro de b) macrocósmico.

a) A identidade microcósmica é a identidade imediata do povo. Ela é a identidade subjacente de cada homem, estando no nível mais enraizado e imanente. É a identidade primeira, aquela que diz o que cada um de nós é em verdade. Por exemplo: o índio Pataxó, o caipira, o gaúcho hibérico, o teuto-brasileiro, o quilombola e assim por diante.

b) A identidade macrocósmica é uma identidade com um nível de abstração maior e tem um caráter imperial. No nosso caso aqui é o Brasil, cuja história também foi determinante para a caracterização dos povos regionais; em um nível mais abstrato, mais distante, todos pensamos como brasileiros.

Poderíamos acrescentar ainda uma nova identidade, que apesar de ser mais abstrata que a brasileira tem uma importância não apenas geopolítica, mas também étnica, e é a latino-americana.
De modo que, naquilo que compete a cada brasileiro, todos são capazes de avaliar questões objetivas de forma semelhante, pois são brasileiros, se transformaram, cada qual a seu modo, junto com o Brasil ao longo das gerações, adquirindo no nível macrocósmico também a identidade brasílica e latino-americana.
Todos estes níveis, cada um em seu lugar, são identidades enraizadas[1], porque pertencem ao homem e definem sua maneira de ser.

2) O Fundamento Coletivo do Dasein: o Dasein é um Mitsein

O sujeito da QTP é o Dasein. Este termo alemão costuma ser traduzido por “ser aí”, e designa a natureza do homem como um ser diferenciado capaz de se empenhar na busca pelo ser.
Em outras palavras, o homem é o ser capaz de tomar consciência sobre sua própria existência. A partir daí, surge a questão: mas o que é o homem? E como alcançar o objeto desta busca?
Para Heidegger, este Dasein é essencialmente Mitsein[2]; traduzindo: um ser-com. Desse modo, não há nada na natureza humana que preceda, existencialmente falando, a relação com os demais seres. Não há antes um homem e depois sua relação com os demais seres[3].
Já vimos que as três teorias políticas modernas se fundamentam no sujeito individual, considerado fechado em si mesmo, independente. Para elas, as relações sociais são acidentais, isto é, são irrelevantes para a caracterização da natureza do homem enquanto homem.
Para Heidegger, porém, e para a QTP, inspirada nele, as relações entre os homens e entre o homem e a natureza fazem parte da própria constituição existencial do homem. Desse modo, Heidegger define o homem como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein). Este “no” quer dizer pertença: o homem pertence ao mundo, e podemos ainda concluir: o homem é filho do mundo, expressão do mundo. E todas suas características “individuais” são dadas pelo próprio mundo, pré-existindo no ser antes de se manifestar como homem.
Assim, ao se falar sobre as necessidades humanas, deve-se considerar também as necessidades do mundo, da natureza e dos outros homens. Deve-se considerar também uma história, uma pertença social (o Volk), que determinam a maneira do homem de encarar seu próprio presente e seu próprio futuro. E esta determinação envolve toda uma comunidade social, uma tradição.
Portanto, se o homem é ser-no-mundo e se ele se caracteriza, assim, por uma existência comum, compartilhada com outros que também pertencem à mesma tradição, pode-se dizer que tudo o que se pode pensar sobre o Dasein pode-se pensar também sobre a comunidade, e tudo o que se aplica ao Dasein serve também para a comunidade[4]. Pois o homem, enquanto Dasein, é um ser em comunidade com outros seres.

Heidegger distingue, assim, dois tipos de Dasein: a) o Dasein inautêntico e b) o Dasein autêntico.

a) O Dasein inautêntico é o homem médio, medíocre, esquecido de si mesmo. E “esquecido de si mesmo” quer dizer, de acordo com o que vimos até aqui, o homem não desperto para sua pertença ao mundo e à tradição. Ele é, de certo modo, a figura do indivíduo, o homem que abandonou sua identidade, por uma questão de esquecimento.

b) O Dasein autêntico, pelo contrário, é o homem que vive na Verdade. E Verdade, do grego aletheia, significa “des-esquecimento”[5], isto é, rememorar, relembrar -- recordação. É o homem que está sempre recordando sua própria natureza, que vive ativamente na comunidade a qual ele pertence, sendo quem ele é.

Pelo fato de o homem não se definir ontologicamente como um átomo, como um indivíduo apartado do mundo, mas, pelo contrário, por se definir justamente como um ser que pertence ao mundo e que pertence a uma tradição, e desse modo o mundo como um todo participar de um modo de existência complementar com o do homem, podemos enxergar neste aspecto da teoria heideggeriana, muito caro à QTP, que a maneira quarto-teórica de visualizar os sistemas metafísicos, científicos, políticos, tem um caráter genuinamente holístico.
E é sobre isto que vamos falar agora.

3) O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

Para se compreender um pouco melhor como a Quarta Teoria Política concebe a estrutura política, é necessário fazermos uma breve regressão na história e na filosofia para alcançarmos os conceitos principiais.
A palavra “política” vem do grego polis, que significa cidade-Estado. Não é uma cidade, não é um Estado, mas é como se fosse um Estado em escala muito reduzida, com um centro urbano que funciona como uma instituição de unificação do Estado, onde todas as atividades direcionadas ao público, isto é, a política em sentido amplo, que inclui administração, formação intelectual, moral, religiosa e militar daquele povo. Eram “cidades” independentes em todos os sentidos, autossuficientes. Por isso elas constituem uma espécie de universo: a cidade-Estado é um universo à parte. E este é o sentido primitivo e originário do termo “política”: ser um universo, um microcosmo.
Nosso interesse aqui é buscar compreender um pouco de que modo as teorias modernas compreendem este universo e de que modo a Quarta Teoria o compreende. Porque são teorias completamente diferentes, que levam a consequências radicalmente distintas na estrutura, na organização e, assim, na administração desta estrutura.
E para compreender isto é necessário ter em mente o seguinte: em toda a história do pensamento e da política, bem como de todas as instituições subsequentes, como as ciências, o Direito etc., o que está em jogo nesta estrutura sistêmica (e metafísica) é uma tensão entre dois polos opostos: o indivíduo, de um lado, e o coletivo de outro. As disputas políticas, por essência, estão baseadas nesta tensão, pois os lados enxergam aspectos diferentes nela ou partem de interesses divergentes.

Comecemos por pensar as teorias liberais.

As teorias liberais compreendem a estrutura política de um Estado segundo o conceito de indivíduo. “Indivíduo” aqui tem o significado do átomo, isto é, um elemento independente, autossuficiente e (é importante isto aqui) fechado em si mesmo.
Ao mesmo tempo, cada um dos indivíduos tem um valor idêntico ao dos demais: não há uma personalidade individual, uma característica distintiva. Cada indivíduo é apenas uma bolinha em uma piscina de bolinhas, sendo que nessa piscina de bolinhas todas as bolas têm a mesma cor, o mesmo tamanho, a mesma densidade, etc.
Não há, em um sistema liberal, a importância da personalidade. Vale apenas a pessoa enquanto número. Isto torna o individualismo igualmente universalista, uma vez que ele nivela as diferenças ontológicas, utilizando um mesmo padrão distintivo e valorativo para todos os indivíduos.
O Estado seria então um agrupamento de indivíduos que se reúnem para organizar tarefas em conjunto[6]. Como estas tarefas não levam em consideração a personalidade da pessoa, tanto faz quem executa tal e tal função. E, deste modo, as atividades dos indivíduos se caracterizam por ser de um tipo baseado em competição individual: e o modo de fazer isso nos moldes dos Estados modernos é a especulação financeira ou o alpinismo social.
O que nos interessa aqui é que as teorias liberais dão ênfase para o indivíduo, nesta tensão entre o indivíduo e o coletivo. Vale, então, o livre-arbítrio, o desejo subjetivo e o manejo das leis por parte de cada indivíduo em benefício próprio.

Nas teorias socialistas, comunistas, a coisa é um pouco diferente, mas não muito.

A concepção de indivíduo que os socialistas têm é idêntica à dos liberais, isto é, a ideia de que cada homem é um átomo em um sistema, e que o sistema é, por definição, uma composição artificial de átomos.
Por isso a ênfase deles na sociedade civil: para fazer a revolução russa, é necessário desenvolver uma classe proletária, para levar socialismo para a Sibéria é necessário desenraizar os povos xamânicos e encaixotá-los em apartamentos, pois, segundo eles, não haveria “igualdade” de outra forma; isto é, não haveria o nivelamento individual-universal que torna cada pessoa um número em uma massa de composição homogênea.
Deste modo, se distinguindo do liberalismo, no socialismo, nas teorias “vermelhas”, não é o indivíduo em si que têm a preeminência sobre o coletivo, mas o coletivo em si. Abrindo mão da liberdade individual, o socialismo briga pela igualdade genérica de todos os átomos entre si: não é mais a bolinha na piscina que tem a liberdade de fazer o que bem quiser, mas a piscina quem lhe dá ordens para executar funções outorgadas de um centro administrativo.
No liberalismo, bem como no socialismo, o homem continua sendo apenas um número. O que muda é a tensão na polaridade: o primeiro tende a sucatear o coletivo em benefício do indivíduo, então surgem as privatizações, o descaso com o espaço público, com a ordem pública, com a saúde pública; enquanto o segundo tende a abandonar o indivíduo em benefício do coletivo, de modo que a ordem coletiva se torna abstrata e os indivíduos, que são diferentes, nivelados por baixo, para desenvolver uma igualdade genérica no interior do sistema político e social[7].

Algo semelhante pode-se falar sobre a terceira teoria política: trata-se de uma coletividade artificial e abstrata, com a diferenciação de receber um distintivo, também artificial e abstrato, como por exemplo o nacionalismo “ucraniano” e o “finlandês”, cuja nacionalidade, embora vise descrever uma característica geral para todos aqueles que se encontram no interior da “nação”, está longe de fazer o recorte adequado, pois em primeiro lugar 1) não há homogeneidade étnica em nenhum destes Estados, e em segundo 2) há maior parentesco entre etnias de certas regiões ucranianas com povos de outros países, como é o caso do leste ucraniano, que se considera definitivamente russo e ortodoxo. Assim, o homem na terceira teoria política também é apenas um número dentro de uma massa artificial e abstrata.
            Em suma, a terceira teoria política pode tender nesta polaridade tanto ao polo individual, se aproximando do liberalismo, quanto ao polo coletivo, se aproximando do socialismo. E a base por meio da qual ela se desloca no eixo polar é a unidade abstrata da nacionalidade, o ser “ucraniano”, por exemplo.

Já na Quarta Teoria Política, o conceito de sistema é completamente diferente.

A QTP se baseia no conceito de holos, que também é um termo grego e significa “o todo”. Este todo, porém, é uma síntese entre os dois polos combatentes, o indivíduo de um lado e o coletivo de outro. O conceito de holos é, assim, o modelo primitivo de organização política, é o modelo de um uni-verso, em que a unidade e a diversidade constituem dois aspectos de uma mesma realidade que, no escopo político, constitui a polis, a cidade-Estado ou organização política primitiva e originária.
Assim, o sistema político da QTP constitui um holismo.
O homem, neste sistema, não é mais considerado um indivíduo. Pois, como vimos, o indivíduo é um ser fechado em si mesmo, e o homem, pelo contrário, é um ser orgânico, cuja essência inclui o respirar, o evacuar, atividades essencialmente relacionadas com o meio “externo” ao “indivíduo”.
Assim, o homem não pode ser considerado um ser autossuficiente, fechado em si mesmo, pois morreria se o fechássemos em um saco plástico e o enviássemos ao vazio do espaço sideral, além de sua existência não fazer o menor sentido sem a vivência com o mundo “externo”. O homem vive através dos olhos, dos ouvidos e dos demais sentidos; o homem vive para ver, para ouvir, para sentir, portanto não tendo nada para ver, ouvir, sentir, sua existência deixa de ser vida, propriamente falando.
O homem, então, não mais se define por ser um átomo. Sua definição e sua essência devem incluir o universo “externo” a ele mesmo, pois ele depende, existencialmente falando, do mundo “externo”.
E o mundo “externo”, em contrapartida, também depende do homem. Inclusive a natureza depende do homem, que ao longo dos milênios evoluiu e se transformou em adaptação às atividades humanas, passando a depender ela mesma da simbiose com a atividade humana[8].
Desse modo, isto a que chamamos de “mundo externo” não mais é, estritamente falando, um mundo externo, mas um componente partícipe de um todo (holos) do qual o homem, também, faz parte.
Neste sentido, todos os elementos deste uni-verso são seres simpáticos entre si, cuja amizade e cooperação mútua é essencial para sua própria constituição enquanto elementos.
E o homem, então, não sendo mais um número, será valorizado e terá importância de acordo com sua personalidade, sua figura, isto é, sua pessoa, que é a expressão viva daquilo que ele é no corpo deste universo. A personalidade dele determina aquilo que ele é, e esta personalidade inclui características genéticas, formação cultural, história, idade, habilidades especiais, religião etc. São estes os parâmetros, também, por meio dos quais o valor e o caráter do homem são determinados.
O que isto significa, em termos políticos, podemos visualizar com alguns exemplos: enquanto no liberalismo e no socialismo é o interesse e a astúcia individual que determinará as ações do homem na sociedade, no holismo, que compõe a QTP, cada ser humano terá seu lugar natural no grande universo político, determinado por suas características pessoais.
Assim, as habilidades pessoais, por exemplo, determinarão a vocação profissional de um homem, e sua constituição étnica determinará sua terra e seu povo de pertencimento, isto é, sua pátria. Tomando mais um exemplo específico, um alemão como eu, por exemplo, tenho meu lugar no Brasil, e até aí minha pátria é brasileira, mas se avançarmos mais a fundo, veremos que minha característica é ainda mais específica que isso, porque sou alemão e pertenço à comunidade alemã, tenho uma mentalidade alemã, vivo como alemão, e neste sentido específico minha pátria é a comunidade teuto-brasileira.
Se estivéssemos dialogando de acordo com os princípios modernos, haveria contradição neste raciocínio, pois a pátria de alguém não pode ser considerada brasileira e ao mesmo tempo teutônica. Mas o holismo tem um lugar natural para tudo, tanto em níveis macrocósmicos quanto em níveis microcósmicos, de modo que sempre é possível avançar para a universalidade bem como para a particularidade, sem que incorramos em conflitos lógicos.
Voltando à profissão: não mais deve haver uma desigualdade de renda como ocorre nos sistemas modernos, dissolvendo a luta de classes ao mesmo tempo em que se resolve os motivos que gerara as lutas de classes. Entra aí também um certo tipo de distributismo econômico, que tem raízes cristãs.
Mas acontece que, de acordo com o holismo, cada uma das profissões e cada um dos trabalhadores nestas profissões determinadas, tendo sua importância particular, não apenas econômica, mas também espiritual, deverá encontrar sua dignidade, isto é, seu lugar natural no sistema como um todo, de acordo com seu caráter, tanto moral quanto funcional.
Pois vejamos: nós, homens da cidade, precisamos comer. E para tanto, precisamos de agricultores, pois se agricultores não plantarem, nós não comeremos. Assim nós precisamos do povo no campo, trabalhando lá com aquilo que eles sabem fazer de melhor, tendo conhecimento e habilidade para isto.
Da mesma forma acontece com o homem do campo, que sem a cidade não terá tecnologia, não terá escolaridade, não terá indústria, não terá organização política, portanto não terá segurança, tanto interna quanto externa, através das forças armadas. Assim também o homem do campo precisa do homem da cidade[9].
No sistema holista, todos os elementos são determinados por sua função, e sua função é sua personalidade. Lembramos de novo que esta função não se reduz à econômica, mas se estende à psicológica, intelectual, política e espiritual. Há, portanto, neste sistema, um lugar para cada elemento, e não deve haver problemas tais como desemprego, altas concentrações de renda, especulação financeira, etc., pois tudo está regulamentado em função do todo, e não mais do interesse individual das partes, enquanto este todo não é mais o coletivo, pois neste coletivo tudo o que não se encaixa no conceito abstrato de indivíduo está excluído enquanto ser existente.
E todos os elementos necessitam dos demais, da mesma forma que um pé precisa de um fígado, pois se não fosse o fígado não haveria o homem a quem pertence o pé. E assim não haveria também o pé. Este é o espírito da sociedade orgânica e do sistema holístico.

Agora façamos algumas considerações com respeito às relações internacionais, ou interétnicas, de acordo com este conceito de holos.

Ultrapassado o paradigma moderno do Estado-nação, a QTP põe os olhos sobre a simpatia entre as comunidades étnicas, cada uma tendo seu lugar natural no universo[10]. Dessa forma, dispensa-se o separatismo político-econômico para a defesa de tradições regionais, pois dentro de cada Estado-nação, como são exemplos paradigmáticos muito semelhantes entre si a Rússia e o próprio Brasil, há na QTP uma autonomia maior para a regulamentação administrativa por parte de cada comunidade em particular, de modo a permitir que cada comunidade governe a si mesma de acordo com seus próprios costumes, permitindo e proibindo costumes alógenos.
Em nível internacional, os Estados-nação estão relacionados de acordo com o conceito de multipolaridade: cada Estado tem seu lugar natural no sistema do mundo, que é o uni-verso em escala macrocósmica. Há uma amizade entre Estados, uma coparticipação no universo. Isto contraria os sistemas modernos, que são por definição universalistas e unipolaristas, buscando adequar o mundo inteiro de acordo com seus sistemas abstratos e individualistas (e exemplo disto são tanto a OTAN, liberal, quanto a União Soviética, socialista).
Os Estados-nação, assim, se tornam ideologicamente vazios, tornam-se ferramentas para a defesa das comunidades étnicas. O separatismo ou o unionismo se tornam vazios de sentido em si mesmos. Separatismo e unionismo são indiferentes para a determinação e preservação dos povos, de modo autônomo. O único fator que pode alterar a balança dos povos internamente aos Estados é o interesse dos governantes destes mesmos Estados.
Mas por quê, devemos falar agora, não devemos fomentar o separatismo na América do Sul? Porque, além de ser vazio e não significar a proteção de nenhuma comunidade, prejudicará a união político-militar tão necessária em tempos de avanço da ingerência estrangeira em solo pátrio. Ao mesmo tempo, é esta união, não étnica, mas política e econômica, que será capaz de representar uma resistência às forças estrangeiras, que superam hoje o poder de qualquer Estado-nação, como é o caso de empresas como a Microsoft e a Apple[11] e a rede de bancos dos Rothschild[12], cujo poder aquisitivo é maior que muitos Estados-nação e já superam a casa dos trilhões de dólares.
Caso nos separarmos, tornar-nos-emos uma região fraca, dissolvida em conflitos e dívidas, incapaz de vencer os desafios do jogo geopolítico, que hoje acontece apenas a nível de grandes blocos econômicos. Caso separarmos, nosso destino será ser como o sul da Ásia, onde manda a pirataria escravagista de modo mais cruel, ou então, no máximo, nos tornaremos uma Meca comercial, de acordo com o Plano Andinia, e passaremos a ser escravos de cheiques e barões bilionários, senão expulsos da nossa terra e massacrados em um processo de limpeza genocida muito comum na África e no sul da Ásia[13]; mas já comum também nas nossas florestas, assaltadas por empresários que eliminam tribos indígenas inteiras com o objetivo de se apossar das terras, dos minérios.

Finalizando, o que se deve tirar desta palestra é sobretudo a diferenciação entre, de um lado, 1) a) o individualismo liberal e b) o coletivismo socialista, ambos fundamentados na polarização entre indivíduo e coletividade, e de outro 2) o holismo da QTP, que é a síntese originária de onde a polaridade foi construída historicamente por meio de análise abstrata da sociedade. Deve-se ter em mente a diferença essencial entre ambos, pois ela é fundamental para se compreender o tipo de relação política sobre a qual a QTP se baseia. É esta relação política que deve servir de princípio para os projetos políticos que se seguem da QTP.
Com o advento do século XXI, o paradigma que antes era nacional (“nacional” de Estado-nação) se tornou definitivamente geopolítico, e isto significa uma abertura no sistema moderno para uma reavaliação das relações políticas e da própria essência existencial, metafísica e espiritual do homem. Esta nova reavaliação possibilita um retorno ao princípio natural e orgânico de holos, um conceito essencialmente pré-moderno e, agora também, pós-moderno, segundo a pós-modernidade da QTP.




[1] Dugin distingue três tipos de identidade, 1) a difusa, 2) a extrema e 3) a enraizada. Apenas a última tem o caráter de uma identidade, enquanto a primeira constitui a perda de uma consciência identitária por parte dos indivíduos, que se tornam cosmopolitas, e a segunda significa uma falsa-identidade desenvolvida em laboratório, típica dos nacionalismos burgueses e da terceira teoria política. [https://legio-victrix.blogspot.com.br/2017/10/aleksandr-dugin-as-raizes-da-identidade.html?spref=fb] 28/10/2017.

[2] [http://caae.phil.cmu.edu/Cavalier/80254/Heidegger/DivisionOne/BeingWith.html] 28/10/2017

[3] Aqui podemos contrapor o pensamento heideggeriano e a QTP às teorias contratualistas, tipicamente liberais, que distinguem um estado de natureza e uma sociedade civil originada através de um contrato. Deste modo, o contratualismo se relaciona às vertentes individualistas, que concebem o indivíduo autossuficiente que forma sociedades de modo acidental, não tendo nascido já pertencente a elas.

[4] [https://paginatransversal.wordpress.com/2017/04/19/la-dimension-colectiva-del-dasein/] 28/10/2017

[5] Lethos, do grego: esquecimento.

[6] Aqui se manifesta o contratualismo nas teorias individualistas. Como para elas o indivíduo é o elemento primordial, o Estado se torna uma construção artificial que ocorre entre indivíduos.

[7] Abrindo um parêntesis: é por isso que a arquitetura soviética tende a ter este aspecto de missão astronômica no espaço sideral. É o meio que o socialismo encontrou para desenraizar todas as culturas diferenciadas e encaixotá-las dentro de um padrão único e abstrato.

[8] Há suspeitas, inclusive, de que as montanhas ao redor do mundo tenham sido fruto do trabalho humano e que, no caso do Brasil, os “acidentes” geológicos não tenham sido senão construções de impérios antigos e desaparecidos, como montanhas. Ler Crônicas de Akakor.

[9] Façamos um parêntesis: isto é assim, evidentemente, desde que passaram a existir cidades, que transformaram os princípios que caracterizam as relações humanas a partir de então.

[10] O “grande universo” astronômico, não mais a cidade-Estado enquanto universo.

[11] Só o valor de mercado de duas empresas juntas, a Microsoft e a Apple, é 1,2 trilhão de dólares, o que praticamente equivale ao PIB do Brasil, que ainda é uma das maiores economias do mundo e está em torno de 1,4 trilhão, ou pelo menos estava antes das reformas dos últimos anos. (Fonte: Notícias ao Minuto, 15/fev./2017). De 2014 para 2015, o PIB do Brasil caiu de 2,34 trilhões para 1,8 trilhão e seguirá caindo aceleradamente, enquanto o das empresas seguirá crescendo aceleradamente (Fonte: Correio Braziliense, 24/11/2015). Considerando isto, em finais de 2017, ou já em 2018, estas duas empresas terão superado em muito longe o PIB brasileiro.

[12] Que ninguém é capaz de calcular em valores financeiros, por estas acima dos limites nacionais, portanto fugir dos limites fiscais. Mas provavelmente está há muito tempo já na casa dos trilhões, com certeza superando Estados como o Brasil. [Para ler sobre a rede Rothschild: https://portal-legionario.blogspot.com.br/2017/02/seu-banco-pertence-aos-rothschild-eis.html] 28/10/2017

[13] Vale a leitura de Eduardo Velasco: A Rota da Seda, o Colar de Pérolas e a competição pelo Índico [http://europasoberana.blogspot.com.br/2013/09/a-rota-da-seda-o-colar-de-perolas-e_28.html] 29/10/2017