domingo, 3 de dezembro de 2017

Teurgia: O Estado Hegeliano e a Koinônia Grega

Francisco Goya
A filosofia de Hegel tem um fim: a completude, isto é, realização plena do espírito absoluto. O desenvolvimento dialético que acontece ao longo da Fenomenologia do Espírito contém o paradigma processual e metafísico daquilo que se desenvolve no plano político-econômico ao longo da Filosofia do Direito.

A base material por meio da qual este espírito, imanentemente, se desenvolve é a sociedade civil. Este é o estágio inicial que é tomado como dado, o paradigma moderno, a matéria-prima que fornecerá ao espírito os instrumentos para as subsequentes Aufhebungs. A sociedade civil é o estágio inicial, mas não o fim; ela deverá ser superada por novos estágios que se seguem um após o outro.

A sociedade civil é caracterizada pelo reino da singularidade: os indivíduos, que não possuem qualquer relação necessária entre si, constituem uma coletividade frágil e sensível, cuja força centrípeta dessa coletividade é o próprio egoísmo. A aparente unidade dessa sociedade é consequência do interesse individual que cada indivíduo tem de preservar a si mesmo e satisfazer seus próprios interesses. Deste modo, a coletividade se torna um instrumento na mão de cada indivíduo para a satisfação de si mesmo. A unidade dessa coletividade apenas se dá na medida em que ela de fato representa esta satisfação de cada um em singular. A sociedade civil, para Hegel, é assim a representação de um Estado contratual, liberal. A sociedade civil carece de um sentido de identidade, de um fundamento sociológico, étnico e religioso que ultrapasse a condição existencial do homem de mero sujeito de sua história; nela, cada homem se define e se determina por ser apenas um sujeito, um ser à parte e, assim, poder-se-ia dizer: cada um constitui para si seu próprio deus, e sua vida, a vida de deus. O mundo é reduzido aos fenômenos subjetivos de cada um, e a eternidade é reduzida à vida efêmera dos mesmos.

O objetivo de Hegel é apresentar uma forte crítica ao Estado contratual e, com ela, uma superação da condição efêmera do homem que nele acontece. Assim, surge para o filósofo o conceito de Korporation, termo misterioso que certamente quer dizer muito mais do que uma mera “corporação” ou um “sindicato”. A Korporation é uma instituição cujo papel não visa, ou pelo menos não se restringe, a algum tipo de manutenção ou mediação burocrática, econômica, civil entre indivíduos. A Korporation tem por fim assentar um primeiro estágio de universalidade no interior do Estado, para erigi-lo semelhante às colunas gregas que sustentavam a abóbada de um templo. O espírito que se desenrola neste processo, que é o próprio Estado, é racional: é por meio da racionalidade que os elementos singulares encontrarão algum fundamento comum entre si, um fundamento que já está aí, presente, e que portanto não pode ser abstrato nem exterior aos singulares eles mesmos.

O conceito de razão, para Hegel, não pode ser analítica ou dedutiva. Caso contrário o resultado seria unicamente a divisão. Hegel, por sua vez, exige uma razão intuitiva, capaz de elevar a alma humana a um estágio superior que seja interno em si mesma. O papel da Korporation, assim, é um papel espiritual, e neste sentido transcendente, pois trata-se de uma elevação do singular efêmero rumo ao próprio espírito universal.

A Korporation terá, como um de seus princípios fundamentais, a Sittlichkeit, a eticidade, cujo significado está longe de se esgotar em uma espécie de moralismo imposto na esfera pública, ou um código de leis a ser “ensinado” e seguido pelos membros da comunidade. Se assim  fosse, estaríamos em um Estado contratual, onde as razões analíticas e dedutivas deveriam concordar e aderir, de modo externo, a esta “unidade” estatal. Pelo contrário, a universalidade hegeliana acontece através de um sentimento de pertença por parte dos singulares no universal, através de uma identidade espiritual entre singular e universal. A eticidade terá como fim, então, a transmissão do caminho a esta universalidade por onde os singulares poderão ascender e tornar-se particulares. Ao se tornarem particulares, eles deixam sua singularidade para trás, permanecendo ela como um constituinte acompanhante da particularidade, mas não mais determinante. A particularidade acontece quando um sentimento de universalidade surge: o homem se enxerga particular na medida em que se sente parte de um todo. “Parte” não em sentido negativo, como algo que se rompe de um todo, mas em sentido positivo, como algo que pertence a um mesmo organismo vivo de um todo maior que si mesmo.

A Korporation se torna um veículo, uma instituição cosmológica que desperta o conhecimento do singular sobre o universal; pode vir a ser, imanentemente, uma escola, uma doutrina, um conjunto de práticas comunitárias, uma identidade comum. O traço característico aqui é evidentemente religioso. Até se tomarmos a palavra “religião” em sua etimologia, re-ligare, o papel da Korporation se torna evidente: é uma junção entre o que parece estar separado, mas é junto; é um re-ligar daquilo que se separou.

É no Estado, contudo, que a plena realização dessa universalidade, dessa união entre o separado acontece. O Estado hegeliano não é o Estado-nação. Seu princípio é lógico, no sentido hegeliano de lógica, que nos remete ao logos platônico. Desse modo ele poderá se manifestar de inúmeras maneiras, assim como o logos divino se manifesta de muitas maneiras. É, no entanto, a uma organização política a que Hegel se refere, um logos que organize as relações humanas como se constituíssem as relações dos órgãos em um corpo único. A Korporation faz o papel de elevar a singularidade a um nível de particularidade, mas sem parar por aí: ela impulsiona de baixo a particularidade enquanto, de cima, a Sittlichkeit universal, fluindo do monarca, atrai eroticamente o particular rumo a uma universalidade plena e realizada.

Ao constatarmos um movimento de baixo e outro de cima, que se encontram no particular, efetivando a universalidade e, assim, o alcance do espírito absoluto em si e para si, somos capazes de encontrar em Hegel um parentesco com a tradição platônica muito mais forte do que há com outras tradições. A necessidade de um erotismo, de um pathos, para se compreender a racionalidade hegeliana e a concepção de uma união ascendente reforçam seu tom hermético e gnóstico. A dialética do espírito absoluto, em Hegel, é essencialmente mistérica e iniciática; o papel da Korporation poderia ser comparado aos akousmathici dos pitagóricos, que deveriam ouvir mitos de caráter ambíguos e “caçar” seu sentido verdadeiro para enfim subirem ao templo dos mathemathici, que detinham o conhecimento dos números que a tudo no mundo formam, sendo o mundo a manifestação imagética dos números.

A crítica que Hegel faz do Estado contratual, assim, é uma crítica aos fundamentos da contratualidade e da racionalidade modernas. A filosofia de Hegel é também uma arma contra a concepção aristotélica de linguagem e de verdade por correspondência, que certamente derivaram, ao longo do tempo, essa racionalidade moderna a qual chamamos “logicista” e “cientificista”. Hegel nos mostra, ao longo da dialética do espírito, que só com uma concepção diferente de razão se pode alcançar algum sentido de Estado, e que este Estado, se houver, deve se basear em algum princípio de ascendência inspirada. Pois é a alma, estando em seu estágio inferior, que Hegel faz reagir e buscar seus fundamentos que estão na própria universalidade; a universalidade é pré-singular e pós-singular: pré-singular na medida em que o singular já se constitui, ontologicamente, como partícipe do universal, e pós-singular no sentido em que o homem, desperto, reencontra sua pátria perdida.

A Korporation se torna, com isso, um ato ritualístico com fins precisos, apontados para o Estado. Não há uma configuração única para ela, determinada por “premissas” lógicas; mas há, sim, um princípio único e determinado, não pelo homem, mas pelo próprio espírito absoluto que se desenrola. A participação ativa do homem na fundação dessa Korporation está em compartilhar dos desígnios (a Sittlichkeit) e transmiti-los entre os membros da instituição, sobretudo entre os novatos, que devem ser bem recebidos e ensinados (um ensino que não deve ter por verdade a teoria da correspondência aristotélica, mas a identificação erótica entre o novato e a universalidade, portanto a educação deve ser mítica, metafísica em seu sentido espiritual, isto é, o ensino e o aprendizado devem se basear em uma gnosis). Forma-se, assim, uma hierarquia contínua entre os homens em que o superior ensina o inferior, mantendo sempre o olhar rumo à universalidade do Estado. Este laço contínuo, que os platônicos chamam de Corrente de Ouro, desce dos deuses e percorre a hierarquia de cima para baixo, resgatando as almas através daquelas que lhe são superiores. Forma-se, através da Korporation, uma espécie de irmandade, em que todos se veem como semelhantes, carentes das mesmas carências – o que gera identidade e vontade de auxiliar o companheiro.

A universalidade hegeliana, além disso, o Estado, que se desenvolve em um processo histórico, isto é, dialético e processual (o histórico hegeliano não é, necessariamente, o histórico dos historiadores, a passagem dos fatos neutros, mas, pelo contrário, a efetivação das ideias na natureza), observa um fim da história, quando a ideia se desenvolverá plenamente e o espírito se tornará absoluto, esgotando as potencialidades e sublimando as singularidades no universal. Trata-se de uma profecia que imita a anagogê dos gnósticos e dos oráculos caldeus, quando as almas pródigas e a Sofia se reencontram com o Pai. É do Pai que elas são formadas e dele nunca podem, ontologicamente, se afastar; no entanto, para os gnósticos sobretudo, Sofia tropeça e se desvia dele, ou ainda as almas, inferiores a ela, afastam-se dela, tendo o conhecimento da sua natureza levado pelo rio Lethos, o esquecimento. Através da gnosis, então, o sábio reorienta e lidera as almas perdidas de volta à Sofia; esta passagem da condição de ignorância e de singularidade para a condição noética e universal se dá através de um ritual dentro de uma comunidade de sábios e discípulos. Ainda podemos recordar o Apocalipse cristão, que compreende a resolução final da Criação, quando as almas são todas reincorporadas ao Deus Pai, Todo Poderoso e Criador do Céu e da Terra.

A necessidade de uma Korporation, no caso Hegeliano, imita a necessidade do ritual das seitas mistéricas, isto é, da teurgia. Nos dois casos, o espírito absoluto e o retorno das almas, é um acontecimento movido e realizado através da ação, da participação ativa, de uma liberdade e de uma vontade positivas por parte das singularidades que saltam em direção ao abismo do Universal. A ideia hegeliana se efetivando, isto é, tornando-se Wirklichkeit, é uma ideia que se projeta e se realiza, se cria, se produz ela mesma sobre a Realität, no seio da natureza. Aqui observamos o espírito ser invocado na matéria, iluminando o mundo e a ele dando uma forma definida, com contornos eidéticos determinados, com significado. Este fenômeno contém o significado do conceito de razão para Hegel, também ele derivado de uma razão divina, identificado com a ideia formativa que se efetiva sobre um real neutro e obscuro, sem significado e sem sentido. A realização do espírito, por meio da dialética, oferece um sentido preciso para tudo que pertence ao espírito, e o sentido é uma linha em direção ao fim da história, à sublimação no universal.

Desse modo, a teurgia, theos ergeia, “o trabalho divino”, não deixa de ser um modo de descrever a dialética do espírito hegeliana. Karl Marx, por sua vez, tomou de Hegel apenas o que lhe servia para fomentar uma revolução materialista contra o capitalismo feroz, que foi uma dialética material, isto é, a constante transformação material da sociedade; mais precisamente, a luta de classes. Contudo, com isso seu legado foi introduzir uma noção de transformação constante da configuração das classes, impedindo que possa haver qualquer tipo de reunificação entre elas: a luta de classes se tornou ideologia e perdeu seu estatuto instrumental. O resultado foi uma ideologia destrutora, corrosiva da sociedade. O caminho de Hegel vai na direção oposta: além de sua dialética ser de um tipo espiritual e não materialista, e além de se tratar de um estatuto lógico e não de uma categoria específica, como é a luta de classes, a filosofia hegeliana resulta em uma reunificação social, em uma reconstrução de uma nova civilização em cima da matéria morta que é a sociedade civil. O objetivo de Hegel é superá-la, transcende-la, não convocar a manutenção dela mesma em seu interior, uma manutenção que, no caso marxista, foi incapaz de se opor genuinamente ao individualismo moderno, aos princípios que guiam e determinam a sociedade civil capitalista. Pois, para se opor ao capitalismo, é necessário primeiro superar a singularidade em vista de uma universalidade.

As ideologias políticas que até então alcançaram algum tipo de finalidade hegeliana, tendo certamente em sua filosofia se inspirado, foram sobretudo o Nacional-Socialismo alemão e a República Popular Democrática da Coreia do Norte, o primeiro sob o misticismo germânico e esta última sob a filosofia Juche e a tradição dos Kim. Não discutiremos aqui questões irrelevantes e disputadas, como é o caso do suposto Holocausto e do suposto genocídio executado pelos Kim; são informações que as mídias de massas divulgam e sobre as quais os intelectuais e jornalistas não encontram evidências. Nosso interesse aqui é evidenciar que, em ambos os casos, houve uma identidade por parte das singularidades, e estas se puseram voluntárias a serviço da universalidade, de um lado o sangue e solo germânicos e, de outro, a pátria coreana. Em ambos os casos, houve um interesse intenso pelas raízes étnicas por parte dos membros do Estado, o estudo e o interesse pela religião, pelo culto à beleza e ao respeito comunitário, em detrimento da individualidade mesquinha dos banqueiros e grandes empresários. No caso coreano, salientemos um fenômeno voluntário e muito significativo, que é um aumento gradual no povo pelas religiões em geral, principalmente as mais populares, uma delas sendo o próprio xamanismo, que está em vias de desaparecer do nosso mundo, porque o sistema da sociedade civil é incompatível com sua natureza.

Este interesse pelas raízes de si mesmo, e do povo em geral, é significativo e nos leva de volta à queda das almas em relação à Sofia, quando dizíamos que as almas, em seu tropeço espiritual, perdiam sua natureza que era levada pelo rio Lethos. Lethos é o esquecimento: o motivo pelo qual as almas se afastam de Sofia e do Pai é o esquecimento deles e, por conseguinte, o esquecimento de si mesmos. O movimento de buscar suas raízes é o movimento de retorno à Sofia e ao Pai; segundo Heidegger, trata-se de desencobrimento ou desvelamento, termo que traduziria a palavra grega alêtheia (a-lethos, a negação do esquecimento). As almas, em busca de suas raízes, estariam desvelando o ser, isto é, encontrando-se com a verdade, uma vez que alêtheia significa, em grego, verdade. Sofia também vem do grego e significa sabedoria; não é por acaso, então, que o termo gnosis, conhecimento, se deve ao retorno das almas à sua origem nas seitas mistéricas. Nessa busca elas encontrarão seu lugar natural, encontrar-se-ão a si mesmas, conhecerão a si mesmas, conhecendo assim o universo ao qual elas pertencem.

O Estado hegeliano não é um Estado moderno. É uma seita, uma religião, dotada de rituais iniciáticos e de transformações espirituais. Os neoplatônicos descreviam dois movimentos das almas no grande drama universal: a processão (proodos) e a conversão ou retorno (epistrophê). No primeiro, as almas descem, afastando-se das suas origens, gerando o kósmos, o mundo sensível e ordenado onde as almas vivem em corpos separados, no segundo elas retornam, por meio de exercícios noéticos, à sua origem, reconectando-se com os princípios formativos e, em última instância, com o uno, onde toda complexidade é sublimada em uma unidade simples. Assim, a processão é uma maneira de explicar a mesma substancialidade que todos os singulares têm entre si, enquanto a conversão é o ato de reencontro desta substancialidade perdida e rompida; em Hegel, também os singulares só podem encontrar a universalidade porque eles mesmos são originados dela e pertencem a ela, pois ontologicamente eles são ela. O movimento de retorno, assim, não é necessariamente um movimento de sublimação do aspecto físico, mas de um desencobrimento, um rememorar das origens e o conviver na comunidade – a não ser, certamente, quando introduzimos o Apocalipse.

A universalidade é uma comunidade. O universal hegeliano é uma reunificação de seres singulares (seriam só homens ou incluir-se-iam aí também os elementos da natureza?). Marx compreendeu esta comunidade como sendo o coletivo de indivíduos em uma massa homogênea. Mas deste modo a singularidade, preservada na Aufhebung, se aniquilaria no nivelamento de indivíduos atomizados. A universalidade de Hegel preserva a singularidade, não enquanto indivíduo atomizado, mas enquanto elemento específico caracterizado por traços específicos; e nesse caso o singular não é um indivíduo, mas uma pessoa que tem tais e tais qualidades e funções sociais.

Em certa medida, o universal hegeliano é um sistema complexo, uma vez que é composto pelas singularidades; mas não é complexo se compreendermos com isto um conjunto de elementos separados que se unem, pois esta é, inclusive, a representação de uma sociedade contratual e liberal, onde a sociedade é um acidente ou uma realidade abstrata erigida pelos indivíduos, que são essências. Em certa medida, o universal é simples, na medida em que aquilo que cada elemento é em si se esgota na universalidade. Mas não é simples, se se compreende por isso uma sociedade homogênea, como pensou Marx. Acima de tudo, o sistema hegeliano é hierárquico, cuja estrutura não é bem fundamentada em uma configuração social específica, uma vez que esta configuração seria contingente, mas em princípios racionais; no topo, uma aristocracia detém o paradigma ético, a eticidade, ou melhor dizendo, o ethos grego, que não é um código de conduta, mas uma conduta em ação, uma maneira de ser que é sempre ativa e presente. Esta aristocracia conduz as massas da sociedade civil a compartilhar de seu ethos, mas não de sua posição na hierarquia.

A função da aristocracia é a função do teurgo que orienta as massas com as chaves-mágicas da linguagem – e linguagem aqui é Sage, o dizer poético heideggeriano, capaz de dizer sem falar, mostrando. A aristocracia, como o teurgo, detém o poder das formas, o segredo do logos divino, o conhecimento dos números pitagóricos.

Para os platônicos e ocultistas citados, esta universalidade a qual Hegel imita é dada pela koinônia, que significa um universo comunitário onde não apenas os homens participam, mas também os deuses, os anjos, os daímones e outras muitas entidades. Em linguagem fenomenológica, poder-se-ia dizer que se trata de uma comunidade em que o ser, para os membros da comunidade, permanece sempre aberto, passível de ser conhecido e sobretudo experienciado; os membros não são fechados em si mesmos, mas estão em constante diálogo (dia-logos) entre si. A natureza dos elementos é formada pela natureza da universalidade, o que permite, e até mesmo exige, o diálogo, isto é, a relação lógica entre os seres – compreendendo o logos como o princípio formativo de todos os seres.


Aqui novamente podemos trazer à tona o Dasein heideggeriano, que não é um mero ser isolado e fechado em si mesmo, mas um ser cuja natureza é ser-no-mundo e Mistein, ser-com. Os seres se definem por serem seres em relação com outros seres e com o universo como um todo. Portanto eles não são átomos, mas possuem personalidade, possuem um rosto, isto é, possuem um significado. Isto só é possível dentro de uma comunidade enraizada em um mito que dê sentido ao universo onde todos participam, algum princípio hermenêutico porém inefável por meio do qual o Estado, em constante dinâmica, efetiva sua ideia; e este princípio é segredo de teurgos e aristocratas, sejam eles poetas, líderes, políticos, místicos ou filósofos.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Pessoa e Ocupação: Desconstruindo Indivíduo e Propriedade

Fidus
Temos defendido a falibilidade da linguagem analítica [1] e pensado sobre o fundamento do individualismo como analiticidade [2]. Também refletimos sobre uma maneira de encarar a realidade que não seja falha, estudando a ordem em seu todo e no seu funcionamento, que se conhece em um sentimento de unicidade [3]. Agora temos por fim compreender os conceitos de indivíduo e de propriedade, que são derivados da mesma analiticidade a qual desconstruímos.

O conceito de indivíduo, que é tipicamente moderno, tem seu fundamento no conceito de substância aristotélico. A substância é algo que é “por si”, isto é, que subjaz por si mesmo, que tem sua existência determinada por si e que não depende, portanto, de um fundamento que esteja fora de si mesmo para existir, propriamente falando. Aristóteles aplicava, assim, o conceito de substância a um animal, a uma pessoa, a uma cadeira particulares. Estes entes, recortados da unidade do todo, recebiam a característica de serem “por si”, independentes da ordem deste todo ao qual pertencem intrinsecamente.

Essa concepção aristotélica de substância abre caminho a um naturalismo logicizante, essencialista, que culminará na concepção cartesiana de substância e de um eu que, apartando-se do mundo, encontra em si o sujeito, a substância universal que é “deus”. O idealismo alemão ajudará a desenvolver a figura de um eu que é substancial, uma mente individual que é una e completa, onde ocorre o conhecimento “verdadeiro”, que é, em verdade, uma abstração dos conceitos naturais retirados do mundo natural. Toda a “verdade”, na modernidade, se torna subjetiva, mas o fundamento desse sujeito que pensa, que age na história, é o conceito de substância aristotélico, que é algo que se auto-determina para depois receber atributos que lhe são “externos”.

Estes atributos, contudo, também têm o caráter de substância. Não são substâncias postuladas por Aristóteles, mas são tratadas como “coisas individuais” recortadas do mundo, são qualidades essencializadas, como o azul (ou azulidade). Por isso que, quando uma cadeira é azul, o azul da sua cor está sujeito à cadeira e lhe é secundário. A cadeira possui, no sentido de ter como propriedade, o traço azul da sua constituição. Ela pode mudar e trocar de cor, e suas características mudam como coisas que são substituídas umas pelas outras, móveis que são possuídos e abandonados; ela, a cadeira, permanece sempre ela mesma, enquanto sujeito. Este é o princípio do subjetivismo e do individualismo modernos.

A noção de algo que subjaz por si mesmo, que exige naturalmente para si um centro em volta do qual a história e a realidade se movimentam, em volta do qual todas as coisas, sendo mutáveis e impermanentes, não são “coisas por si” e, sendo assim, não são propriamente coisas, esta noção, evidentemente, traça uma relação de sujeição na natureza entre “coisas que não dependem de nada” e “coisas que depende de outra para existir”, em que as segundas dependem das primeiras, existencialmente. Uma noção de instrumentalismo é necessariamente introduzida, sorrateiramente, de caráter mecânico e arbitrário, na medida em que são as substâncias a determinarem o sentido das qualidades dispostas no mundo – e por substâncias devemos entender “sujeitos”.

Já tivemos a oportunidade de desconstruir o conceito de indivíduo a partir de uma concepção holística da realidade nos artigos citados acima. Desconstruiremos agora a noção de propriedade, a partir da análise que fizemos sobre a concepção de atributo aristotélica, baseando-nos também no mesmo holismo metafísico.

A noção moderna de propriedade (de um móvel ou imóvel) por parte de um homem significa o seguinte: uma dada coisa no mundo, recortada, retirada do mundo, é tornada submissa, sujeita a uma substância que lhe é superior e senhora. O homem que possui a coisa é uma substância, um indivíduo, um ser completo e autossuficiente, metafisicamente independente, “imortal” no ponto de vista das posses que vem e que vão. As posses, por sua vez, se definem por ser dependentes do proprietário, isto é, elas têm existência outorgada por outro ser que é seu proprietário, seu dono. Isso significa que as coisas que são propriedades são destituídas da sua natureza para se transformarem em “atributos”, isto é, qualidades coisificadas, insubstanciais, instáveis, sem valor e significado intrínsecos, cuja existência não está em si, mas em outro ser: o proprietário.

A propriedade moderna tem o fundamento subjetivista e individualista: a propriedade significa nada mais nada menos do que a sujeição de uma dada coisa a outra, em particular. A propriedade não é um conceito relativo, isto é, ele não depende de um contexto público ou natural em meio ao qual se insere, como a sociedade ou a natureza. A propriedade é absoluta, o proprietário tem o “direito” de impor suas vontades sobre a coisa. Por mais que existam leis que proíbam, por exemplo, infringir-se os direitos humanos, estas leis são compreendidas como restringindo ou limitando a efetivação completa da propriedade por parte do proprietário: ele não está em posse total dos seus “direitos”. Desse modo, até o corpo de uma mulher, tornado propriedade dela, lhe dá o “direito” de usá-lo como bem entender, seja para o bem seja para o mal: o corpo está sujeito a sua vontade, que é subjetiva, abstrata, ideal.

Quando as teorias contratualistas, que justificavam de inúmeras maneiras a propriedade a um homem, permitiram o desenvolvimento de um capitalismo feroz na Europa ocidental, a reação por parte daqueles que se opunham ao horror cosmopolita e capitalista foi o socialismo. O socialismo, porém, não combateu o conceito de propriedade em si; pelo contrário, usou de tantas justificativas quanto encontrou para tão e simplesmente minimizar a concentração de propriedade e regular as atividades econômicas, criando remédios. Isto é, a propriedade não deveria ser um “direito” de alguns poucos apenas, mas um “direito” de muitos ou de todos. O fundamento economicista, subjetivista, individualista, fundamentado na concepção aristotélica de substância, permanece o mesmo, e assim a raiz de uma dialética destrutora permanece incansável ao longo da história. Os socialistas não questionaram, por exemplo, o cosmopolitismo, a universalização dos valores impostos por uma vontade abstrata sobre a natureza e a ordem, a noção de “humanidade” que permite a dissolução das identidades étnicas e a construção artificial de novas sociedades (contratuais), assim como não questionaram o significado ocidental de propriedade.

O resultado foi que, tal como nos países liberais, nos países socialistas a noção de direito dada a um homem ou um grupo de pessoas reteve um significado de “carta branca” para a arbitrariedade sobre a coisa que era propriedade. Por mais que fosse um grupo de pessoas, o que este grupo decidia era imediatamente estabelecido como ordem, mesmo que fosse, por exemplo, a destruição da fauna e da flora, a dissolução violenta de tribos xamânicas na Sibéria, em nome de um “coletivo” estatal. Pois o espaço interno, no Estado moderno, é uma propriedade dos membros deste Estado e/ou de seu governo. Não se leva em consideração um plano a longo prazo, ou a simples e contínua ordem objetiva e natural do kósmos, ao qual o homem depende para existir, pertence, de onde ele recebe seu significado mais próprio; o relevante é a transformação imediata da propriedade em vista da vontade subjetiva do proprietário.

Já demonstramos, porém, que o indivíduo não existe. E sendo assim, a propriedade, metafisicamente, é um conceito vazio, sem significado, e antes de tudo sem verdade e sem fundamento. Pois a definição de propriedade estabelece a dependência de uma coisa que está sujeita a um proprietário, sendo este proprietário um indivíduo, um átomo, um ser “imortal” diante das coisas que vem e que passam. Ela recebe a existência deste sujeito. Portanto, se este sujeito não existe, a propriedade também carece de significado e de realidade. Fica apenas em um nível abstrato, ideal, sem correspondência com o real.

Não definimos o homem como indivíduo, mas como pessoa. Não se trata de apenas uma mudança de termos; pelo contrário, a profunda alteração de significado é capaz de nos levar a um paradigma antropológico que ultrapassa a Grécia clássica. O indivíduo é o elemento básico de uma sociedade e do próprio mundo, que seria composto por partículas indivisíveis que se combinam (qualquer semelhança com o contratualismo não é mera coincidência) para formar o mundo como o conhecemos. A natureza, contudo, não é assim, seus “elementos” não são anteriores às relações, às suas funções elas mesmas dentro de um todo orgânico. Da mesma forma, o fígado no corpo humano não teria vindo a ser sem o rim ou sem o dedo do pé, pois ambos estão inseridos em uma ordem que os ultrapassa e que deve funcionar por inteiro para que as partes venham a existir para uma complementar a outra. A saúde deste corpo é exatamente o bom funcionamento dessa ordem, que é dada não pelos elementos em separado, mas pelas funções que eles mesmos desempenham.

Existe, portanto, uma complementariedade necessária entre as partes do todo que, inclusive, as sobrepassa, na medida em que é o todo um ser vivo e a saúde dele nos remete ao bom desenrolar da sua energia vital, o que permite transformar sua configuração interna em despeito das partes. As partes, contudo, não são jamais aniquiladas, como deve imaginar um leitor moderno, tímido e autista, enclausurado em seu subjetivismo idealista; pelo contrário, as partes são tão eternas quanto o todo, mas o são de acordo com as necessidades do todo: as partes se transformam, existencialmente, em benefício do todo, e sua existência não é dada cada um por si mesma, pois é dada pelo todo. As partes, mesmo transformadas, permanecem, continuam no sistema do todo, mas seu significado e sua qualidade nesse sistema, sua forma, depende das necessidades que este todo tem de órgãos específicos para seu bom funcionamento.

A pessoa é uma função no mundo, o homem enquanto pessoa é um artífice de Deus, um membro do Estado, um irmão, um pai, um agricultor (isto é, alguém a quem se deu a responsabilidade de proporcionar alimentos), um vendedor (isto é, alguém a quem se deu a responsabilidade de proporcionar mantimentos), e assim por diante. Deus requer a boa ordem de todos os seres em conjunto, o Estado requer o bom funcionamento de sua estrutura geral, um irmão requer outro irmão, um pai requer um filho, um agricultor e um vendedor requerem beneficiários em necessidade. Ninguém se constitui, existencialmente, por si mesmo: todos estão interligados e são interdependentes. Caso houver estrapolação na função de cada um, o sistema se corrompe e em algum momento terá seu fim concreto; isto ocorre quando o artífice busca substituir seu Deus, quando um membro do Estado busca determinar uma configuração abstrata em detrimento da ordenação natural, quando um agricultor impede a demanda no “mercado” ou o vendedor busca transformar as vontades da demanda com fim de aumentar seus lucros.

A pessoa exige, além de uma consciência “social”, uma consciência de fauna, de flora, de organicidade voltada para a natureza, requer um olhar profundo para as leis que regem o universo, com o fim de preservar sua boa ordem. E nesta ordem todas as coisas mantêm relação umas com as outras, funções específicas e complementares – funções diferentes, mas que participam de um mesmo ato e estão, por isso, em um mesmo ritmo. O homem que protege a mulher, permitindo-lhe instabilidade emocional, e a mulher que o segue fiel, sem criar discórdia por capricho; ou ainda o pai que trabalha e o filho que dorme, todos seguem um mesmo movimento, um mesmo ritmo, uma mesma dança a qual depende todo o sistema, assim como o sol e a lua, para permanecerem eles mesmos e funcionando juntos, devem um descer e outro subir, e não todos fazerem as mesmas coisas e da mesma maneira.

E assim como o conceito de indivíduo deve ser substituído por pessoa, o conceito de propriedade deve ser substituído por outro, ao qual podemos chamar de “ocupação”. A ocupação não é mais, como a propriedade é, um “direito” do proprietário a se impor sobre o possuído, sem uma preocupação com o todo, tendo apenas a “substância” de si mesmo como fim de suas ações e vontades. A ocupação, pelo contrário, é uma permissão, não ilimitada nem indeterminada, concedida a um homem de ocupar um dado móvel ou imóvel que a ele não pertence – pelo contrário, ambos, ocupador e ocupado, pertencem ao todo, e o ato de ocupação deve estar a serviço deste todo, da saúde e do bom funcionamento do corpo como um todo, o que inclui, certamente, os órgãos, as partes, ocupador, ocupado, mas também os demais membros da sociedade e da natureza. A ocupação permite compreendermos a relação do homem com um móvel ou imóvel como uma relação entre entes que se coopertencem e que pertencem, ambos e a relação entre ambos, ao todo. Ocupar e ser ocupado, assim, são estados existenciais que acontecem de ser em um certo momento e que podem não mais ser da mesma maneira no momento seguinte; de modo que o ocupante não pode fazer tudo o que quiser com o ocupado, como se não houvesse outro ocupante ou outro dependente do ocupado depois dele. Seus atos devem levar em consideração a oikonomia do todo, o bom funcionamento das partes, o que inclui uma certa previsão do futuro breve e uma consideração com o passado breve, como se ambos fossem um só presente que possui um sentido histórico, um significado dado pela tradição local, além de uma consideração por um bom senso que permite atualizar constantemente esta relação entre ocupante e ocupado conforme as necessidades históricas do todo em seu movimento, em seu ritmo contínuo. A natureza das relações depende, assim, da configuração presente do todo.

Assim, o ocupado não é um atributo sem valor em si de uma substância auto-determinada, mas uma porção delimitada do mundo que se põe em auxílio do homem. E o homem não é uma substância, um indivíduo que, no alto de seu sujeito, impõe regras a um mundo sem significado, mas uma pessoa que pertence a um mundo vivo e de significado pleno, imanente e instantâneo, imediato, que se relaciona ora a uma porção do mundo, ora a outra, conforme a necessidade do corpo por inteiro ao qual ele mesmo pertence. Uma relação de íntima amizade ocorre entre homem e mundo, uma preocupação mútua pela segurança de todos, pela vivência conjunta, pelo companheirismo no grande teatro da vida.

Heidegger não desenvolveu uma teoria do todo, uma teoria do Holos. Mas todo o assentamento, todo o fundamento antropológico para tal ele forneceu. Para ele, o Dasein é um ser que, em sua constituição, pré-existe uma relação existencial dele com o mundo; assim, o Dasein, o “ser-aí” não é simplesmente um ser “jogado” no mundo, mas um ser impulsionado para uma relação mútua com ele. O Dasein é, portanto, um Mitsein, o “ser-com”, e mais especificamente, o In-der-Welt-sein, o “ser-no-mundo”. Não mais temos um sujeito que se apropria do mundo, mas um ser que vive junto com o mundo uma existência que inclui ambos, por definição. O Mitsein é um ser que não mais se define por ser completo em si mesmo, autossuficiente, independente, como acontece ao conceito de indivíduo e de sujeito; o Mitsein é, por definição, um ser em participação com outros, um ser aberto e incompleto que depende de um convívio alheio. Mitsein não tem restrições: é um ser-com uma comunidade de pessoas, mas é também um ser-com animais, com plantas, com entidades “sobrenaturais”, deuses, montanhas, e o próprio planeta e as esferas celestes.

O Dasein vive sempre em um contexto, em um ambiente, em uma história, em uma tradição, em uma etnia, em uma religião, em uma missão, em uma comunidade, em um jardim. Assim, não existe contrato social; primeiro, porque não existe necessidade disso, e segundo porque é irrelevante; terceiro, porque não sendo nenhuma das duas primeiras, tornar-se-ia artificial e arbitrário, logo prejudicial.

Essa relação profunda que o Dasein tem com o mundo e os demais seres lembra, em certo sentido, a relação que as vontades singulares e a vontade universal têm entre si no Estado hegeliano. Em ambos os casos, a vontade não é uma deliberação ou um arbítrio por parte de indivíduos, mas nasce de um contexto, de um conjunto, espontaneamente, e se manifesta em cada uma das partes sem que haja conflito entre o todo e as partes. Existe uma fusão volitiva e existencial entre as partes e o todo, e é nisso que consiste o sucesso do bom funcionamento, da saúde, da economia do todo. Esta vontade não se constitui por ser uma expressão racional, verbal, lógica, de um desejo mental e deliberado; pelo contrário, ela é o próprio pathos, o êxtase de um corpo saudável em que as partes sabem intuitivamente o que fazer para se manter cada qual em seu lugar natural.




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Analiticidade: Característica Fundamental do Individualismo

Hieronymus Bosch
Ano passado tivemos a oportunidade de especular sobre o que enxergamos como o paradigma aristotélico, em cuja esteira estaria o desenvolvimento do pensamento moderno[1]. Lá, distinguimos três conceitos aristotélicos formadores deste paradigma: o conceito de substância, o de definição e o de verdade por correspondência. Eles seriam responsáveis pela construção de um modo técnico de se pensar a linguagem, derivando o nosso cientificismo moderno. Em contraste com este paradigma, estaria um certo platonismo oculto pela história, expresso pelo que chamamos de paradigma guenoniano.

Agora, temos por interesse dar um passo adiante nesta especulação e estudar o traço distintivo deste modo técnico de se usar a linguagem, isto é, vamos tentar descobrir seu fundamento, seu modo de ser. E, trazendo-o à luz, tentaremos a partir dele interpretar o desenvolvimento político e artístico da modernidade. Nosso propósito, aqui, não é entrar em discussões sobre certas artes e certas políticas; pelo contrário, é tentar elevar o olhar à altura de uma visão metafísica capaz de enxergar uma lei por de trás de todas as formas particulares de expressão. Esta lei é o que deve determinar todas estas formas particulares e permitir que elas sejam o que são. Com isto, tentaremos mostrar também que o desenvolvimento artístico é inseparável do desenvolvimento político de uma sociedade, e ambos compartilham uma mesma visão de mundo que os mantém complementares um ao outro.

A linguagem técnica e “científica”, desenvolvida ao longo da história pelo paradigma aristotélico, tornando-se mais complexa, abarcando uma lógica que se torna cada vez mais ampla, está assentada sobre um modo particular de conhecimento, que é o da verdade por correspondência aristotélica. Ora, este conceito exige uma diferenciação ontológica entre uma coisa conhecida e sua expressão linguística (que é de onde surge o conceito de definição), de modo que será através da letra que o objeto será, indiretamente, conhecido. Ao ler um livro sobre a árvore, conhece-se a árvore. Esta dualidade primordial é uma caixa de Pandora que abre uma infinidade de diferenciações e separações sucessivas, impedindo o conhecimento imediato da coisa. Assim, separa-se também sujeito e objeto, mas separa-se além disso a definição “conhecida” da coisa e a representação dela, de modo que toda a realidade esteja cindida e mediada por algo que simplesmente não existe: esta “verdade” que não se encontra em lugar algum, esta “correspondência” que falta acontecer.


Partindo disto, separam-se os gêneros, as espécies, as subespécies, as substâncias primeira e segunda. E se formos ainda além para desenvolver o sistema aristotélico, passaremos a estudar genética, uma vez que encontraremos “lacunas” na teoria biológica que deverão ser preenchidas por novos conceitos, novas espécies, raças, famílias, etc. Mas não só genética: também os astros passaremos a desenhar nos papeis, a fim de diferenciar constelações, estrelas, planetas, até que encontramos elementos que não mais se encaixam nos conceitos antigos e assim por diante. “Conhecer” o universo é representa-lo. E representa-lo é imitá-lo em sua divisibilidade infinita, cortá-lo em pedaços cada vez menores, sempre separando o diferente de um lado e de outro. Ao invés da busca por encontrar padrões, semelhanças, este paradigma se multiplica por uma divisão que se parece muito com a implosão de um universo, uma vez que sua tendência é se dissolver na pulverização indeterminada, o que psicologicamente é sentido como vazio. A linguagem que antes trazia “conhecimento” já não trará mais nada quando perceber que, para fazer sentido, necessitará encontrar padrões que há muito já foram relegados ao esquecimento. A parte só faz sentido em um todo que dê-lhe um lugar e, com isto, um significado preciso dentro do sistema.

Pois bem, esta divisão constante tem um nome: aná-lise, do grego analyse, “separar”, “livrar” no sentido de uma liberdade negativa. A palavra “crítica”, muito usada nos nossos tempos e considerada a vanguarda da modernidade, tem uma origem semelhante, e significa também “cisão, rompimento”. O arquiteto mais importante por trás da atualização deste paradigma talvez seja Immanuel Kant, com sua Crítica da Razão Pura. E A Teoria Crítica, que encontra “na Crítica” de Kant uma maneira de oferecer oposição ao objetivismo platônico, leva este paradigma aos abismos mais obscuros das loucuras de um homem esquizofrênico que chega a pensar que ele é um sujeito transcendente, isolado de toda “contingência” do mundo exterior; de modo que todos os seus elementos biológicos, culturais e até mesmo psicológicos são apenas a “casca”.

A análise visa a divisão e seu argumento é que através da separação do diferente ela representará os fatos da realidade. Mas será mesmo que é possível dividir o infinitamente divisível? É possível representar aquilo que não tem fim? E mesmo que tivesse fim, de que modo seria possível que um elemento finito do universo representasse para si o universo por inteiro, em sua infinitude? Quais as ferramentas necessárias para uma tal façanha que seja capaz, ao menos, de igualar a infinitude do universo? São questões que devem vir à tona nestes momentos. Todo engenheiro, todo físico, químico, biólogo, matemático, está acostumado a lidar com universos ideais e, antes de qualquer projeto, averiguar as possibilidades de um tal projeto se concretizar, tendo como base para um tal julgamento os dados empíricos, as potencialidades dos elementos envolvidos, tanto as ferramentas quanto os planos, o mundo ideal utilizar etc. Pois bem, a ciência deveria ao menos buscar fazer o mesmo com o seu objeto de estudo: o universo. Antes de tentar descrevê-lo, deveria se perguntar sobre as possibilidades disto se realizar, e para isto se dará conta de que surgirão outras questões ainda mais fundamentais, que perguntam pela própria natureza do universo. Como conhecer algo sobre o qual não sabemos nem sua qualidade distintiva, seu modo de ser? Pois será que o que chamamos hoje de “ciência empírica” dá conta desta natureza? Parece-nos, pelo contrário, que ao se questionar deste modo a ciência se esbarraria com o próprio absurdo lógico. Surgiriam então muitos maravilhamentos sobre a natureza, e tudo poderia ser novamente repensado.

Uma grande questão a se fazer é: a analiticidade dá origem ao atomismo ou, pelo contrário, este é quem a gera? Pois um fato é inegável, ambos compartilham do mesmo paradigma. Assim como Aristóteles instaurou um paradigma ao mesmo tempo analítico e subjetivo em seu tempo, também a modernidade, da mesma forma, o atualiza em suas “críticas”. A questão talvez encontrará uma resposta se entender por “átomo” o indivíduo, este sendo uma boa razão para que os atomistas encontrem um porto seguro e não sejam obrigados a sair dividindo o universo mundo à fora. Mas apesar de ser uma boa razão em sentido pragmático, está longe de satisfazer na teoria: onde está que este “indivíduo” não é ele também divisível? As teorias liberais parecem se contentar com transcender cada vez mais o centro gravitacional deste indivíduo e deixar que as teorias, cada vez mais ferozes, acabem por consumir as “contingências” mais externas da casca que envolve este centro, isto é, o sujeito. Há um sujeito, então, que é individual, livre de toda contingência; os problemas começam a aparecer quando para além deste sujeito existem outros sujeitos: como conceber que hajam sujeitos múltiplos no mundo? Se tudo no mundo “exterior” é apenas projeção da subjetividade, o que será dos demais sujeitos que requerem também estatuto existencial? Queiramos ou não, este é o fundamento do neoliberalismo, o que em outras palavras quer dizer: cada um por si e ninguém por todos. Não é preciso ser gênio para perceber o nível de esquizofrenia de tais teorias; mas basta com observar a multiplicação cada vez mais histérica de coisas como “ideologia Queer”, “pedofilia é amor”, “penetração não é sexo”, “ejaculada não é abuso” para notar o nível absurdo de subjetivismo ao qual chegamos. Porém, já deveria ser o bastante quando décadas atrás clamaram pela normalidade do homossexualismo, que era apenas o primeiro passo de uma avalanche interminável de metamorfoses satânicas.

Não desligada destas correntes neoliberais, está a arte moderna. Para se observar uma ligação, bastaria constatar que os financiadores destas “artes” são os mesmos ativistas neoliberais. Mas vale um estudo mais aprofundado sobre os princípios destas artes para eliminar dificuldades na compreensão destes fenômenos. Para o moderno, a beleza é subjetiva, e tudo se resume a gostos: cada um tem o seu. Nada é compartilhado. Aqui há um forte elemento filosófico-político, que o conecta aos interesses do neoliberalismo de transcender o indivíduo. Mas há também um aspecto psicológico: a “arte” moderna é feita para “chocar”, para causar rompimentos psicológicos, estresse, desconforto, é feita para trazer o feio. O belo é por definição objetivo, todo abarcante no qual tudo flui e ao qual tudo pertence; o feio, portanto, é a destruição desta harmonia e a separação infinita de suas partes. Estas partes são, em nível psicológico, os aspectos da personalidade da pessoa, que se dividem em múltiplas reações, concretizando múltiplas personalidades, gerando a psicose, neurose etc. Em nível sociológico, as partes são os indivíduos, os partidos, os grupos, as tribos urbanas, que passam a lutar entre si, tendo cada uma delas uma percepção particular, puramente subjetiva e única, daquela “arte”, buscando torna-la universal através de uma aniquilação das demais teses no espaço público. A consequência disso é a total falta de confiança generalizada do povo, a solidão, a perda completa de bom senso e, mais adiante, a guerra civil. Estas “artes” são utilizadas para reforçar a teoria neoliberal de que cada um é um sujeito em separado: elas silenciosamente conscientizam o povo de que “é mesmo, cada um tem sua opinião e ponto”, como se não houvesse mais uma verdade objetiva a ser observada e constatada. Trata-se de um veículo de manipulação ideológica sutil, contra o qual há apenas a autoridade do Estado, uma vez que não há lei que seja tão sutil a ponto de conseguir limitar este tipo de expressão, de definir e por conseguinte proibir; os neoliberais sabem disso e se aproveitam. Usam discursos normalizadores que não param jamais, e assim como o homossexualismo foi normalizado, hoje estamos normalizando a pedofilia escancarada; há cinco anos atrás diziam “homossexualismo não é pedofilia, que é crime”, e hoje dizem “relação corporal com criança é amor”.

Estas “artes”, por serem analíticas, críticas, e são como um objeto qualquer exposto no espaço sideral, um ponto em um mapa cartesiano sem referências, não têm seu “lugar natural” (que exige um todo objetivo relativo a quem as partes têm existência) e carecem, assim, de significado. O “artista” se vê obrigado a explicar sua “obra” com alguma descrição, um texto, visando dar sentido à sua esquizofrenia ambulante a quem “não está à altura de compreender”. Eis, assim, o fundamento analítico da arte moderna.

A arte é um aspecto da política e vice-versa. Um complementa o outro e fornece fundamentos para o outro. Cada um fornece uma linguagem inteligível que expressa na e orienta ativamente a sociedade. Por este motivo, o neoliberalismo e a arte moderna compartilham uma mesma weltanschauung analítica, atomista, que constituem o paradigma moderno, que é um prolongamento do que chamamos de paradigma aristotélico. Seria impossível que uma arte cultuasse a beleza e fosse neoliberal, assim como seria impossível uma arte moderna como a que temos sem a negação da objetividade e da imediatidade do conhecimento metafísico.

[1] http://alvarohauschild.blogspot.com.br/2016/11/do-paradigma-moderno-e-do-tradicional-e.html

sábado, 16 de setembro de 2017

Você é Aquilo que Vê

Fidus
Os nutricionistas têm uma frase que resume bem os princípios por trás da sua ciência: você é o que você come. Isto é, em termos biológicos, no que cabe aos elementos nutricionais, que constituirão o corpo da pessoa, a pessoa se torna aquilo que ela come. Por isso deve comer certos alimentos, evitar outros, tudo dependendo da sua precondição genética, da sua condição e capacidade fisiológicas; cada pessoa, por conta destas variações que antecedem a nutrição, terá para si um “caminho” para a boa orientação e saúde corporais. Tudo é uma questão de proporção, de “boa medida”. Contudo, apesar das diferenças superficiais, o princípio determinante deste caminho é único para todos, motivo que dá para a nutrição ser uma ciência, capaz de observar padrões e de calcular sobre eles.

O mesmo poderíamos ouvir de um personal trainer: você é o que você faz/exercita. O aspecto físico de uma pessoa que busca um personal servirá para este construir um diagnóstico do modo de vida do seu cliente; este diagnóstico, muitas vezes, atinge tão bem o alvo que o personal é capaz de adivinhar até mesmo a profissão do cliente, seus hábitos profissionais e domésticos, quase no detalhe. Isto tudo se deve ao fato de que, embora cada cliente seja “único”, todos os corpos obedecem a uma lei comum, que permite, a partir dela, obter diagnósticos. Não que o personal seja um conhecedor desta lei corporal, isto é, possuidor dela; sua ciência, estudada em universidades, é apenas uma tentativa abstrata de representar o que podemos apreender logicamente desta lei, que é inefável; pois sempre há algo ainda que fica por se “descobrir”. Entre os cientistas, aliás, este tipo de especulação e raciocínio faz parte de suas análises cotidianas.

O farmacêutico, o médico, dirá o mesmo. Todos aqueles que trabalham na área da saúde dirão o mesmo. Infelizmente, porém, nossa sociedade moderna ocidental rechaçou o sentido amplo e antigo de “médico”. Hoje, o médico é aquele que prescreve curativos, remédios, para corrigir uma falha localizada, por exemplo, na perna, no braço. O médico é diferente do personal, do nutricionista, do farmacêutico e do psicólogo. Há, inclusive, uma clivagem perigosa entre “doenças físicas” e “doenças psicológicas”, que decorre de uma divisão filosófica moderna racionalista entre a “filosofia prática” e a “filosofia teórica”. O médico, portanto, nos nossos dias, é de um “conhecimento” deveras especializado, e nem mais dentro da sua própria profissão ele é capaz de curar seus clientes, porque o “ortopedista” não sabe lidar com dores musculares, e assim por diante. A capacidade de prever doenças, de diagnosticar o cliente como um todo, foge dos médicos hodiernos, porque eles não conhecem mais as amplas possibilidades e variedade que o corpo humano pode manifestar; origens de doenças, curas, são cada vez menos conhecidas. Mas mesmo assim, o médico é aquele que terá de dizer, em coro com os demais profissionais da saúde: você é o que ingere, faz, etc.

Quanto ao psicólogo, a questão é muito mais complicada. Ao invés de predisposições genéticas, temos um inconsciente ou subconsciente, sobre o qual nenhum deles entrou em acordo até hoje; pelo contrário, estes termos só lhes dão razões para divergirem cada vez mais uns dos outros. Alguns ainda conectam o inconsciente aos fatores biológicos, à cultura, etc., mas sem desenvolver até hoje nenhum solo concreto a partir do qual sustentar uma “ciência da mente humana”. Mesmo assim, todos eles assumem algo como “você é o pensamento que absorve ou manifesta”, etc. Daí decorre a sociologia, que lida com a “psicologia das massas”, mas que até hoje se mantém na dicotomia entre mente e cultura, manifesta na Teoria Crítica deveras contemporânea. O sociólogo, contudo, assumirá para si a tese exposta aqui da seguinte maneira: você é, enquanto espelho da sociedade, a cultura da sociedade. Eles sabem muito bem o que fazem, portanto, quando investem na “arte” contemporânea para “desconstruir” padrões estéticos e coisas afins; eles sabem que manipularão as massas, e agem como verdadeiros magos negros em defesa de interesses privados, seus e dos seus financiadores.

Em despeito das ciências modernas, cada vez mais especializadas, cada vez mais inúteis e incapazes de solucionar os problemas do homem, isto é, em despeito da figura do médico moderno, há uma ciência antiga que parte de princípios totalmente opostos. O médico dos renascentistas, o teurgo dos oráculos, não estuda apenas a “parte”; pelo contrário, é o “todo” que lhes interessa. Pois é no todo que está a alma, que não se divide no corpo, e só é possível ter um corpo saudável se se tem, antes de tudo, uma alma saudável. O médico renascentista, o teurgo dos oráculos é, assim, um mago, um “curandeiro”; pode usar de ervas, exercícios, mas pode usar também de talismãs, de rituais. Este médico lidará com religião, com arte, e usará de imagens, reformas políticas, com o fim de curar as pessoas do povo, tanto individual quanto publicamente – uma vez que é o “todo” no qual se foca, a parte só pode ser curada se o todo também o for. Por isso que nossos psicólogos contemporâneos são uma verdadeira mina de ouro: “curam” seus clientes individualmente sem curar o todo, tornando seus clientes dependentes de consultas, tanto quanto uma pessoa depressiva se torna dependente de remédios químicos: pois passado o efeito do remédio, ela “adoece” de novo. Em uma sociedade doente, não é possível manter o indivíduo saudável. Por quê?, poderíamos questionar. Porque o indivíduo é um espelho da sociedade, ele absorve os ideais da sociedade para até mesmo se adaptar a ela; isto inclui não apenas ideologia no sentido corriqueiro, mas em um sentido amplo e profundo, espiritual: o modo de vida e a visão de mundo sociais invadem e transformam o indivíduo, que depende da sociedade para viver. Indivíduo e sociedade são uma simbiose tão interdependente que, em verdade, são um só: o indivíduo é o que a sociedade é, e vicer-versa. Cada pessoa terá seus traços únicos, que em Platão entrariam no conceito de Daimon, mas estes traços se organizam na pessoa de tal forma a imitar o paradigma ideológico da sociedade. Se a sociedade cultuar o feio e a desordem, haverá desordem mental e fisiológica no indivíduo. Se a sociedade se fundamentar no individualismo e no egoísmo, egoísta será o indivíduo, e mais do que isso: será também insaciável, instável, em suma, ansioso, depressivo. Será, pois, psicopata, pedófilo, serial killer, fetichista, e tudo isso e muito mais poderá vir a se tornar “normal” quando a sociedade por inteiro por invadida por esta inclinação à desordem, pois quem determina o que é normal e o que é anormal é o “bom senso” social, e nada mais. Tudo é construção social.

Giordano Bruno previu isto tudo. Ele foi apenas um dentre os tantos que previram em toda a história da humanidade, mas o caso dele é digno de nota. Sua teoria do Eros, isto é, do amor, identifica o ser a um conjunto de entidades ligadas pelo amor. Assim, a abelha e a flor estão ligadas pelo amor, os elementos do cosmos, homem e mulher, os elementos sociais etc. Ioan Culianu, em Eros e Magia no Renascimento, destaca Bruno como o filósofo que previu as grandes manipulações sociais, de cuja doutrina saíram a psicologia e a sociologia. O médico bruniano cura doenças fisiológicas, mas também cura as da alma, manipulando o desejo alheio, ou manipulando as coisas desejadas pelos outros. O médico, porém, o é porque é mago; mas o mago não necessariamente é um médico: o médico cura, mas o mago pode também amaldiçoar. Daí vem a noção de magro negro, que pode ser aplicada, por exemplo, ao George Soros, à Rede Globo, aos feministas, mas também ao Bolsonaro e Olavo de Carvalho; também aos empresários que publicam outdoors, baseados inclusive na Publicidade e Propaganda, que hoje se tornou até mesmo ciência e estatística. Todos estes visam ao enfraquecimento social, ao distúrbio, que levará consequentemente ao enfraquecimento das pessoas individualmente, mais fáceis e passíveis de serem controladas, seja pela força, seja pela mente. Surge o consumismo, a concentração de poder aquisitivo, a passividade dos povos em relação aos governos corruptos; isso tudo está aliado, certamente, à ansiedade, à depressão, à solidão, às altas taxas de suicídio, à sede sexual excessiva, estupros, pedofilia etc. Retornando aos Bolsonaro e Olavo de Carvalho, que se tornaram personalidades das massas, bastaria observar a total carência, neles, de objetividade e argumentação, ciência no sentido forte; não há conhecimento de coisa alguma, e mesmo assim eles convencem, arrastam as massas ao seu favor. Quais são suas armas por trás disso? Inflação de ego, elogios, aliados à criação de uma imagem sobre si de personalidades “fortes” e “independentes”; então basta, para as massas, carentes e vazias, ansiosas e depressivas, com baixa auto-estima, exclamar “mito” e ofender o “comunista” para que elas, enquanto “opressoras”, se sentirem fortes e independentes quando não são – e o quadro se agrava conforme o tempo passa, porque cada vez esse vazio se torna maior. Podemos ver que tudo aqui é uma questão de criar necessidades imediatas entre o povo e apresentar um remédio fácil, gratuito e pronto; e tão mais fácil é convencer o homem pobre, egoísta, ansioso e ambicioso, do que o estável, independente, emocionalmente satisfeito, etc. O mesmo ocorre com pornografia e sites de relacionamento adulto: só as mulheres não pagam, recebem bônus, “proteção” ao toque e privacidade (isto é: distanciamento em relação ao objetivo real de um relacionamento, que é a intimidade); isto é tudo muito bem pensado, porque a mulher é o princípio passivo de uma relação, de modo que será sempre lucrativo quanto mais distante ela estará do homem. Isto, a longo prazo, fomenta a ansiedade masculina, e leva aos exageros do estupro e das ejaculações precoces, em locais públicos etc. Mas nenhum intelectual, nenhum dono de site de relacionamento, nenhum financiador de ideologias individualistas, é jamais responsabilizado pelos crimes que se disseminam entre o povo, que sempre sofre a carência e depois sofre também a prisão, a multa etc. Banqueiros e intelectuais estão do mesmo lado, fazem parte da mesma estratégia.

O “mago branco” de Bruno está no extremo oposto: ele busca estudar a lei natural de todas as coisas com o fim de observar os nós na imensa rede erótica do ser e, a partir de então, diagnosticar onde está de fato a raiz do câncer, a fim de exterminá-lo. O mago negro é um câncer, o mago branco é um médico; o primeiro é Saruman, o segundo é Gandalf. George Soros, mago negro, destruiu países inteiros, como a Ucrânia, projetou verdadeiros massacres em todo o mundo e transformações sociais profundas em todos os países do Ocidente. Vladimir Putin pode ser colocado entre os magos brancos; homem inteligente e amante do povo, não se deixa levar pelos golpes baixos na geopolítica (aviões civis russos sendo derrubados, cercamento da Rússia pelas tropas da OTAN, protestos do FEMEN, que buscam atacar onde mais dói, tanto para o presidente russo quanto para o projeto desenvolvimentista nacional russo); pelo contrário, a diplomacia se torna, na mão de Putin, um verdadeiro remédio para conciliar distúrbios artificiais entre as duas Coréias, a China, a Índia, permitindo-o intervir em favor de Assad na Síria sem que fosse necessário uma declaração de guerra, assim como no Donbass, na Crimeia e na Turquia, quando houve um golpe militar que quase levou o mundo ao caos em 2016. A diplomacia russa é sutil, de uma eficácia alarmante, extremamente sensível, que nenhum intelectual ocidental é capaz de compreender, pois é demasiado grosseiro e estúpido para tal. O mago branco, então, mexendo aqui e ali, reformando aqui e ali, visa à cura das feridas mais graves, o que certamente enraivece os magos negros, que veem seus planos sendo continuamente desmanchados. Enquanto os homens ocidentais vivem de doenças psicológicas, terrivelmente deprimidos e sem-rumo, os homens russos se tornam cada vez mais vigorosos, fortes, prontos para defender sua pátria, suas mulheres e crianças; o que também é um fator muito relevante no caso de uma guerra, além de ser sinal para algo mais: saúde mental, física e, sobretudo, espiritual! As reformas de Putin envolvem uma participação profunda das comunidades religiosas, sobretudo da Igreja Ortodoxa, censura de ideologias feministas, proibição de ONGs (em geral, ligadas ao Soros) etc., e alcançam todas as áreas da sociedade e da alma humana, desde a econômica/doméstica até a cultural, biológica e emocional. Pois é bem entendido que o homem não tem apenas necessidades econômicas, nem que suas necessidades emocionais estão ligadas à necessidade de consumir, como pretende o mundo ocidental.

Assim, podemos retornar ao que vínhamos falando no início, e afirmar que o homem é aquilo que reflete, em sentido amplo. Isto é, ele é o que vê; se seu meio for o de uma cidade repleta de outdoors pipocando por todos os lados, desorganizada, agitada, feia, sem uma regra e uma definição estética que organize todo o ambiente, então o homem será também desequilibrado, desordenado, o que será sentido como vazio, carência de sustentação e firmeza, carência de força. A civilização moderna é em si um câncer do mundo; assim também será o homem moderno, um câncer, um parasita emocional que não enxergará mal algum na pedofilia e na deturpação da mente das crianças, porque ele apenas reflete suas necessidades interiores. Em suma, o homem moderno é por natureza um psicopata, um louco, que só pôde tomar as ruas, as instituições tão abertamente depois que proibiram os hospícios e libertaram a “esfera privada” da “esfera pública” – então, banqueiros, tendo dinheiro, se sentem certamente no direito de fazer o que bem entenderem com ele, pois tudo é “legal”. A “livre expressão” se tornou uma arma de transformações profundas da sociedade humana, usada por quem tem dinheiro e cargos públicos, uma arma grosseira, mas muito sutil para os olhos de um homem ocidental, imbecilizado, grotesco, bruto e animalizado.

Só haverá mudança neste quadro horrendo quando surgirem magos brancos capazes de desenvolver armas poderosas que neutralizem os efeitos causados pelos magos negros. A autoridade de um mago é necessária, pois sua atividade requer poder, e seu poder requer a confiança do cliente, tanto quanto um médico requer a confiança e a passividade do doente. Isto envolve uma estratégia estética profunda, pois são as imagens que orientam os desejos na mente humana; iconoclastia neste ponto de decadência só levará ao perpetuamento do estado doentio da sociedade (daí a destruição de monumentos antigos na Síria por parte do ISIS, que está em pé de igualdade com a retirada de monumentos nos EUA, com a desculpa de um “neonazismo”, que está longe de significar qualquer ameaça e, pelo contrário, serve como arma sociológica do status quo para gerar medo e criar desculpas para reformas), o que não quer dizer que, em outros contextos, a proibição de imagens ou ídolos não poderia ser realmente curativa. A Quarta Teoria Política é, em nível político, o remédio perfeito para o momento; ela concentra todas as vantagens buscadas por todas as demais teorias políticas, e não apresenta nenhuma das desvantagens que elas representam. Vladimir Putin, por sua vez, parece cada vez mais próximo das influências de Dugin, e sua diplomacia reflete não apenas uma tradição russa e uma arma genuína, mas também certa influência quartoteórica, pois o discurso russo foca cada vez mais em uma conciliação internacional entre povos, seguindo uma linha completamente diferente da qual seguia a União Soviética e os próprios EUA, em que ambos buscam estabelecer cada qual uma influência única e uniforme sobre todos os povos, transformando-os a seu bel prazer e possuindo-os para si.

Em contraposição a um globalismo abstrato, a uma cultura cosmopolita globalista, uma economia capitalista padronizada, a Quarta Teoria nos convoca a nos voltar cada povo para si mesmo, e encontrar remédios próprios para cada povo; as consequências disso são, em primeiro momento, multipolarização das relações de poder, imanentização dos poderes nacionais em benefício de autoridades regionais. Uma vez que cada povo tem sua linguagem própria, só autoridades regionais para conhecer melhor seus povos e, enfim, indicar-lhes os remédios próprios. Isto exige uma nova ciência: etnosociologia. Não se trata mais de uma sociologia abstrata, derivada das maluquices do pós-estruturalismo globalista e cosmopolita, mas uma sociologia fundamentada no Daimon de cada povo, que Dugin parece unir no Dasein heideggeriano. Os fatores genéticos, culturais, familiares, climáticos, etc., começam a se tornar relevantes para a sociologia, de modo que cada grupo étnico e religioso se torne uma comunidade fechada e independente, um universo. O Daimon platônico é um “espírito-guia” ao qual cada pessoa pertence e escolhe antes de nascer, são as influências profundas, que incluem também o que na linguagem junguiana se torna o “inconsciente coletivo” de um povo e de uma pessoa, mas incluem também as predisposições genéticas. Outra consequência de um estudo aprofundado da etnosociologia certamente será uma concepção holística da sociedade: enquanto na sociedade civil, que é composta por átomos, há um degradê entre dois polos, o individualismo e o totalitarismo, na sociedade holística, pelo contrário, há uma imensa rede de contatos na qual os nós são os indivíduos, de modo que cada indivíduo tem um espaço próprio, determinado por suas inclinações e predisposições, isto é, seu Daimon. Em outros termos, uma sociedade holística permite que as potencialidades inatas dos indivíduos sejam instigadas para que se realizem; uma vez que todos indivíduos têm Daimones distintos, cada um terá um espaço próprio, mas cuja definição está na própria relação com o todo, isto é, a rede. Aqui, cada homem é definido por sua função, mas uma função que não pode ser identificada pela profissão na sociedade civil, porque a profissão não leva em consideração as potencialidades inatas, mas o dinheiro, a ambição que cada qual tem que o leve a disputar cargos; e assim temos milhões de médicos, ricos, insatisfeitos com sua vida.

O desvelamento da dignidade de todo o “espaço” etnológico permite a cada um aceitar seu lugar, busca-lo. Isto será feito com a desconcentração de ganhos e salários e introdução de todas as funções em um imenso rito nacional, em que todas as funções estão interligadas dentro de uma máquina coletiva, que visa não os lucros, mas a realização da missão humana na terra. Trata-se de uma experiência religiosa profunda, fundamentada não na abstração de conceitos e valores arbitrários, mas naquilo que cada um é e foi feito para ser. O guerreiro, o filósofo, o sapateiro, o líder, o médico, o agricultor, etc., são modos de realização espiritual, e cada um destes modos tem sua razão espiritual. A beleza observada não apenas nos objetos produzidos, mas na própria atividade como um todo, decorre dessa realização, pois tudo é feito por zelo e perfeição, por fazer uma obra sagrada, para embelezar e coroar a existência, a vida, a divindade. A beleza não apenas é vista no objeto, mas sentida no íntimo; o sapateiro sentirá diferente do guerreiro, mas ambos sentem cada qual a seu modo a beleza, uma harmonia inefável e inexplicável à qual pertencemos enquanto agimos. Ou por que então teríamos nós nascido? Para ser escravo de banqueiro, que usa seus milhões de dólares mensais para comprar criancinhas e estupra-las nos bastidores é que não foi. Sequer o banqueiro sabe porque nasceu e se sente satisfeito com o que faz; mas caso perguntássemos a um bom sapateiro, a um bom filósofo, a um guerreiro berserker, certamente a resposta seria diferente; não necessariamente as palavras, que vacilarão, mas o modo como elas são ditas, com ardor e paixão, ou então com aquela tranquilidade típica de monges orientais. Em se realizando, o homem poderia dizer: você é o que você faz, identificando-se naquilo que faz – é um ritual.


A beleza é isso, é a harmonia, que existe antes de tudo no Eros, na rede do ser. O câncer é a perturbação dessa harmonia, para o que nossos “intelectuais” encontraram um eufemismo vergonhoso: “arte provocativa”. A propagação da feiura não apenas é uma corrupção dos indivíduos, mas é um parasitismo do corpo de deus, da rede de Eros a qual todos pertencemos, e é imperdoável, antinatural. É Mordor que se alimenta do corpo da Terra Média, é o vampiro que se alimenta do sangue alheio.

domingo, 25 de junho de 2017

(POEMA) Teu Nome Inefável

Álvaro Hauschild

Teu nome eu respiro
nos ventos da aurora
e o fogo sem demora
me inflama o espírito.

Preciso dizer teu nome
às flores e macieiras do jardim,
mas não consigo dizer o que está em mim,
ó, esta maravilha incessante!

Permitiriam-me os anjos dizê-lo?
Não dizê-lo é doloroso
quando o nome amoroso
é da amada esquecida e dormente.

Morre o mundo por dormir
do amor o centro lácteo
que nutre o mundo ordenado,
ó, linda, dona de mim!

Desperta e olha nos olhos meus
vida pura e flamejante,
reflexo no teu amante
da vida e do amor que é teu!

Com teus olhos, me olhando,
então dizes o inefável,
o qual dizer é necessário:
teu nome, nós nos amando. [24/06/2017]

segunda-feira, 19 de junho de 2017

(POEMA) Deusine

Karl Wilhelm Diefenbach

Das lâmpadas odeio a luz,
amo a das velas e ainda mais a da lua,
amo ver nelas minha amada nua,
a quem estas luzes todas me conduzem.

Dos homens todos odeio o barulho,
amo o dos trovões e ainda mais o do silêncio,
amo sentir neles da minha amada a presença,
que me leva para casa, dentro do seu útero.

De toda a humanidade odeio a atividade,
amo o sossego e ainda mais o recolhimento,
amo inspirar neles da minha amada o alento,
minha vida pura, pura felicidade.

As vozes do mundo todas odeio,
amo a solidão e ainda mais o vazio,
amo deitar com minha amada no frio,
mergulhar meu espírit' em seus alvos seios.

Odeio com os homens à mesa comer,
amo o alimento do belo e sublime,
amo as delícias da minha amada Deusine,
pelas quais meu corpo deixo morrer. [19/06/2017]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

(POEMA) Wie die Blumen Wieder Kamen

Konstantin Vasiliev
Auf dem Feld lauft ein Kind,
das ein Speer in die Hände hat
und stark zu den Wind
schreit es, um die Götte rufen an...

Da kommen die Götte alle heraus,
die das Kind eine Frage lassen:
“was suchst du unser Kind, so schwach und allein?
Du bist d' erst in tausende Jahren...”

“Ein Mädchen, das ich sehr viel liebe,
ist krank, und sie sagen, dass es sterben muss;
aber die Welt kann nicht ohne seinen Kuss.
Was kann ich tun?”, kommt es, um zu bitten.

“Uns'r liebes Kind”, sagen die Götte im Feld,
“das Mädchen, von dem du jetzt sprichst,
aus (dem) Tod das schreckliches Fleisch isst
und kein Medizin kann das Mädchen helfen.

Du kannst aber dein Leben gut nehmen:
währen du lebst, du darfst ein Schloss haben,
berühmt und ansehnlich sein von allen,
und niemal von die Krankenheit errecken”.

So antwortet das Kind: “ohne den Kuss,
den gibt das Mädchen, kann nicht der Fluss
in meinem Schloss schönen fliessen,
auch nicht die Vögelein fliegen,
die Sonne im Himmel mir scheinen...
ohne es gibt es nichts von meinen.

Geb mir den Tod, die fürchterliche Fleisch;
die Welt will in Ginnungagap zurück-sterben;
die Blumen blühen nicht in die Reich von Melkor;
Eros kann aber nicht ohne Psychê bleiben...

da mach, dass mir der Donner kommt...!”
Und mit seinem Speer starrt es auf sein Herz.
Das Blut durch die Welt macht, dass neue Meere
und neu' Erde für alle kommen.

Die erste Blumen blühen aus,
um die Sonnens Scheinen erreichen,
wo das Blut auch erste kam – Heiss!
– von einem Geist und Herz raus. [12-16/02/2017]