segunda-feira, 19 de junho de 2017

(POEMA) Deusine

Karl Wilhelm Diefenbach

Das lâmpadas odeio a luz,
amo a das velas e ainda mais a da lua,
amo ver nelas minha amada nua,
a quem estas luzes todas me conduzem.

Dos homens todos odeio o barulho,
amo o dos trovões e ainda mais o do silêncio,
amo sentir neles da minha amada a presença,
que me leva para casa, dentro do seu útero.

De toda a humanidade odeio a atividade,
amo o sossego e ainda mais o recolhimento,
amo inspirar neles da minha amada o alento,
minha vida pura, pura felicidade.

As vozes do mundo todas odeio,
amo a solidão e ainda mais o vazio,
amo deitar com minha amada no frio,
mergulhar meu espírit' em seus alvos seios.

Odeio com os homens à mesa comer,
amo o alimento do belo e sublime,
amo as delícias da minha amada Deusine,
pelas quais meu corpo deixo morrer. [19/06/2017]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

(POEMA) Wie die Blumen Wieder Kamen

Konstantin Vasiliev
Auf dem Feld lauft ein Kind,
das ein Speer in die Hände hat
und stark zu den Wind
schreit es, um die Götte rufen an...

Da kommen die Götte alle heraus,
die das Kind eine Frage lassen:
“was suchst du unser Kind, so schwach und allein?
Du bist d' erst in tausende Jahren...”

“Ein Mädchen, das ich sehr viel liebe,
ist krank, und sie sagen, dass es sterben muss;
aber die Welt kann nicht ohne seinen Kuss.
Was kann ich tun?”, kommt es, um zu bitten.

“Uns'r liebes Kind”, sagen die Götte im Feld,
“das Mädchen, von dem du jetzt sprichst,
aus (dem) Tod das schreckliches Fleisch isst
und kein Medizin kann das Mädchen helfen.

Du kannst aber dein Leben gut nehmen:
währen du lebst, du darfst ein Schloss haben,
berühmt und ansehnlich sein von allen,
und niemal von die Krankenheit errecken”.

So antwortet das Kind: “ohne den Kuss,
den gibt das Mädchen, kann nicht der Fluss
in meinem Schloss schönen fliessen,
auch nicht die Vögelein fliegen,
die Sonne im Himmel mir scheinen...
ohne es gibt es nichts von meinen.

Geb mir den Tod, die fürchterliche Fleisch;
die Welt will in Ginnungagap zurück-sterben;
die Blumen blühen nicht in die Reich von Melkor;
Eros kann aber nicht ohne Psychê bleiben...

da mach, dass mir der Donner kommt...!”
Und mit seinem Speer starrt es auf sein Herz.
Das Blut durch die Welt macht, dass neue Meere
und neu' Erde für alle kommen.

Die erste Blumen blühen aus,
um die Sonnens Scheinen erreichen,
wo das Blut auch erste kam – Heiss!
– von einem Geist und Herz raus. [12-16/02/2017]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

(POEMA) O Vale Remoto

Hans Dahl

No vale remoto, em meio a silentes
picos nevados cobertos por coníferas
que guardando verdejam secretos sonidos
ouvidos por todos e por flores e abelhas,
desce um riacho tilintando suave
percorrendo os campos de flores repletos,
e de musgos, e liquens, gramíneas completos,
e descendo do alto se perde e se vai...

Apolo do alto, iluminando secreto,
toca dourado no campo sozinha
fiel e farta macieira amorosa
dando frutos a mãe generosa
à bela Urânia, amor d'uma vida...

Urânia, Urânia, corpo celeste,
de estrelas longínquas é feita tua pele;
teus olhos brilhantes o riacho te deu
das águas frescas que o céu as bebeu;
longos, muito longos, finos e leves
são de ouro os fios tecidos,
no ar dançando e mostrando o caminho
a mim, que longe poderei me perder do paraíso,
da tua alma feitos, luminosa e cristalina...

Mas desce correndo também do castelo
para os campos, até nós, se misturando
e perdendo entre as flores mirantes,
e seus risinhos com o tilintar fresculento
do riacho se confundindo e fundindo,
desce ali graciosa nosso fruto
saído do ventre celestial, do tudo,
desce ali Ágata, a da beleza detentora
para quem mil olhos com mil lágrimas
suficientes não seriam na alegria redentora.

No alto do vale remoto, por Apolo desenhado
guincha sobrevoando um pássaro observado. [09/06/2017]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

(POEMA) Florzinha sob o Caos

Arno Brecker

Ó doce florzinha,
tão pálida e pequenina,
tão frágil, ó menina,
qual é o segredo que germina
e existência te dá,
e resistência também,
neste mundo onde vão e vêm
a dor, a morte, a impermanência e o caos?

Ó minha anjinha,
tão sensível e tão levada,
quando os ventos mornos
te levarem para longe
e então te abandonarem,
o que farás em meia-estrada
sozinha, indefesa e machucada?

Ó livre andorinha,
princezinha dos céus,
por que te vais sempre mais longe
em busca do alaranjado,
no horizonte açucarado,
se o sol é o mesmo todo dia
e encontrarás apenas a noite?

Ó transparente cristal,
por que te maculas te afundando
na lama, te fazendo perder
em movediça areia decaindo,
para onde te encontrar ninguém
poderá, nem mesmo querendo?

Ó filha de Selene,
luz fria e tenebrosa,
ó minh'alma manifesta
em doçura amorosa,
assim tão longe não te percas,
assim tão grave não te machuques,
assim tão feio não de mudes,
assim tão dolorsamente
não me mates. [01/05/2017]

terça-feira, 14 de março de 2017

(POEMA) Drowned Together

John Martin

The skies will fall down
and we will be drowned
by the angels blood
in the greatest flood;
so thou wilt feel how
everything'll be love.

This liquid thou drinkst
that falls from the spring,
from the heart of angels,
oh... the fire of angels,
'll unite what our rings
'nly representated.

As will our two souls
our flesh will dissolve
in the red dark see
in order to be
rescued from the cold
'f living dual-being.

From the dispair of...
of living alone
each one by its side
thou, darl(ing), become(st) mine
and it'll be 'nough
'cause I, sure, am thine.

And I will be thee,
and thou wilt be me,
and we will be one
'cause we'll be the blood
that once had us killed
and now made us live
in the eternity. [14/03/2017]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Sabedoria dos Mitos e Contos de Fadas


Há um vício nas atuais doutrinas e nos atuais estudos sobre os mistérios, sobre o gnosticismo, religiões e seitas esotéricas que imita exatamente aquilo que julgam combater: o racionalismo. Perdemos o contato com a realidade, esquecemos o sentido simbólico da linguagem, e passamos assim, senão a interpretar as doutrinas literalmente, ao menos a concebê-las como sistemas abstratos e dogmáticos. Desse modo, a Idade de Ouro se torna um dogma como qualquer outro, tal como o céu abstrato do cristianismo, uma "realidade" inventada; perdeu-se a noção de que a Idade de Ouro, por exemplo, sendo um símbolo de significados múltiplos, pode querer dizer algo sobre o processo histórico concreto, sobre o desenvolvimento intelectual e moral do homem, sobre a constituição natural e originária de um mundo que não se distingue do nosso, cuja constituição apenas tenha sido esquecida enquanto conteúdo de cognição.

Muito se fala sobre símbolos, mitos, entidades, até fazem-se relações, mas nunca se aponta o sentido concreto, que é realmente o que importa, sem o qual tudo não passa de palavras vazias, típicas inclusive do nosso sistema acadêmico, que fala das coisas sem realizá-las. Em suma, é racionalismo puro, pura abstração vazia e sem conteúdo; sinais sem significado, sem a referência subjacente. Em face disso, queremos fazer uma ode aos contos de fadas, e mostrar que eles são as formas mais puras e imediatas de um "esoterismo" milenar; não lidam com abstrações exageradas, seus símbolos são facilmente compreensíveis, e sua sabedoria é inesgotável para filósofos e contempladores. Aliás, há quem diga que os contos, muitos dos quais foram reunidos pelos irmãos Grimm na Europa Central, são mais antigos que os mitos mediterrâneos dos gregos e que a Bíblia[1]; o que é muito crível, em vista de sua estrutura primitiva e seus símbolos, típicos de civilizações tão antigas quanto a hindu. Esses contos de fadas não são invenções abstratas, mas relatos recolhidos no seio do povo, muitas vezes habitantes de florestas e vales remotos, onde a sabedoria dos antepassados permanece repleta de vida e significa, quase intocada; os contos dos irmãos Grimm, por sua vez, refletem um frescor e uma naturalidade, uma clareza, muito familiares a um homem germânico, cujo espírito, o Geist, pertence a vales orvalhados, picos gelados e mulheres brancas, sorridentes, graciosas e luminosas, que colhem flores no campo como uma flor reunida com suas irmãs.

Prestemos atenção em um conto curto, porém riquíssimo de significado, sobre o qual nosso comentário, pobre, apenas terá o interesse de se demorar sobre a riqueza sábia dos antigos, que nunca deixará de ter algo de grande e profundo a nos ensinar:

A Abelha-rainha (Die Bienenkönigin)

Era uma vez, dois filhos de um rei foram para uma aventura e enfrentaram uma vida selvagem e bruta, de modo que não voltariam mais para casa. O mais novo, o qual chamavam de Bobo, aprontou-se e foi a procura dos seus dois irmãos; mas, assim que ele finalmente os encontrou, eles zombaram dele que ele, com sua simplicidade, queria dominar o mundo, enquanto eles dois não podiam se virar muito bem, mesmo sendo mais sábios. Mas eles então retomaram, os três, a viagem e encontraram um ninho de formiga. Os dois mais velhos queriam fuçar e ver como as pequenas formigas, angustiadas, rastejar-se-iam e carregariam seus ovos, mas o Bobo disse: "deixem os bichos em paz, eu não gosto que vocês os incomodem". Então eles seguiram em frente e viram um lago, onde nadavam muitos, muitos patos. Os dois irmãos queriam pegar um punhado deles e assar, mas o Bobo não deixou e falou: "deixem os bichos em paz, eu não gosto que vocês os matem". Por fim, encontraram um ninho de abelha, onde tinha tanto mel que escorria pelo tronco. Os dois queriam pôr fogo de baixo da árvore e sufocar as abelhas, de modo que assim poderiam levar o mel embora. Mas o Bobo se manteve empacado e falou: "deixem os bichos em paz, eu não gosto que vocês os queimem". No fim, os três irmãos chegaram em um castelo, onde no estábulo estava cheio de cavalos de pedra, e não havia pessoas por perto, e eles foram entrando por todos os salões até que bem lá no final tinha uma porta com três fechaduras; pela fechadura da porta tinha uma criança que se podia ver no quarto. Eles viram ali um homenzinho cinzento que estava sentado na mesa. Eles o chamaram uma vez, duas vezes, mas ele não ouviu, então o chamaram pela terceira vez, e ele se levantou, destrancou a porta e veio para fora. Não falou uma palavra, mas os guiou a uma mesa farta, e conforme eles tinham comido e bebido, ele levava cada um para dormir. Na manhã seguinte veio o homenzinho cinzento para o mais velho, acenou e o guiou a uma mesa de pedra sobre a qual haviam três missões por escrito, através das quais o feitiço sobre o castelo poderia ser quebrado. A primeira era: na floresta, sob o musgo, estão jogadas as pérolas da filha do rei, que são mil em número, que devem ser recolhidas, e se quando o sol tiver caído ainda faltar uma única, aquele que foi procurá-las se transformará em pedra. O mais velho partiu e ficou o dia inteiro procurando, mas o dia chegou ao fim e ele só tinha recolhido uma centena; então aconteceu que, assim como ele estava de pé diante da mesa, se transformou em pedra. No dia seguinte entregou a aventura ao segundo irmão, que não foi muito melhor que seu irmão mais velho e, tendo encontrado duzentas pérolas, foi transformado em pedra. Por fim, chegou a vez do Bobo; ele procurou no musgo, mas estava muito difícil encontrar as pérolas e estava muito devagar. Então ele se sentou sobre uma pedra e chorou. Veio então o rei das formigas, de quem ele tinha salvo a vida, com cinco mil formiguinhas, e não durou muito para que os bichinhos encontrassem as pérolas. A segunda missão era encontrar a chave para o quarto da filha do rei, que estava perdida no lago. Quando o Bobo foi para o lago os patos, que tinham sido resgatados por ele, se aproximaram nadando, mergulharam e trouxeram as chaves lá do fundo. Mas a terceira missão era a mais difícil: das três filhas do rei, que dormiam, ele deveria apontar qual era a mais nova e mais amável. Elas eram perfeitamente parecidas e não se distinguiam em nada, a não ser pelo fato de que, antes de terem ido dormir, elas tinham comido doces diferentes; a mais velha, um pedaço de açúcar, a segunda, um pouquinho de xarope, e a mais nova, uma colher de mel. Veio, então, a rainha das abelhas, que o Bobo tinha protegido do fogo, lambe a boquinha de cada uma das três; no fim se senta sobre a boca daquela que tinha comido mel, de modo que o filho do rei pudesse saber quem era a certa. O feitiço foi quebrado, todos os que dormiam foram acordados, os que tinham se tornado pedras voltaram a suas formas humanas. E o Bobo se casou com a mais nova e mais amável e se tornou o rei depois da morte do pai dela; mas seus dois irmãos receberam as outras duas irmãs. (Tradução nossa da versão de Knaur, 2012)

Sem racionalismo, sem as inférteis análises do "sistema" simbólico, sem desejar explicar este maravilhoso conto e esvaziar, assim, seu significado, limitemo-nos a debater um pouco sobre o que ele nos diz e o que dele podemos apreender. Uma criança certamente perceberá coisas que um adulto pode muito bem passar por alto e não notar; mas há tanto a se absorver deste conto que pessoas diferentes vão provavelmente observar detalhes diferentes, não se contradizendo, mas se complementando em suas observações.

Podemos notar, por exemplo, que dos três irmãos, o único que foi capaz de levar a cabo as missões recebidas, embora tenha sido muito inexperiente na vida, foi o mais novo, chamado de "Bobo" pelos demais. Eis aqui um tema que nos lembra Dom Quixote, o mais tolo dos cavaleiros, mas também o mais valente e o mais sutil dos homens. A fim de suprir desejos superficiais, os irmãos mais velhos se ocupam da técnica e da brutalidade para derrubar os obstáculos à sua frente; o mais novo os impediu de tamanho pecado, o qual eles ouviram e respeitaram, e o qual terão motivos para agradecê-lo mais tarde por isso. Notemos aqui que é a inocência (a "tolice", aos olhos dos utilitários) quem foi capaz de cavar mais fundo nas leis da natureza, não com pá, mas com o coração. O conto nada nos diz sobre as percepções subjetivas de cada um (desnecessárias), trata-se de um conto antigo e de caráter objetivo, mas podemos imaginar que o mais novo teve seus motivos ocultos para salvar os bichos da malícia humana; sabemos o que ele sentiu porque também agimos assim quando amamos algo ou alguém, e também agimos como os outros quando somos estúpidos e, de tanto pensarmos em suprir desejos nossos, passamos por alto sem notar as sutilezas do mundo que não nos pertence enquanto mero objeto. A inocência, aqui, aparece em uma criança, não porque só a criança é inocente, mas porque a vida mecânica do mundo adulto nos ensina a corrupção do coração humano.

Não que não se deva matar; nós matamos para comer. Mas no caso deste conto (e é muitas vezes o nosso caso) não havia necessidade para tanto. Os irmãos queriam apenas fuçar e incomodar as formigas, não tinham necessidade de matar patos nem pôr fogo em uma colmeia; não estavam famintos, e o conto mostra ainda, depois, que foram todos levados a uma mesa farta. Aqui, os "obstáculos" a serem derrubados a fim de obter os objetos do desejo demonstram serem contornáveis, trazendo à luz a lei profunda da natureza, que a tudo contorne e supera sem destruir. Tivessem os dois mais velhos desrespeitado o menor e atacado os bichos, não teriam chegado ao castelo e às farturas. Essa ideia de recompensa é reforçada, no final, quando os irmãos recebem as outras filhas do rei; eles não eram tão sutis quanto o menor, mas foram sutis o bastante para perceber a malícia dos seus desejos e abortar as ideias toda vez que o mais novo aconselhava. A natureza oferece farturas a quem souber respeitá-la, mesmo que não saiba amá-la, como é o caso dos dois irmãos. E a quem souber amá-la terá para si o amável também: a mais amável filha do rei é uma oferenda sagrada que a natureza oferece às almas de ouro, que no amor se fundem com ela, a mãe-terra, como em uma mesma essência. Não há, notamos, subjetividade no mais novo, nem sua contraparte objetividade (há nos mais velhos: o uso da técnica para atacar os bichos concebe um sujeito, o agente, e o objeto, o mundo, de quem deve ser retirado um bem para suprir unicamente os primeiros), há um modo de vida imparcial e, nas nossas palavras modernas, místico, de unidade com a natureza, portanto familiaridade, proximidade, piedade e, por fim, o amor silencioso e profundo. O mais novo via na natureza um "pedaço" de si mesmo, era a ordem do todo que lhe importava, e o todo inclui em um mesmo o mundo e ele próprio, o Bobo.

Só o amor místico, a inocência quixotesca, é capaz de eliminar o feitiço que recaiu sobre o mundo e transformou os homens em pedras. Ainda dizemos quando alguém é demasiadamente frio: "ele é uma pedra", ou "tem um coração de pedra". Sabemos bem o que isso quer dizer, embora o termo atualmente seja usado para muitas situações diferentes, e nem sempre é referido a homens impiedosos. No caso do conto, aqueles que não se uniram à fluidez natural do mundo foram transformados em pedras, jogados para dentro de sua subjetividade, abandonados, expulsos da vida orgânica. O nosso mundo moderno, aqui, é representado pelos dois irmãos, com a exceção de que o mundo moderno, sejam os conselhos que recebe, jamais poupa a natureza, a vida e a inocência -- com a presença do moderno, não teria havido, no conto, o respeito à autoridade do irmão "tolo", os bichos teriam sido maltratados e o feitiço jamais teria sido quebrado. É o que acontece nesse nosso mundo há vários milênios. Em se tratando de "tolice" redentora, citamos mais um mito de Percival, um dos cavaleiros da Távola Redonda, narrado por Eliade:

Lembramos a misteriosa doença que paralisou o velho Rei, detentor do segredo do Graal. Aliás, ele não era o único que sofria; tudo em torno de si desabava, desmoronava: o palácio, as torres, os jardins; os animais não mais se reproduziam, as árvores não davam frutos, as fontes secavam. Inúmeros médicos tinham tentado tratar o Rei Pescador -- sem o menor resultado. Dia e noite chegavam os cavaleiros, e todos começavam por perguntar as novidades sobre a saúde do Rei. Um único cavaleiro -- pobre e desconhecido, até um pouco ridículo -- permitiu-se ignorar o cerimonial e a cortesia. Seu nome era Percival. Sem levar em conta o cerimonial da corte, ele se dirige diretamente ao Rei e, aproximando-se dele, sem nenhum preâmbulo, pergunta-lhe: "onde está o Graal?". No mesmo momento, tudo se transforma: o Rei levanta-se do seu leito de sofrimento, os rios e as fontes começam a jorrar, a vegetação renasce, o castelo se restaura milagrosamente. As poucas palavras de Percival tinham sido suficientes para regenerar toda a Natureza. Mas essas poucas palavras constituíam a questão central, o único problema que podia interessar não só ao Rei Pescador mas também ao Cosmos inteiro: onde se achava o real por excelência, o sagrado, o Centro da vida e a fonte da imortalidade? Onde se encontrava o Santo Graal? Ninguém havia pensado, antes de Percival, em formular esta pergunta central -- e o mundo morria por causa dessa indiferença metafísica e religiosa, por causa dessa falta de imaginação e ausência de desejo do real. (Imagens e Símbolos, Martins Fontes, julho de 2012, pp. 51-2)

Neste relato de Percival vemos elementos e dramas muito parecidos com os do conto que abriu este nosso texto: uma figura simples, "pobre", que não conheceu os caprichos da corte, repleto de virtude e fé na experiência e no mistério da vida, quebra o feitiço, ou melhor, cura a doença incurável do Rei, que é a mesma que se abate sobre a natureza. O misticismo neste mito está implícito na fé de Percival, uma fé primitiva e cheia de um frescor valente, jovem, luminoso. Neste aqui Percival não se torna um Rei, mas traz um Rei de volta, o que se equivale, visto que o Rei não é uma pessoa, mas um elemento místico que pertence à Natureza.

No caso do conto de fadas narrado aqui, o Bobo herda o trono, a coroa, se torna o rei. Quer dizer que o reinado, que pertence à natureza, é uma função da própria natureza, e só aquele que reiná-la, ao invés de corrompê-la, portanto guiá-la e protegê-la, deve se tornar, realmente, um rei, um protetor, um pai. A natureza oferece a cada um o que é devido, e aqui podemos lembrar a doutrina aristotélica dos lugares naturais, em que cada ser tem seu lugar natural; Aristóteles certamente absorveu em sua doutrina uma sabedoria antiga, mas a corrompeu, a racionalizou, e o "lugar" se tornou meramente um "espaço", um ponto em um mapa cartográfico. Voltando ao conto, o lugar devido de uma alma que protege é o reinado -- há atividade por parte da alma que voluntariamente protege a natureza, e passividade, mas também um movimento complementar que retribui imediatamente, não moralisticamente, mas eroticamente (a proteção é por amor, e amor é proximidade e união, portanto diálogo profundo), por parte da natureza. A mesma passividade encontrada na natureza está implícita na mulher, no caso das filhas do rei, que por ser identificada à natureza e oferecida ao Bobo como que algo de si mesma, a natureza lhe oferece um pedaço de si, um cristal da sua essência. E a mulher é um cristal, um mineral do cosmos, um tesouro. O cristal mais puro dos três que o rei tinha alcançou sua contraparte devida.

No mundo moderno estas leis naturais não funcionam, pois estão rompidas em sua continuidade por irmãos maus que corrompem a natureza. Os três irmãos só alcançaram o castelo e o feitiço só foi quebrado porque o mal não chegou a ser lançado; nós modernos, pelo contrário, não temos a chance de pôr a prova a natureza, de esperar dela o que nos é devido, porque ininterruptamente tentamos arrancar dela o que queremos. Antes mesmo de sairmos à floresta já estamos transformados em pedras brutas destruidoras, em velhos doentes. Na modernidade, a autoridade só é respeitada, seja boa ou ruim, ao ser tomada pela força e pela brutalidade, e só a força tem autoridade, o caráter já não conta mais, a sutileza, a profundidade, a sabedoria, nada disso é reconhecido, nem mesmo respeitado. E aqui o conto nos ensina algo mais, nos dando previsões dos tempos, de que só há a possibilidade de reconciliação com a natureza, e da obtenção do nosso lugar no mundo, caso nos atentemos aos princípios metafísicos disponíveis de imediato no mundo e na experiência humana, que nos apresentam os deuses e nos iluminam nosso união originária com a natureza; o desenvolvimento do caráter não é algo que acontece na abstração, no simples "dever" normativo e imposto, mas está intimamente ligado à ordem existencial do mundo apresentada nas relações naturais: na contemplação da beleza e harmonia do mundo, na hierarquia do kósmos, que também são a beleza e harmonia do homem e das relações humanas, a hierarquia que distingue o lugar de cada um na sociedade -- é na natureza que observamos a eterna e contínua colaboração e participação das partes complementares em um todo, um mesmo único, para todos. O mundo moderno só voltará a reconhecer a ordem humana quando se voltar para as sutilezas da natureza, pois nela estão as chaves para quebrar o feitiço, e só será possível encontrar estas chaves quando mudarmos nossa maneira de tratá-la, pararmos um pouco a fim de observá-la e descobrir nela os mistérios e as respostas pelas quais ansiamos no íntimo. É a própria natureza quem nos trará as chaves ao sentir que podemos recebê-las, porque já estamos de ouvidos abertos e podemos ouvi-la cantar -- e é sutil, miúdo, muito frágil o canto dela.

Como podemos perceber, um conto de fadas tem muito a nos ensinar, tanto sobre moralidade, sobre relações humanas básicas, sobre as emoções humanas, quanto sobre metafísica e ciências mais avançadas. Mesmo assim, estamos certos de não ter esgotado este conto, há muito mais a se falar e pensar sobre ele; mas mesmo que investíssemos em discursar a fim de esgotá-lo, não teríamos sucesso; o conto não apresenta uma divisão simbólica artificial, ele não é construído arbitrariamente com partes individuais, avulsas, passíveis de serem distinguidas. Pelo contrário, cada "parte" dele está a serviço do todo, da ideia do todo, e somos nós que fazemos o esforço de recortá-lo a fim de salientar certos valores que nos são transmitidos inseparavelmente com todos os outros por inteiro, intuitivamente. O conto fala uma linguagem intuitiva, de apreensão natural por parte do Geist -- os valores são introduzidos no conto pela sutileza e pelo Geist do povo no seio do qual o conto foi formado tradicionalmente; e é o mesmo indivíduo pertencente ao povo, em cujo seio também queima o Geist popular, capaz de apreender o conteúdo implícito na linguagem discursiva, mas claro, luminoso, quando atinge a imaginação humana. A imaginação trata de interpretar intuitivamente aquilo que está por trás das meras palavras e é engastado pelo Geist do qual ela mesma é feita. Só ela, no homem, tem as chaves necessárias para a compreensão da natureza e da realidade como um todo. Não são as barafundas dos cientistas, mas a imaginação e o Geist que carregam as chaves do conhecimento e dos mistérios da vida.

O conto é um fenômeno vivo e fala por si, por isso dispensa explicações. Se a arte moderna se obrigou a explicar suas "obras" é porque não é mais arte, mas pura técnica -- ela perdeu a linguagem do Geist, que, não obstante, permanece viva nos contos de fadas (não aqueles corrompidos pela Disney, que transformou as histórias, imprimindo novos e decadentes significados em questão de minutos e caneteadas arbitrárias em laboratórios, mas os antigos e originais formados durante milênios de experiência e observação humanas, que falam a linguagem do ser e transmitem o logos). E, por falar a linguagem do Geist, não há contra-indicações, e tanto as crianças quando os adultos, tanto o filósofo quanto o agricultor, são capazes de compreender. Aqui notamos uma citação de Hayao Miyazaki, diretor de animes muito interessado em contos japoneses e até ocidentais, que reproduz um pouco o que estamos a dizer: "uma vez uma mulher que trabalha na produção [dos animes] me contou que as crianças devem assistir coisas que elas não compreendem no momento, mas compreenderão mais tarde -- ora, eu nunca concordei com isto". Miyazaki também pensa que o que se pode saber da vida se pode saber a qualquer momento, independentemente da educação recebida, porque não é a mente racional que conhece, mas o coração humano ou a alma humana, que falam outra língua e compreendem outra língua, uma língua silenciosa e que nos atinge imediatamente na alma. Por isso, seus animes silenciam quando os modernos imprimiriam diálogos insossos, e falam através do exemplo, através da demonstração das sutilezas, sem se limitar a imprimir significações precisas e já orientadas por uma interpretação particular. Ao invés de ordenar a contemplação, mostra o que há para contemplar, e deixa nossa alma contemplar por si, ativamente, participando de sua obra. É como presenciar um ritual dionisíaco e místico, onde enxergamos os deuses e os ouvimos falar diretamente à nossa alma, não como telespectadores, mas como participantes do kósmos no qual eles habitam.

Para terminar, deixamos mais uma citação, desta vez diretamente dos "mistérios", do Corpus Hermeticum, que arrematará muito do que dissemos neste texto:

Se você não se fizer igual a Deus, não poderá apreender Deus, porque o semelhante é apreendido pelo semelhante. Ultrapasse todo corpo e se expanda para a grandeza imensurável; supere todo tempo e se torne eternidade: assim você deve apreender Deus... abrace em ti todas as sensações de todas as coisas criadas, do fogo e da água, do seco e do molhado; esteja simultaneamente em todos os lugares, no mar, na terra e no céu; seja de uma só vez um nascido e esteja ainda no útero, seja jovem e velho, esteja morto e além da morte; e se você conseguir segurar todas essas coisas juntas, os tempos e lugares e substâncias, qualidades e quantidades, então você pode apreender Deus. Mas se você subestimar sua alma e fechá-la no seu corpo, se disser "eu não sei nada, eu não consigo nada, eu tenho medo do mar, eu não consigo escalar o céu; eu não sei o que fui nem o que devo ser", nesse caso o que você tem que ver com Deus? (XI, 20, retirado de Dodds, Pagan and christian in an age of anxiety, p. 82).

[1] http://portal-legionario.blogspot.com.br/2016/07/contos-de-fadas-sao-mais-antigos-que.html
[10/02/2017]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A Experiência como Instinto, e o Instinto como Religião

Andrew Wyeth


Leiamos a seguinte frase: nas sociedades de insetos, vemos o instinto provocar mecanicamente uma conduta comparável, pela sua utilidade, à que sugerem ao homem, inteligente e livre, imagens quase alucinatórias (Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião, p. 114).

Em continuidade às últimas publicações sobre linguagem e beleza[1], voltemo-nos agora a falar sobre o instinto e a inteligência, que revelam outros aspectos da mesma discussão corrente, cujo fundamento é a experiência e o seu distanciamento, obscurecimento ou, em termos heideggerianos, esquecimento.

Bergson, no livro cuja frase citamos, lança atenção a um fato deveras significativo: o homem é capaz de viver sem ciência, sem romances, sem especulações intelectuais e teológicas, sem sistemas sociais e filosóficos, mas nunca sem religião. A história, por sua vez, confirma este fato; na mesma base de Bergson, Eliade se ocupou de mostrar como a civilização moderna, auto-intitulada secular, científica e agnóstica, está carregada de pressupostos religiosos e resquícios simbólicos que fundamentam sua visão-de-mundo. Jung terá preocupações muito semelhantes, e se esforçará por revelar, ou resgatar, o instinto dos escombros do racionalismo moderno, em combate aberto contra a sistematização arbitrária da experiência que acontecia em Freud.

Mas o que é, então, essa religião? É preciso ao menos tentar responder esta questão, porque o próprio sentido, o significado do termo, parece completamente perdido e confuso. A não compreensão do seu significado profundo obriga o leitor ao erro, que em geral pressupõe, ao ler este termo, o sentido dado no interior dessa mesma visão-de-mundo secular, agnóstica e moderna. Religião certamente não é o puritanismo, não é seguir regras teológicas, hábitos objetivos recomendados pela seita; não é apenas repetir atos em momentos determinados pelo calendário religioso e meramente pertencer a uma comunidade religiosa determinada. Pois isso tudo, se fosse religião em si, tornaria qualquer sociedade contratual, qualquer empresa privada, que possui regras determinadas, uma religião particular. Este erro, aliás, é muito comum entre os jovens atuais que "redescobrem" o "valor" do cristianismo e passam a seguir os hábitos "religiosos" ao pé da letra, como peças em uma grande máquina social, sem compreender o sentido dos conceitos e dos rituais que usufruem; em suma, adotam não uma religião, mas uma nova roupagem para o mesmo secularismo universal que reina no mundo como um todo, nas empresas, no cenário político, nas ruas e, sobretudo, na ideologia dos direitos humanos, que está por trás de todo este sistema (visão-de-mundo) e que é ela, em si, a "verdadeira religião" desses jovens. A Igreja se tornou uma ferramenta social, serve como veículo para caridades e para tirar os jovens das drogas -- em suma, deixou de ser religiosa, se tornou apenas mais um "departamento cívico" a impor normas e controlas as massas. Não é por nada que esses jovens "religiosos" dos nossos tempos preferem formas cada vez mais cômodas de "religião", e no imenso cardápio atual escolhem coisas como as seitas evangélicas, protestantes, ou então compõem as alas mais modernas e "reformistas" do catolicismo decadente; há também grupos que rumam para a Ortodoxia porque pensam que lá encontrarão, quem sabe, um elefante colorido que voa, dança e faz cambotas.

Tudo hoje é obrigação (a objetividade do puritanismo) e liberdade (subjetiva: a extrema objetividade dos rituais obrigatórios isola o sujeito, deixando-o livre para interpretar como quiser e o que quiser), um dualismo que marca a modernidade e que é, por isso mesmo, secular e anti-religiosa. Mas como se deu esta cisão entre o sujeito e o objeto, ou entre o homem e o mundo, impedindo, assim, que a experiência, a Ereignis, aconteça? Historicamente falando, é um longo processo; a modernidade é fruto necessário do racionalismo medieval e antigo. Metafisicamente falando, podemos observar e usar a imaginação para compreender o sucedido, para compreender como o homem acontece de romper a sua pertença com a natureza, que é originariamente a sua morada, Heimat. Acreditamos que a linguagem tenha tido um papel fundamental neste tropeço, porque ela, como concebe Heidegger, pertence ao homem metafisicamente e não apenas enquanto ferramenta. Vamos ainda além: assim como Eva, para Adão, é ao mesmo tempo "o outro" e ao mesmo tempo o si mesmo, capaz de, ao romper com ela, romper consigo mesmo, também podemos pensar na relação entre homem e linguagem nos mesmos termos.

A linguagem, originariamente, é a manifestação natural do homem, tal como uma flor que desabrocha e manifesta a natureza bela e oculta da planta como um todo. A linguagem conecta, por um aceno, homem e mundo, e sua essência é o símbolo, aquilo que aponta nas duas direções e conecta Céu e Terra, Zeus e homem, homem e natureza, Adão e Eva, como bem expressa a runa Hagal entre os povos germânicos e a cruz, ou o coração, entre os cristãos. Seu caráter une e orienta perspectivas distintas para um mesmo centro, oculto, mas eternamente presente, e tem o tom de uma profecia, uma teurgia; sua mão oculta move montanhas, causa revoluções e guia o mundo todo para uma direção certeira; exércitos marcham bem organizados sob sua luz, sem que explicação ou anexo algum seja necessário expor; homem e mulher se unem no escuro no êxtase de uma palavra mágica depois da qual se segue o silêncio e o puro instinto profundo, através do qual ambos sabem bem o que fazer, como agir, iluminados por Dioniso. Se a linguagem, por natureza, conecta dois extremos, é porque estes extremos não são coisas separadas que se unem a posteriori; pelo contrário, são um mesmo a priori que, por algum esquecimento, tornaram-se dois. Céu e Terra se dividem violentamente, assim como Adão e Eva e o homem e a natureza.

Sendo originariamente um símbolo, a linguagem passa a ser uma ferramenta analítica que descreve um mundo "objetivo", externo ao "sujeito". E aqui surge um paradigma milenar cuja expressão e cujo centro é atualmente a ciência, que se preocupa com verdades objetivas. Surgem então paradoxos: o universalismo passa a andar lado a lado com o relativismo, sem que se resolva este paradoxo no interior da visão-de-mundo analítica. Estes absurdos aparecem com mais nitidez, talvez, na imensa e interminável discussão sobre os direitos humanos, que são para este paradigma a cereja do bolo ocidental (recomendamos a leitura do livro Para Além dos Direitos Humanos, de Alain de Benoist). A linguagem, então, que antes mantinha a união indissolúvel e indivisível do homem com o mundo agora se apresenta como um obstáculo à experiência originária, imediata. Ao invés de observar a flor, falamos sobre suas características objetivas: sua cor, sua textura, seu tamanho, seu formato, expressões que, ao invés de tornar a flor mais viva e mais próxima de nós, esvaziam-na e por isso distanciam-na de nós, mantendo-a no caráter de um objeto, algo externo a nossa inteligência.

Aqui se rompe a experiência imediata, mas não a destrói. A experiência é o que mantém Céu e Terra um para o outro, por mais que um esqueça do outro -- ambos são um. É como se uma pessoa esquecesse do seu braço e vivesse como se não o tivesse; mas ela o tem; existem, aliás, desordens psicológicas bem conhecidas, que consistem em duplas personalidades, na crença de ser outra pessoa (o transsexualismo, e agora a crença de ter outra idade, ou de ser, por exemplo, o presidente da Rússia ou quem sabe do reino de Gondor, são desordens muito comuns nos nossos dias), que são prolongamentos de um esquecimento primordial que se arrasta através da história. Os direitos humanos, aliás, tendem a não apenas descriminalizar, mas até a legitimar; e não só isso, usam estas desordens como padrões de saúde humana, uma vez que se baseiam nos mesmos princípios metafísicos e consistem eles em uma própria desordem, uma cisão do indivisível.

Compreendemos, então, que a transformação do sentido de linguagem é a responsável pela obstrução. A experiência, assim, na verdade não foi rompida, mas aquilo que a mantinha mudou de natureza, passou da physis para a tekhnê, da natureza para a técnica, como se a água de um rio, em alguma parte, conseguisse, dividindo aquele rio em duas partes que passam, anormalmente, a se desenvolver diferentemente, como se nunca fossem uma coisa só. Em A Princesa Mononoke ocorre o mesmo com o espírito que, sem a cabeça, transborda por todas as direções como se fosse um demônio destruidor e não, como de fato era, a vida de todas as coisas. Bastou que sua cabeça fosse recolocada no seu lugar natural para que tudo retornasse à sua ordem natural, primordial. A cisão é, assim, um artificialismo, que se opõe ao ser e à saúde; é, portanto, doença.

Voltamos então à religião e constatamos que, seja isto uma etimologia "real" ou "falsa" (segundo a ciência, medíocre), expressa o que aqui desejamos: re-ligare; a religião é o que religa, reconecta. A palavra "ligar" se relaciona com inteligere, inteligência, intelecto; quando Plotino, ou Leibniz, concebem intelecto como um deus, não necessariamente estão concebendo uma "mente" no sentido moderno. A palavra noûs, do grego, pode, aliás, ter tido origens bem menos "modernas" do que se imagina, a qual é traduzida para as línguas latinas como "intelecto". Por mais que o mundo moderno tenha objetivamente rejeitado a religião, para que ele exista precisa se ater a certos pressupostos, não apenas doutrinários, teológicos em um sentido "científico" ou "sociológico", mas em termos de visão-de-mundo, a weltanschauung. Para tomar um exemplo muito banal, o homem de negócios moderno, pela manhã, abre a porta de casa e, sem verificar se o chão não desapareceu à sua frente, ou se a realidade externa não é falsa e não é como miragem sobre o abismo, sai porta a fora com plena convicção de que tudo é como ele crê de fato ser, ou seja, substancial, concreto, que oferece resistência ao toque e assim por diante. Ora, ele nem sequer imagina todos esses pressupostos, são todos inconscientes; mas acontece que exigem, para uma tal crença, um "sistema" complexo, metafísico, que é bem exprimível pela palavra visão-de-mundo. Esta visão, aqui, é profundamente religiosa, determina a experiência que o homem terá com o mundo; uma experiência que, no mundo moderno, se recolheu para o inconsciente, esquecida.

Tendo esquecido esta experiência, ele buscará na "religião" não a religião, mas um passatempo, ou uma ferramenta social, algo do tipo. Ele irá para a igreja reclamar um contato com anjos no Céu sem sequer notar que eles estão por todos os lados aqui na Terra, dentro e fora da igreja. A "religião", no mundo moderno, não passa de entretenimento; ela carece da essência, que é o misticismo, ou seja, a fusão entre sujeito e objeto, ou então a sympatheia, a união por admiração e "sintonia" (outra palavra, outro aspecto para o mesmo fenômeno).

Dizemos que a linguagem une o mesmo; isto quer dizer que a religião não é como os abraâmicos pensam que é: uma sociedade instaurada por uma personalidade histórica, portanto artificial, para os pagãos ignorantes. A religião é a própria experiência imediata, não obstruída pela decadência da linguagem, portanto natural, não artificial. Mais próximos estavam de deus os pagãos no campo do que os judeus nas cidades ou em seus guetos, plenamente urbanos. Religião é instinto, é a iluminação e o afloramento da ordem esquecida no inconsciente -- eis o estado de inocência, muito invejado e amado pelos abraâmicos, que demonstram explicitamente tê-lo esquecido, através do pecado original, com sua doutrina e seu dogma, fundamentados na noção de queda e de culpa, de cisão com a divindade.

Para Freud, contudo, o inconsciente é o reino da desordem, da malícia, do egoísmo, do mal, tal como a natureza é para os judeus (e Freud era judeu). A consciência freudiana é o mesmo que o judeu convertido pelo Talmud ou que o homem moderno "educado", amestrado, pelas normas sociais. O judeu (e por conseguinte o cristão e o muçulmano) teme a natureza e busca dela se proteger; acontece que ela jamais é aniquilada, é apenas afundada mais e mais para o inconsciente, em um interminável processo de esquecimento do ser. E lá do inconsciente ela faz irromper na superfície formas violentas que continuamente atentam contra a lógica, contra o "social", e fazem tremer a Torre de Babel urbana e racionalista. Por isso o judeu se obriga a permanecer sempre em vigília contra os "tiranos", contra os "bandidos", contra as desordens sociais, e usa sua vida inteira para reformar e erigir sua Torre de Babel por cima de todas as coisas -- que na verdade não passa de um castelo de cartas. Queremos deixar claro, todavia, que não estamos expressando aqui qualquer pensamento antissemita -- até onde sabemos, o próprio Bergson, cujas ideias inspiraram nosso texto, tem origens judaicas.

O instinto, assim, é aqui que somos, é o verdadeiro "eu" buscado pela psicologia, sobretudo jungiana, um eu que, no entanto, não é de posse de cada um, mas que pertence à natureza como um todo. O "eu" de cada um de nós não nos pertence. O erro do homem está em conceber sujeitos onde não há; e, ao conceber assim, o toma para si, tomando para si aquilo que não lhe pertence; e, ao fazer isto, se sente abandonado, como a criança birrenta a quem renunciamos um objeto reclamado e abandonamos para que brinque sozinha. Ela se ofenderá e tomará para si a missão de subjugar a todos, normatizando arbitrariamente as relações que uns têm com os outros.

Como se alcança este "eu"? Seria na introspecção, na meditação subjetiva? Pelo contrário, no abandono de si mesmo para o mundo; o misticismo, a sympatheia, a admiração spengleriana, a teurgia, a profecia são formas deste abandono que encontra a si mesmo; a vontade de potência nietzscheana, a fé na unidade racial são, por sua vez, prolongamentos dos primeiros, e são formas encontradas até (ou sobretudo) entre judeus, mas já bastante deformadas e travestidas de valores invertidos, subjetivos. Os rituais dionisíacos e o xamanismo, por sua vez, são talvez as formas mais puras das que temos registro dessa experiência primordial, inocente, e são típicas de civilizações como a dos índios norte-americanos, dos africanos, de alguns povos do interior da Ásia e, mais próximos de nós, e talvez com traços ainda mais preservados, dos povos do norte, tanto os pagãos germânicos quanto os sami e ainus em geral. Já a civilização hindu conseguiu, como nenhuma outra, não exatamente se preservar, mas ao menos se perpetuar através das doutrinas escritas, dos templos, dados arqueológicos e resquícios culturais que ainda hoje são nítidos a todos os estudiosos.

O abandono do eu está na livre experiência da vida que não calcula, não estipula, não sopesa nem mede, apenas se entrega "fanaticamente" à sua existência. O caçador na floresta, por exemplo, apenas segue sua natureza "em meio a si mesmo", e suas necessidades se identificam com sua "experiência-limite", a caça é um ritual religioso -- e a vida é uma grande caçada. A floresta é um grande templo, e não existe nada que esteja "fora da floresta". Os espartanos, por exemplo, enviavam seus jovens para a floresta: um homem só se tornava rei em Esparta se tivesse reinado na floresta; hoje, a maçonaria, que não passa de uma "religião-soft" como todas as outras modernas, preserva contudo, ao menos artificialmente, este ritual antigo: antes de se tornarem maçons, muitas crianças são primeiro educadas nas expedições dos escoteiros.[2]

O agricultor convicto, qual um velho crente, é um remanescente muito mais real dessa experiência primordial; as comunidades dos velhos crentes, aliás, só são fechadas para que não se corrompam com o mundo externo, moderno, tal como a arca de Noé, que preservou a natureza dentro de si, uma vez que do lado de fora só restava artificialismo, corrupção, queda. A Coreia do Norte, que se fecha ao Ocidente progressista, é outro exemplo da tentativa de "fechar a Arca" em meio à tempestade da geopolítica decadente. O último filme Noah, de 2014, expressa maravilhosamente bem isso tudo (recomendamos aqui a leitura de artigos escritos por André Luiz dos Reis, em seu blog Consciência do Eu [3], onde ele se demora sobre o assunto). Assim, não há qualquer subjetivismo em "fechar a Arca"; pelo contrário: trata-se de uma negação e uma oposição real contra um subjetivismo que tomou o mundo inteiro de assalto, submergindo todos os povos nas águas profundas do pecado original.

Bergson, que nos colocou a questão do instinto e da inteligência que inspirou nossa reflexão, salienta: o homem é o único animal com inteligência (até onde sabemos), mas também é o único animal supersticioso. Opondo-se a uma psicologia que recorta a psique humana irresponsavelmente, como tem feito Freud, ele nos chama a atenção para um questionamento: se a inteligência, a imaginação e a superstição existem e, além de tudo, estão relacionados, é porque deve haver um motivo biológico, no sentido mais profundo de bios, vida, para a existência desta esferas que, contudo, podem ser uma só, e que a psicologia ao lidar com elas pode ter feito um recorte equivocado; a certeza maior de que a psicologia faz o recorte errado vem da observação de que, do jeito que ela compreende a imaginação e a superstição, não encontra para elas motivos que não sejam, de certa forma, "entretenimento".

Bergson parece acreditar, por sua vez, que a superstição, pelo contrário, tem um papel fundamental na existência humana, e que pode não se distinguir substancialmente da inteligência nem do instinto humanos. É o que ele diz com a frase que abre este artigo: a alucinação e, por conseguinte, a superstição, a profecia religiosa, a invocação de espíritos através de palavras, com o uso da imaginação, que parece ser a essência da inteligência em despeito da lógica, deveras superficial, como vínhamos dizendo, a alucinação é o equivalente instintivo no homem dos impulsos meramente mecânicos da formiga. A experiência e, por conseguinte, a linguagem humana mais imediata, aquela que dá ao homem o seu lugar no mundo, é a imaginação; o que equivale a dizer que o corpo físico, empírico, por um lado, e os sistemas abstratos por outro, não têm a essencialidade que tem a imaginação. Longe de ser um subjetivista, Bergson também parece compartilhar do existencialismo e do vitalismo nietzscheanos, que carregam reminiscências de um xamanismo primitivo e, por isso mesmo, mais originário, metafisicamente falando.

Heidegger, também muito longe de ser um subjetivista, parece compartilhar dessa visão-de-mundo. Sua busca por uma ontologia originária e a migração da metafísica abstrata para as artes e para a poesia o comprovam. E para deixar explícito: não compreendemos a religião como "algo da cabeça humana", assim como não enxergamos na psicologia um "conhecimento sobre o que está na cabeça humana", pelo simples fato de não concebermos uma mente humana isolada, fechada em si; acreditamos que a experiência de fato é a essência existencial do "homem". Não há, portanto, um homem que tem uma experiência com o mundo; pelo contrário, é a experiência, a Ereignis talvez, que existe primariamente, e no seu interior subjazem homem e mundo. Essa experiência, por sua vez, é, ou deveria ser, o objeto real da psicologia, e é neste mesmo "lugar" onde moram os deuses; a alucinação, assim, não é algo que "está na cabeça humana", mas é o ato de apreensão dos deuses e, assim, da existência propriamente dita. Talvez um "recorte" nesse sentido corrija a ciência, a psicologia e a filosofia modernas. Para terminar, um trecho de Eliade:

A sabedoria popular muitas vezes exprimiu a importância da imaginação para a própria saúde do indivíduo, para o equilíbrio e riqueza da sua vida interior. Certas línguas modernas continuam a lamentar aquele a quem "falta imaginação", como um ser limitado, medíocre, triste, infeliz. Os psicólogos, em primeiro lugar C. G. Jung, mostraram até que ponto os dramas do mundo moderno derivam de um desequilíbrio profundo da psique, tanto individual como coletivo, provocado em grande parte pela esterilização crescente da imaginação. "Ter imaginação" é gozar de uma riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens. Porém, espontaneidade não quer dizer intenção arbitrária. Etimologicamente, "imaginação" está ligada a imago, "representação", "imitação", a imitor, "imitar, reproduzir". Excepcionalmente, a etimologia responde tanto às realidades psicológicas como à verdade espiritual. A imaginação imita modelos exemplares -- as Imagens --, reproduzindo-os, reatualizando-os, repetindo-os infinitamente. Ter imaginação é ver o mundo na sua totalidade; pois as Imagens têm o poder e a missão de mostrar tudo o que permanece refratário ao conceito. Isso explica a desgraça e a ruína do homem a quem "falta imaginação": ele é cortado da realidade profunda da vida e de sua própria alma. (Imagens e símbolos, Martins Fontes, julho de 2012, p. 16).

[1] Do Paradigma Moderno e do Tradicional, e da Linguagem:
http://alvarohauschild.blogspot.com.br/2016/11/do-paradigma-moderno-e-do-tradicional-e.html
[01/02/2017]

O Belo, a Experiência da Unicidade:
http://alvarohauschild.blogspot.com.br/2016/12/o-belo-experiencia-da-unicidade.html
[01/02/2017]

[2] Ler Eduardo Velasco, Pegadas do Chefe dos Caçadores:
http://legio-victrix.blogspot.com.br/2017/01/eduardo-velasco-pegadas-do-chefe-dos.html?spref=fb
[01/02/2017]

[3] Abril de 2014:
Parte I: http://andreluizvbtr.blogspot.com.br/2014/04/o-noe-de-aronofsky-entre-o-gnosticismo.html
[01/02/2017]

Parte II: http://andreluizvbtr.blogspot.com.br/2014/04/o-noe-de-aronofsky-entre-o-gnosticismo_26.html
[01/02/2017]