segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Dois Conceitos de Indivíduo

Tree of Life on Behance
Pintor desconhecido


Muitos homens, nos nossos tempos onde a confusão e a discórdia predominam em nível intelectual e político, encontram no neoliberalismo um meio (o único meio, em geral) para o desenvolvimento e a dignificação do “indivíduo”, e passam assim a explicar o neoliberalismo enquanto teoria política, na medida em que ele se oporia a todas as outras teorias, que, por sua vez, “aviltam” este mesmo indivíduo. Esses homens não sentem ser, então, muito imodesto opor em essência este “neoliberalismo” a uma espécie de “meta-comunismo” que estaria por trás de todas as demais doutrinas que supostamente sufocariam este indivíduo, seja em prol de um comunitarismo forçado seja em benefício de uma classe política dominante, “corrupta”.

O terrível dessa tragédia é que ela não apenas ocorre entre as classes populares, que estão distantes das pesquisas acadêmicas, mas que ela acontece sobretudo nas nossas classes intelectual e política, dentro e fora da universidade as duas classes de quem a mão facilmente alcançaria o conhecimento, bastando a reflexão e a busca desinteressada.

Devemos distinguir, assim, dois conceitos de indivíduo que estão inseridos nessa confusão, a fim de esclarecer melhor a distinção entre o neoliberalismo, de um lado, e as doutrinas de tonalidade espiritual de outro.

O conceito de um indivíduo que cria e transforma o mundo, que se desenvolve através de uma constante labuta sobre si mesmo, em uma guerra espiritual contra seus demônios internos, figura muito frequentemente em autores como Nietzsche, Oswald Spengler, Aleister Crowley e Georges Gurdjieff. Ela também é comum em autores cristãos, como Kierkegaard, Santo Agostinho, assim como aparece em geral em toda tradição neoplatônica desde Plotino e Porfírio.

O que estes autores pretendem com suas doutrinas é incitar o desenvolvimento de um homem que, em despeito de um mundo decadente e corruptor, deve voltar a si mesmo a fim de trabalhar sobre si, purificar-se a si mesmo das impurezas do mundo circundante. Ao se purificar em isolamento, ativando potências criativas profundas, ele também é capaz de se tornar deus de si mesmo; ele se torna um deus criador que plasma sobre o mundo uma realidade divina que ele mesmo havia alcançado por um esforço individual, uma luta interna.

Nestes casos, uma espécie de loucura e de permissividade para a loucura é muito comum. Uma loucura que, por sua vez, já encontramos em Platão, no Fedro, quando Sócrates afirma que a loucura (mania) traz algumas das maiores bênçãos ao homem, e distingue seus tipos; primeiramente, a loucura é definida como um certo destacamento do homem em relação à comunidade, depois que há dois tipos, um que surge da doença e outro que surge de uma libertação divina do homem em relação aos hábitos comuns. Esta loucura divina ainda é dividida em quatro categorias: a profecia, inspirada por Apolo, a loucura mística, por Dioniso, a poética, pelas Musas, e o amor, por Afrodite e Eros.

Nietzsche também foi um adepto dos discursos proféticos (Der Antichrist, por exemplo), do isolamento individual (So Sprach Zarathustra) e, sobretudo, de uma doutrina que ele chamou de vontade de poder (Wille zur Macht). Para Nietzsche, um certo niilismo é necessário, porém não enquanto fim, e sim enquanto meio para o homem se tornar criador do próprio mundo, tornando-se inatacável pelas chagas e pela dor. Um certo estoicismo se faz presente aqui, o uso da dor para a superação dela mesma, uma transformação interna, um trabalho espiritual que o homem faz consigo mesmo. Nietzsche também foi romântico, amante das belas artes, da inspiração de Wagner e da grandeza de Napoleão. As sutilezas do belo deveriam vir com a paixão interior e se unir aos acontecimentos do mundo, à vida em um transe. Este mundo o qual o Übermensch cria ele mesmo é um mundo de beleza e superioridade moral, a Kalokagatia dos gregos que unia o bem ao belo como o ideal da nobreza, sobre o qual Werner Jaeger discursa em Paideia.

Goethe também pode ser incluído entre estes que clamam por um certo isolamento. Leonardo da Vinci, os alquimistas e os renascentistas em geral, que buscavam encontrar o padrão matemático do mundo, o elixir da juventude ou a transformação do bronze em ouro também. Assim, seu isolamento de modo algum tendia a uma certa permissividade absoluta, a uma “liberdade individual” para a exploração coercitiva do mundo em benefício de prazeres desregrados. Muito pelo contrário, o objetivo desses homens sempre foi o afastamento do conforto e das facilidades da vida em comum, para que pudessem entrar nas cavernas do seu interior e confrontar seus próprios demônios, vencê-los; ou ainda, a fim de esculpir em si mesmo formas cada vez mais sutis, polidas, capazes de encontrar também na natureza níveis de padrões cada vez mais profundos e sutis, identificando-se a estes padrões, espelhando-se neles.

Isso leva a uma conexão intrínseca do homem com o mundo, a uma fusão espiritual que a vida em comunidade não é capaz de proporcionar (pelo menos entre seus contemporâneos decadentes, já que todos estes homens acreditavam em uma comunidade primordial e mística que foi perdida, como é o caso de Hiperbórea e de Atlântida).

Todos estes homens são adeptos daquilo que na Qabalah se chama de “caminho da mão esquerda”, isto é, do caminho que leva a um rompimento individual em relação ao comum, com o fim do aperfeiçoamento interno. Aqui também o homem se torna deus de si mesmo e se torna ele mesmo criador do mundo, em despeito daquilo que havia sido dado pelo mundo e que deve ser destruído, tornado cinzas de onde deve renascer a Fênix. É o caminho que nada contra a maré e investiga as leis profundas da realidade, vindo a conhecer o paraíso perdido, depois do que o mundo em si mesmo é levado a ele por um homem renascido mago, sábio, profeta. O mago visa a reconstrução da harmonia primordial, a ordem (kósmos), de modo que, na medida em que deve transformar a si mesmo, passa a transformar também o mundo; Giordano Bruno é um dos grandes exemplos que podemos conceber, a quem a ordem sócio-política e religiosa, cada vez mais prestes a uma catástrofe de reformas que aprofundariam a confusão europeia do momento, era uma preocupação de caráter e de cura metafísicos.

O mais novo mago, filho desta mesma tradição alquímica, hermética e qabalista da Renascença, é o professor Alexandr Dugin, para quem as teorias não são verdades abstratas, mas feitiços capazes de reorientar o homem a um estágio que imite a harmonia perdida. É por isso que a Quarta Teoria Política não encontra vias de ser compreendida pelas categorias dicotômicas das teorias modernas. A QTP não pode ser individualista, comunista, porque ela enxerga o indivíduo e a comunidade como dois aspectos complementares de uma mesma realidade indivisível[1]. Nas ciências, na Física por exemplo, aproxima-se de especulações semelhantes e fala-se do mundo como um holograma plasmado por um padrão externo.

Este Solve et Coagula, princípio que rege a alquimia e, podemos dizer, a “mão esquerda” na Qabalah, embora assuma um certo isolamento individual em relação ao comum, está longe de significar uma dissolução do comum ou uma certa auto-permissividade absoluta; o objetivo é a superação de si, o que leva a uma luta consigo mesmo, e não a escravidão do mundo aos desejos subjetivos. É uma certa iniciação ao mistério do mundo ele mesmo, semelhante às viagens órficas ao mundo inferior, o Hades, para salvar sua amada. Ele não exclui, portanto, o comum, muito pelo contrário: é com o intuito de reorientar este comum, que tem preeminência ao particular, que o isolamento acontece. A ordem é um todo ao qual as partes pertencem, mas cada parte tem seu lugar natural; o adepto da mão esquerda quer conhecer este “mapa” metafísico e, conhecendo-o, tratar de Solver o desigual e confuso e Coagular de novo os elementos de acordo com a ordem do todo, em suma, separar o que deus separou e reunir o que deus uniu.

Analisemos agora o que é o individualismo neoliberal, para vermos o quão distinto ele é deste conceito dignificante do indivíduo, que a imensa maioria dos liberais atuais julga encontrar na primeira teoria política, por falta de estudo (estudo não é só leitura, mas também permanente reflexão) e por excesso de prepotência.

O liberalismo é uma ideologia baseada em um sistema abstrato restrito à Inglaterra da época das revoluções industriais. O império marítimo de John Dee, de caráter espiritual, foi sufocado e substituído por uma máquina moderna, um Estado-nação cuja atividade máxima é a regulação das relações entre indivíduos. O indivíduo é a substância, enquanto o Estado é o acidente, o instrumento por meio do qual o indivíduo deve “se realizar”, isto é, realizar seus desejos. Com Thomas Hobbes, John Locke e Adam Smith o liberalismo ganha seus contornos fundamentais; a noção do contrato e da mão invisível do mercado determinam o significado da comunidade.

Isto favoreceu os primeiros industriários, burgueses que, transformando o cenário sócio-político, se tornaram os grandes magos-negros de um sistema corrosivo que tendia à derrubada dos reinados europeus e a substituição da nobreza por uma classe financista, cujo poder se baseava no dinheiro. A estrutura do Estado visava, assim, assegurar a propriedade destes “homens de negócio” através da polícia, protegendo, assim, o câncer de seus antídotos naturais. O surgimento do conceito de indivíduo moderno, embora tenha raízes profundas no medievo e na antiguidade, se cristalizou apenas com a chegada dos sistemas liberais e contratuais que visavam a proteção e a legitimação dos grandes capitalistas, banqueiros etc. O indivíduo surgiu como um elemento mecânico dentro de uma grande máquina artificial, portanto está longe de ter alguma conexão com a realidade ou de ter nela algum embasamento, até mesmo nas especulações quase-metafísicas dos filósofos ingleses, como é o caso de Locke, que usa a concessão divina a Adão de povoar a Terra como uma legitimação paradigmática da propriedade individual.

A propriedade individual dos liberais não quer dizer usufruto ou mera posse, ela quer dizer a liberdade de o dono exercer sobre ela total imposição de suas vontades em detrimento dos demais homens que pertencem ao mesmo Estado. O indivíduo passa a ser um átomo, e toda sistematização “filosófica” passa a servir apenas como sustentáculo de uma vontade de legitimação de um estado de coisas, como instrumento de homens de poder. Aqui, a metafísica passa a servir o homem, a Sofia adorada e buscada pelos platonistas passa a ser subjugada para os propósitos ônticos de um grupo seleto de homens; há uma completa inversão na via da “mão esquerda” qabalista, de modo que o liberalismo não seja uma via iniciática, mas contra-iniciática, pois ele não é meramente o aspecto terrível do divino, mas encarna o mal e nele pretende permanecer. O Solve liberal passa a dissolver o que deveria permanecer unido e Coagular o que deveria permanecer separado, e quem determina o quê e o como é meramente a vontade abstrata de alguns homens de obter prazer insaciável e uma onipotência que pertence metafisicamente apenas à Árvore da Vida.

O resultado é a transformação do mundo, não pela vontade de poder nietzschiana, que transforma a si mesmo a fim de vencer as intempéries da vida, mas pelo mero desejo subjetivo do indivíduo de fazer o mundo ter que se transformar para conviver com o indivíduo, que se tornou átomo e sujeito do mundo. Nesse sentido, o homem liberal é claramente um autista, um psicopata cuja psique não está adequadamente formada. O Estado-nação liberal, por sua vez, se torna o câncer do mundo, esmagando e corrompendo a natureza em todos seus âmbitos e níveis, trazendo nada mais nada menos do que sofrimento interminável e a eterna corrupção da Árvore da Vida.

Mais do que isso, o liberalismo se alimenta justamente da inversão deste Solve et Coagula, pois todo ocultista e neoplatônico sabe a que ponto a natureza sempre tende a buscar uma resolução para os seus problemas. Se há uma calçada, a planta contorna pelas frestas, até que, com o passar dos anos, o sol, a chuva, o vento, o caminhar dos insetos, dissolvem a calçada, fazendo com que o lugar volte a ser inteiramente harmonizado com os ciclos cósmicos. É a vontade da natureza eternamente dinâmica que visa a dissolução dos obstáculos e a harmonização do movimento cósmico como um todo; nesta harmonização há o êxtase divino, e nele o êxtase de todas as coisas em conjunto, em uma experiência erótica. O liberalismo, pois, se alimenta da criação de obstáculos a esta harmonia, pois a “cura” ele oferece em troca do poder aquisitivo (o dinheiro) daqueles que carecem da harmonia em si e entre si e o mundo: a indústria alimentícia lucra com a destruição dos nutrientes, uso de toxinas, transformação genética, ao passo que a indústria farmacêutica lucra com o resultado disso, oferecendo um remédio (nunca a cura, apenas o remédio!); a destruição da fauna e da flora, a transformação dos ciclos das estações, das abelhas e insetos em geral, torna o homem carente da sociedade para se alimentar; o homem nascido nas cidades, ignorante das leis da natureza, se torna dependente da sociedade para viver em todos os sentidos; aliado a isto, a propaganda, a televisão, as mídias em geral reforçam sua ignorância e dirigem sua atenção. Isto tudo escraviza o homem ao sistema, mas um sistema cujo único amálgama é a força policial, e não a natureza e as necessidades naturais.

Mais recentemente, o liberalismo tem focado, através da cultura, na dissolução das relações entre homem e mulher, entre pais e filhos. Isto alimentou a indústria pornográfica, a de relações por redes eletrônicas, subjugou as universidades aos interesses do mercado, além, claro, da indústria de cosméticos e a farmacêutica, que lucram com qualquer tipo de transtorno social, que sempre tem sua correspondência psicológica – pois o homem é, internamente, um espelho do universo.

O subjetivismo das teorias pós-estruturalistas está nesta esteira também. Embora haja no pós-estruturalismo a figura do dividuum, isto é, de um homem não mais homogêneo, e sim heterogêneo, ela não contrasta com a figura do indivíduo, mas é mais um aprofundamento da crise existencial em torno do conceito de indivíduo moderno. O indivíduo continua sendo ele mesmo, mas agora ele é dividido internamente: assim como anteriormente ele havia se divorciado do mundo e da sociedade, agora suas partes se divorciam entre si. A psicologia nunca foi tão necessária às massas insaciáveis quanto nos nossos tempos! As doenças psicológicas, a quantidade de psicopatia, psicose e neurose alcançaram níveis catastróficos e ameaçam a teia civilizacional. É a força da polícia e da esfera jurídica que mantém o corpo social unido, para o imenso gozo dos capitalistas, inatingíveis em suas torres de marfim. O conceito de indivíduo e a teoria liberal como um todo servem para dar sustentáculo intelectual a este sistema, fortalecendo ainda mais o poder coercitivo das autoridades e a sujeição cada vez mais massiva e cruel das massas.

Nisto não há nada de nietzschiano, como muitos costumam pensar. Não há nada de “mão esquerda”. E não há nada de natural. É abstrato e, mais do que isso, falso, hipócrita, pois a única pretensão da teoria é ser instrumento político – nada mais[2].

E desse modo desfazemos também a dicotomia liberalismo-comunismo e ampliamos o olhar sobre o debate político. Nem tudo o que se opõe ao conceito de indivíduo visa a uma dissolução dos homens enquanto elementos de uma totalidade; muito pelo contrário, é a abstração atomista e subjetivista do indivíduo que nivela o mundo, apagando diferenças e modelando os elementos de acordo com sua vontade. O liberal, obcecado, cego, autista, incapaz de observar a objetividade no mundo, encara todas as teorias segundo seu próprio paradigma, tornando-se cego às nuances e diferenças de sentido dos conceitos entre os sistemas. Nem mesmo o comunismo é, como pensa o liberal, uma nivelação brutal das diferenças, e bastaria que estudasse as teorias para que compreendesse melhor – pois sua ignorância o está levando a um nível de arrogância violenta que o fará cometer erros terríveis.

O liberalismo é o mal absoluto. Repetindo o que afirmou Dugin, é puro satanismo.

NOTAS

[1] É por isso que a Quarta Teoria Política prefere falar em pessoa como o aspecto que representa a particularidade, e não “indivíduo”. Este conceito de indivíduo, de fato, não é muito adequado para estudar a polaridade entre particular e universal. O significado etimológico de “indivíduo” é de algo que não se divide, que é inteiro, completo, autossuficiente (o que torna o comum algo inessencial), o que, metafísica, natural e politicamente falando, é um evidente absurdo para definir o homem e qualquer outro ser vivo. O homem como pessoa, pelo contrário, pressupõe o comum, porque a pessoa tem um rosto, uma personalidade, uma função, uma aparência por meio da qual ela se insere e se encaixa na rede comunitária, sendo vista por ela, assim como ela é vista pela natureza e pelo kósmos aos quais ela participa por ser aquilo que ela é; a pessoa sempre tem um contexto (natural, social, político, metafísico etc.), o indivíduo, por ser abstrato e metafisicamente inteiro e completo, não. Uma boa imagem é conceber a pessoa como um trecho de uma narrativa poética, um pedaço de uma pintura, um elemento da natureza, e o indivíduo como um ponto no mapa cartesiano.


[2] Sobre este uso hipócrita da teoria liberal, vale a leitura do livro Insubordinación Fundante, de Marcello Gullo Omodeo, onde ele mostra que a ideologia privatista é usada, desde o início do colonialismo imperial inglês, como ferramenta para confundir povos estrangeiros a fim de derrubar seus governos e dominá-los, ao passo que, na própria Inglaterra, o Estado sempre teve uma participação intensa nos investimentos econômicos e na organização social como um todo, ainda que não tenha sido de maneira ideal, mas em um contexto liberal.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

(POEMA) A Short Mission of Beauty

Aleah
From somewhere distant
comes a voice from without
delivering a message
into my soul, a whisper.

Clad in words and sounds
something different she speaks
and no one acquaints
but directly by soul.

A breath, a phantom of voice,
a ripple of memories from anywhere
moans down here and there
-- a spark who awakens and toils

disturbing men, demons and gods,
lifting them by only mots
which sink bright into the earth
to disperse chaos and dark.

Eternity comes true
and life turns a dream;
death, only a mean
for this goddess Beauty.

Yes I can breath
thee entirely;
while thou speakest to me
I merge, Aleah.

From night skies thou fallest down here,
sparkling stars from ether
the smoothing cold God's face,
to us affordest a painful Starbridge
(to walk, to think, to love and die through).

Creation for god is an instant
as for it into itself is his message,
everything in a trance we grasp,
in our heart everything is intimate.

So thou came to shine
and stayed for short,
put the world in lost
and departed to Light.

Up is down and down is up,
left is right and right is left,
death is life and life is death,
in this way all is sure:
by thy side I will be fine,
by thy side god ever shines.[01/01/2018]

Em memória de Aleah Liane Stanbridge (Starbridge). Não a conheci, mas sua voz, seu rosto e seus poemas, gravados em músicas, além de serem de uma beleza incomum são de alguma forma muito familiares e misteriosos, e de alguma forma profetizam seu estranho destino. Veio e foi-se jovem, feito uma centelha que desceu apenas para estalar uma mensagem e recolher-se à sua morada original. Nem todos descem sem missão.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

Andrey Gusielnikov
Comunicação apresentada em 09/12/2017 por ocasião do I Fórum das Resistências, organizado pela Resistência Sulista e pela Nova Resistência - Brasil, em Porto Alegre.

Nossa comunicação tem por objetivo tornar mais clara a Quarta Teoria Política, buscando compreender como ela funciona em termos de prática política, isto é, compreender como o sistema político pensado pela QTP se organiza socialmente.
Para isto, começaremos por construir uma 1) breve introdução à QTP; 2) em seguida, nos aprofundando mais, trataremos um pouco sobre o conceito de Mitsein encontrado em Heidegger e, por fim, 3) entraremos no nosso objeto de estudo, que é o sistema holístico subjacente na QTP.

1) Introdução à Quarta Teoria Política

Ao fundar a QTP, Aleksandr Dugin busca apresentar um modelo político para substituir os modelos já existentes.
Estes modelos já existentes são a) o liberalismo (a 1ª teoria política), b) o socialismo (a 2ª teoria política) e c) o fascismo (a 3ª teoria política). Destes, só o liberalismo continua vigorando, enquanto os demais foram enterrados para nunca mais voltar.
Dugin difere estes modelos a partir da concepção de sujeito político que cada uma tem.

a) O sujeito político do liberalismo está fundamentado no indivíduo. É a função do indivíduo, enquanto átomo formador da sociedade, que determina toda gerência da sociedade. É em função dele que as normas são desenvolvidas. Não há, assim, reconhecimento de identidade ou comunidade qualquer: cada homem é um átomo, um indivíduo separado dos demais.

b) O sujeito político do socialismo é a coletividade. Não é mais o indivíduo solitário que serve de base para a gerência estatal, mas é o agrupamento geral e universal de todos os indivíduos em conjunto. Contudo, esta coletividade compreende a classe social, sobretudo a classe proletária, que deve lutar contra as demais em benefício de uma tomada de poder.

c) Por fim, o sujeito político do fascismo é a raça, ou, no caso dos nacionalismos burgueses, o cidadão, compreendido em sentido genérico.

Todas estas três teorias políticas são modernas. Estão estabelecidas sobre a concepção de sociedade civil, que não existia ainda no período medieval.
Contrapondo estas três teorias, a QTP, buscando negar a concepção de sujeito delas, estabelece um novo sujeito: o Dasein.
O Dasein é um conceito do filósofo alemão Martin Heidegger, um conceito existencial, metafísico do homem. Para Heidegger, o homem não é um ser isolado do mundo nem das outras pessoas, não é um sujeito fechado em si mesmo, independente, e muito menos completo.
Para ele, o homem já nasce determinado por características que o ultrapassam e que o definem enquanto pessoa. Isto inclui genética, religião, cultura, nacionalidade, tradição familiar, contexto histórico, político e social, etc. O modo de pensarmos e de existirmos está determinado por estas características. O homem que é gaúcho não tem como se colocar no lugar de um nordestino para avaliar um objeto determinado; eles têm maneiras diferentes de enxergar as coisas. Mas nenhum está errado em si; ambos estão corretos.
Dessa forma, o homem está intrinsecamente conectado com aquilo em que ele está inserido, isto é, com sua tradição. O que ele determina vale para sua tradição, mas não vale para as outras.

Mas existem níveis distintos de identidade.

Podemos diferenciar estes níveis chamando um de a) microcósmico e outro de b) macrocósmico.

a) A identidade microcósmica é a identidade imediata do povo. Ela é a identidade subjacente de cada homem, estando no nível mais enraizado e imanente. É a identidade primeira, aquela que diz o que cada um de nós é em verdade. Por exemplo: o índio Pataxó, o caipira, o gaúcho hibérico, o teuto-brasileiro, o quilombola e assim por diante.

b) A identidade macrocósmica é uma identidade com um nível de abstração maior e tem um caráter imperial. No nosso caso aqui é o Brasil, cuja história também foi determinante para a caracterização dos povos regionais; em um nível mais abstrato, mais distante, todos pensamos como brasileiros.

Poderíamos acrescentar ainda uma nova identidade, que apesar de ser mais abstrata que a brasileira tem uma importância não apenas geopolítica, mas também étnica, e é a latino-americana.
De modo que, naquilo que compete a cada brasileiro, todos são capazes de avaliar questões objetivas de forma semelhante, pois são brasileiros, se transformaram, cada qual a seu modo, junto com o Brasil ao longo das gerações, adquirindo no nível macrocósmico também a identidade brasílica e latino-americana.
Todos estes níveis, cada um em seu lugar, são identidades enraizadas[1], porque pertencem ao homem e definem sua maneira de ser.

2) O Fundamento Coletivo do Dasein: o Dasein é um Mitsein

O sujeito da QTP é o Dasein. Este termo alemão costuma ser traduzido por “ser aí”, e designa a natureza do homem como um ser diferenciado capaz de se empenhar na busca pelo ser.
Em outras palavras, o homem é o ser capaz de tomar consciência sobre sua própria existência. A partir daí, surge a questão: mas o que é o homem? E como alcançar o objeto desta busca?
Para Heidegger, este Dasein é essencialmente Mitsein[2]; traduzindo: um ser-com. Desse modo, não há nada na natureza humana que preceda, existencialmente falando, a relação com os demais seres. Não há antes um homem e depois sua relação com os demais seres[3].
Já vimos que as três teorias políticas modernas se fundamentam no sujeito individual, considerado fechado em si mesmo, independente. Para elas, as relações sociais são acidentais, isto é, são irrelevantes para a caracterização da natureza do homem enquanto homem.
Para Heidegger, porém, e para a QTP, inspirada nele, as relações entre os homens e entre o homem e a natureza fazem parte da própria constituição existencial do homem. Desse modo, Heidegger define o homem como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein). Este “no” quer dizer pertença: o homem pertence ao mundo, e podemos ainda concluir: o homem é filho do mundo, expressão do mundo. E todas suas características “individuais” são dadas pelo próprio mundo, pré-existindo no ser antes de se manifestar como homem.
Assim, ao se falar sobre as necessidades humanas, deve-se considerar também as necessidades do mundo, da natureza e dos outros homens. Deve-se considerar também uma história, uma pertença social (o Volk), que determinam a maneira do homem de encarar seu próprio presente e seu próprio futuro. E esta determinação envolve toda uma comunidade social, uma tradição.
Portanto, se o homem é ser-no-mundo e se ele se caracteriza, assim, por uma existência comum, compartilhada com outros que também pertencem à mesma tradição, pode-se dizer que tudo o que se pode pensar sobre o Dasein pode-se pensar também sobre a comunidade, e tudo o que se aplica ao Dasein serve também para a comunidade[4]. Pois o homem, enquanto Dasein, é um ser em comunidade com outros seres.

Heidegger distingue, assim, dois tipos de Dasein: a) o Dasein inautêntico e b) o Dasein autêntico.

a) O Dasein inautêntico é o homem médio, medíocre, esquecido de si mesmo. E “esquecido de si mesmo” quer dizer, de acordo com o que vimos até aqui, o homem não desperto para sua pertença ao mundo e à tradição. Ele é, de certo modo, a figura do indivíduo, o homem que abandonou sua identidade, por uma questão de esquecimento.

b) O Dasein autêntico, pelo contrário, é o homem que vive na Verdade. E Verdade, do grego aletheia, significa “des-esquecimento”[5], isto é, rememorar, relembrar -- recordação. É o homem que está sempre recordando sua própria natureza, que vive ativamente na comunidade a qual ele pertence, sendo quem ele é.

Pelo fato de o homem não se definir ontologicamente como um átomo, como um indivíduo apartado do mundo, mas, pelo contrário, por se definir justamente como um ser que pertence ao mundo e que pertence a uma tradição, e desse modo o mundo como um todo participar de um modo de existência complementar com o do homem, podemos enxergar neste aspecto da teoria heideggeriana, muito caro à QTP, que a maneira quarto-teórica de visualizar os sistemas metafísicos, científicos, políticos, tem um caráter genuinamente holístico.
E é sobre isto que vamos falar agora.

3) O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

Para se compreender um pouco melhor como a Quarta Teoria Política concebe a estrutura política, é necessário fazermos uma breve regressão na história e na filosofia para alcançarmos os conceitos principiais.
A palavra “política” vem do grego polis, que significa cidade-Estado. Não é uma cidade, não é um Estado, mas é como se fosse um Estado em escala muito reduzida, com um centro urbano que funciona como uma instituição de unificação do Estado, onde todas as atividades direcionadas ao público, isto é, a política em sentido amplo, que inclui administração, formação intelectual, moral, religiosa e militar daquele povo. Eram “cidades” independentes em todos os sentidos, autossuficientes. Por isso elas constituem uma espécie de universo: a cidade-Estado é um universo à parte. E este é o sentido primitivo e originário do termo “política”: ser um universo, um microcosmo.
Nosso interesse aqui é buscar compreender um pouco de que modo as teorias modernas compreendem este universo e de que modo a Quarta Teoria o compreende. Porque são teorias completamente diferentes, que levam a consequências radicalmente distintas na estrutura, na organização e, assim, na administração desta estrutura.
E para compreender isto é necessário ter em mente o seguinte: em toda a história do pensamento e da política, bem como de todas as instituições subsequentes, como as ciências, o Direito etc., o que está em jogo nesta estrutura sistêmica (e metafísica) é uma tensão entre dois polos opostos: o indivíduo, de um lado, e o coletivo de outro. As disputas políticas, por essência, estão baseadas nesta tensão, pois os lados enxergam aspectos diferentes nela ou partem de interesses divergentes.

Comecemos por pensar as teorias liberais.

As teorias liberais compreendem a estrutura política de um Estado segundo o conceito de indivíduo. “Indivíduo” aqui tem o significado do átomo, isto é, um elemento independente, autossuficiente e (é importante isto aqui) fechado em si mesmo.
Ao mesmo tempo, cada um dos indivíduos tem um valor idêntico ao dos demais: não há uma personalidade individual, uma característica distintiva. Cada indivíduo é apenas uma bolinha em uma piscina de bolinhas, sendo que nessa piscina de bolinhas todas as bolas têm a mesma cor, o mesmo tamanho, a mesma densidade, etc.
Não há, em um sistema liberal, a importância da personalidade. Vale apenas a pessoa enquanto número. Isto torna o individualismo igualmente universalista, uma vez que ele nivela as diferenças ontológicas, utilizando um mesmo padrão distintivo e valorativo para todos os indivíduos.
O Estado seria então um agrupamento de indivíduos que se reúnem para organizar tarefas em conjunto[6]. Como estas tarefas não levam em consideração a personalidade da pessoa, tanto faz quem executa tal e tal função. E, deste modo, as atividades dos indivíduos se caracterizam por ser de um tipo baseado em competição individual: e o modo de fazer isso nos moldes dos Estados modernos é a especulação financeira ou o alpinismo social.
O que nos interessa aqui é que as teorias liberais dão ênfase para o indivíduo, nesta tensão entre o indivíduo e o coletivo. Vale, então, o livre-arbítrio, o desejo subjetivo e o manejo das leis por parte de cada indivíduo em benefício próprio.

Nas teorias socialistas, comunistas, a coisa é um pouco diferente, mas não muito.

A concepção de indivíduo que os socialistas têm é idêntica à dos liberais, isto é, a ideia de que cada homem é um átomo em um sistema, e que o sistema é, por definição, uma composição artificial de átomos.
Por isso a ênfase deles na sociedade civil: para fazer a revolução russa, é necessário desenvolver uma classe proletária, para levar socialismo para a Sibéria é necessário desenraizar os povos xamânicos e encaixotá-los em apartamentos, pois, segundo eles, não haveria “igualdade” de outra forma; isto é, não haveria o nivelamento individual-universal que torna cada pessoa um número em uma massa de composição homogênea.
Deste modo, se distinguindo do liberalismo, no socialismo, nas teorias “vermelhas”, não é o indivíduo em si que têm a preeminência sobre o coletivo, mas o coletivo em si. Abrindo mão da liberdade individual, o socialismo briga pela igualdade genérica de todos os átomos entre si: não é mais a bolinha na piscina que tem a liberdade de fazer o que bem quiser, mas a piscina quem lhe dá ordens para executar funções outorgadas de um centro administrativo.
No liberalismo, bem como no socialismo, o homem continua sendo apenas um número. O que muda é a tensão na polaridade: o primeiro tende a sucatear o coletivo em benefício do indivíduo, então surgem as privatizações, o descaso com o espaço público, com a ordem pública, com a saúde pública; enquanto o segundo tende a abandonar o indivíduo em benefício do coletivo, de modo que a ordem coletiva se torna abstrata e os indivíduos, que são diferentes, nivelados por baixo, para desenvolver uma igualdade genérica no interior do sistema político e social[7].

Algo semelhante pode-se falar sobre a terceira teoria política: trata-se de uma coletividade artificial e abstrata, com a diferenciação de receber um distintivo, também artificial e abstrato, como por exemplo o nacionalismo “ucraniano” e o “finlandês”, cuja nacionalidade, embora vise descrever uma característica geral para todos aqueles que se encontram no interior da “nação”, está longe de fazer o recorte adequado, pois em primeiro lugar 1) não há homogeneidade étnica em nenhum destes Estados, e em segundo 2) há maior parentesco entre etnias de certas regiões ucranianas com povos de outros países, como é o caso do leste ucraniano, que se considera definitivamente russo e ortodoxo. Assim, o homem na terceira teoria política também é apenas um número dentro de uma massa artificial e abstrata.
            Em suma, a terceira teoria política pode tender nesta polaridade tanto ao polo individual, se aproximando do liberalismo, quanto ao polo coletivo, se aproximando do socialismo. E a base por meio da qual ela se desloca no eixo polar é a unidade abstrata da nacionalidade, o ser “ucraniano”, por exemplo.

Já na Quarta Teoria Política, o conceito de sistema é completamente diferente.

A QTP se baseia no conceito de holos, que também é um termo grego e significa “o todo”. Este todo, porém, é uma síntese entre os dois polos combatentes, o indivíduo de um lado e o coletivo de outro. O conceito de holos é, assim, o modelo primitivo de organização política, é o modelo de um uni-verso, em que a unidade e a diversidade constituem dois aspectos de uma mesma realidade que, no escopo político, constitui a polis, a cidade-Estado ou organização política primitiva e originária.
Assim, o sistema político da QTP constitui um holismo.
O homem, neste sistema, não é mais considerado um indivíduo. Pois, como vimos, o indivíduo é um ser fechado em si mesmo, e o homem, pelo contrário, é um ser orgânico, cuja essência inclui o respirar, o evacuar, atividades essencialmente relacionadas com o meio “externo” ao “indivíduo”.
Assim, o homem não pode ser considerado um ser autossuficiente, fechado em si mesmo, pois morreria se o fechássemos em um saco plástico e o enviássemos ao vazio do espaço sideral, além de sua existência não fazer o menor sentido sem a vivência com o mundo “externo”. O homem vive através dos olhos, dos ouvidos e dos demais sentidos; o homem vive para ver, para ouvir, para sentir, portanto não tendo nada para ver, ouvir, sentir, sua existência deixa de ser vida, propriamente falando.
O homem, então, não mais se define por ser um átomo. Sua definição e sua essência devem incluir o universo “externo” a ele mesmo, pois ele depende, existencialmente falando, do mundo “externo”.
E o mundo “externo”, em contrapartida, também depende do homem. Inclusive a natureza depende do homem, que ao longo dos milênios evoluiu e se transformou em adaptação às atividades humanas, passando a depender ela mesma da simbiose com a atividade humana[8].
Desse modo, isto a que chamamos de “mundo externo” não mais é, estritamente falando, um mundo externo, mas um componente partícipe de um todo (holos) do qual o homem, também, faz parte.
Neste sentido, todos os elementos deste uni-verso são seres simpáticos entre si, cuja amizade e cooperação mútua é essencial para sua própria constituição enquanto elementos.
E o homem, então, não sendo mais um número, será valorizado e terá importância de acordo com sua personalidade, sua figura, isto é, sua pessoa, que é a expressão viva daquilo que ele é no corpo deste universo. A personalidade dele determina aquilo que ele é, e esta personalidade inclui características genéticas, formação cultural, história, idade, habilidades especiais, religião etc. São estes os parâmetros, também, por meio dos quais o valor e o caráter do homem são determinados.
O que isto significa, em termos políticos, podemos visualizar com alguns exemplos: enquanto no liberalismo e no socialismo é o interesse e a astúcia individual que determinará as ações do homem na sociedade, no holismo, que compõe a QTP, cada ser humano terá seu lugar natural no grande universo político, determinado por suas características pessoais.
Assim, as habilidades pessoais, por exemplo, determinarão a vocação profissional de um homem, e sua constituição étnica determinará sua terra e seu povo de pertencimento, isto é, sua pátria. Tomando mais um exemplo específico, um alemão como eu, por exemplo, tenho meu lugar no Brasil, e até aí minha pátria é brasileira, mas se avançarmos mais a fundo, veremos que minha característica é ainda mais específica que isso, porque sou alemão e pertenço à comunidade alemã, tenho uma mentalidade alemã, vivo como alemão, e neste sentido específico minha pátria é a comunidade teuto-brasileira.
Se estivéssemos dialogando de acordo com os princípios modernos, haveria contradição neste raciocínio, pois a pátria de alguém não pode ser considerada brasileira e ao mesmo tempo teutônica. Mas o holismo tem um lugar natural para tudo, tanto em níveis macrocósmicos quanto em níveis microcósmicos, de modo que sempre é possível avançar para a universalidade bem como para a particularidade, sem que incorramos em conflitos lógicos.
Voltando à profissão: não mais deve haver uma desigualdade de renda como ocorre nos sistemas modernos, dissolvendo a luta de classes ao mesmo tempo em que se resolve os motivos que gerara as lutas de classes. Entra aí também um certo tipo de distributismo econômico, que tem raízes cristãs.
Mas acontece que, de acordo com o holismo, cada uma das profissões e cada um dos trabalhadores nestas profissões determinadas, tendo sua importância particular, não apenas econômica, mas também espiritual, deverá encontrar sua dignidade, isto é, seu lugar natural no sistema como um todo, de acordo com seu caráter, tanto moral quanto funcional.
Pois vejamos: nós, homens da cidade, precisamos comer. E para tanto, precisamos de agricultores, pois se agricultores não plantarem, nós não comeremos. Assim nós precisamos do povo no campo, trabalhando lá com aquilo que eles sabem fazer de melhor, tendo conhecimento e habilidade para isto.
Da mesma forma acontece com o homem do campo, que sem a cidade não terá tecnologia, não terá escolaridade, não terá indústria, não terá organização política, portanto não terá segurança, tanto interna quanto externa, através das forças armadas. Assim também o homem do campo precisa do homem da cidade[9].
No sistema holista, todos os elementos são determinados por sua função, e sua função é sua personalidade. Lembramos de novo que esta função não se reduz à econômica, mas se estende à psicológica, intelectual, política e espiritual. Há, portanto, neste sistema, um lugar para cada elemento, e não deve haver problemas tais como desemprego, altas concentrações de renda, especulação financeira, etc., pois tudo está regulamentado em função do todo, e não mais do interesse individual das partes, enquanto este todo não é mais o coletivo, pois neste coletivo tudo o que não se encaixa no conceito abstrato de indivíduo está excluído enquanto ser existente.
E todos os elementos necessitam dos demais, da mesma forma que um pé precisa de um fígado, pois se não fosse o fígado não haveria o homem a quem pertence o pé. E assim não haveria também o pé. Este é o espírito da sociedade orgânica e do sistema holístico.

Agora façamos algumas considerações com respeito às relações internacionais, ou interétnicas, de acordo com este conceito de holos.

Ultrapassado o paradigma moderno do Estado-nação, a QTP põe os olhos sobre a simpatia entre as comunidades étnicas, cada uma tendo seu lugar natural no universo[10]. Dessa forma, dispensa-se o separatismo político-econômico para a defesa de tradições regionais, pois dentro de cada Estado-nação, como são exemplos paradigmáticos muito semelhantes entre si a Rússia e o próprio Brasil, há na QTP uma autonomia maior para a regulamentação administrativa por parte de cada comunidade em particular, de modo a permitir que cada comunidade governe a si mesma de acordo com seus próprios costumes, permitindo e proibindo costumes alógenos.
Em nível internacional, os Estados-nação estão relacionados de acordo com o conceito de multipolaridade: cada Estado tem seu lugar natural no sistema do mundo, que é o uni-verso em escala macrocósmica. Há uma amizade entre Estados, uma coparticipação no universo. Isto contraria os sistemas modernos, que são por definição universalistas e unipolaristas, buscando adequar o mundo inteiro de acordo com seus sistemas abstratos e individualistas (e exemplo disto são tanto a OTAN, liberal, quanto a União Soviética, socialista).
Os Estados-nação, assim, se tornam ideologicamente vazios, tornam-se ferramentas para a defesa das comunidades étnicas. O separatismo ou o unionismo se tornam vazios de sentido em si mesmos. Separatismo e unionismo são indiferentes para a determinação e preservação dos povos, de modo autônomo. O único fator que pode alterar a balança dos povos internamente aos Estados é o interesse dos governantes destes mesmos Estados.
Mas por quê, devemos falar agora, não devemos fomentar o separatismo na América do Sul? Porque, além de ser vazio e não significar a proteção de nenhuma comunidade, prejudicará a união político-militar tão necessária em tempos de avanço da ingerência estrangeira em solo pátrio. Ao mesmo tempo, é esta união, não étnica, mas política e econômica, que será capaz de representar uma resistência às forças estrangeiras, que superam hoje o poder de qualquer Estado-nação, como é o caso de empresas como a Microsoft e a Apple[11] e a rede de bancos dos Rothschild[12], cujo poder aquisitivo é maior que muitos Estados-nação e já superam a casa dos trilhões de dólares.
Caso nos separarmos, tornar-nos-emos uma região fraca, dissolvida em conflitos e dívidas, incapaz de vencer os desafios do jogo geopolítico, que hoje acontece apenas a nível de grandes blocos econômicos. Caso separarmos, nosso destino será ser como o sul da Ásia, onde manda a pirataria escravagista de modo mais cruel, ou então, no máximo, nos tornaremos uma Meca comercial, de acordo com o Plano Andinia, e passaremos a ser escravos de cheiques e barões bilionários, senão expulsos da nossa terra e massacrados em um processo de limpeza genocida muito comum na África e no sul da Ásia[13]; mas já comum também nas nossas florestas, assaltadas por empresários que eliminam tribos indígenas inteiras com o objetivo de se apossar das terras, dos minérios.

Finalizando, o que se deve tirar desta palestra é sobretudo a diferenciação entre, de um lado, 1) a) o individualismo liberal e b) o coletivismo socialista, ambos fundamentados na polarização entre indivíduo e coletividade, e de outro 2) o holismo da QTP, que é a síntese originária de onde a polaridade foi construída historicamente por meio de análise abstrata da sociedade. Deve-se ter em mente a diferença essencial entre ambos, pois ela é fundamental para se compreender o tipo de relação política sobre a qual a QTP se baseia. É esta relação política que deve servir de princípio para os projetos políticos que se seguem da QTP.
Com o advento do século XXI, o paradigma que antes era nacional (“nacional” de Estado-nação) se tornou definitivamente geopolítico, e isto significa uma abertura no sistema moderno para uma reavaliação das relações políticas e da própria essência existencial, metafísica e espiritual do homem. Esta nova reavaliação possibilita um retorno ao princípio natural e orgânico de holos, um conceito essencialmente pré-moderno e, agora também, pós-moderno, segundo a pós-modernidade da QTP.




[1] Dugin distingue três tipos de identidade, 1) a difusa, 2) a extrema e 3) a enraizada. Apenas a última tem o caráter de uma identidade, enquanto a primeira constitui a perda de uma consciência identitária por parte dos indivíduos, que se tornam cosmopolitas, e a segunda significa uma falsa-identidade desenvolvida em laboratório, típica dos nacionalismos burgueses e da terceira teoria política. [https://legio-victrix.blogspot.com.br/2017/10/aleksandr-dugin-as-raizes-da-identidade.html?spref=fb] 28/10/2017.

[2] [http://caae.phil.cmu.edu/Cavalier/80254/Heidegger/DivisionOne/BeingWith.html] 28/10/2017

[3] Aqui podemos contrapor o pensamento heideggeriano e a QTP às teorias contratualistas, tipicamente liberais, que distinguem um estado de natureza e uma sociedade civil originada através de um contrato. Deste modo, o contratualismo se relaciona às vertentes individualistas, que concebem o indivíduo autossuficiente que forma sociedades de modo acidental, não tendo nascido já pertencente a elas.

[4] [https://paginatransversal.wordpress.com/2017/04/19/la-dimension-colectiva-del-dasein/] 28/10/2017

[5] Lethos, do grego: esquecimento.

[6] Aqui se manifesta o contratualismo nas teorias individualistas. Como para elas o indivíduo é o elemento primordial, o Estado se torna uma construção artificial que ocorre entre indivíduos.

[7] Abrindo um parêntesis: é por isso que a arquitetura soviética tende a ter este aspecto de missão astronômica no espaço sideral. É o meio que o socialismo encontrou para desenraizar todas as culturas diferenciadas e encaixotá-las dentro de um padrão único e abstrato.

[8] Há suspeitas, inclusive, de que as montanhas ao redor do mundo tenham sido fruto do trabalho humano e que, no caso do Brasil, os “acidentes” geológicos não tenham sido senão construções de impérios antigos e desaparecidos, como montanhas. Ler Crônicas de Akakor.

[9] Façamos um parêntesis: isto é assim, evidentemente, desde que passaram a existir cidades, que transformaram os princípios que caracterizam as relações humanas a partir de então.

[10] O “grande universo” astronômico, não mais a cidade-Estado enquanto universo.

[11] Só o valor de mercado de duas empresas juntas, a Microsoft e a Apple, é 1,2 trilhão de dólares, o que praticamente equivale ao PIB do Brasil, que ainda é uma das maiores economias do mundo e está em torno de 1,4 trilhão, ou pelo menos estava antes das reformas dos últimos anos. (Fonte: Notícias ao Minuto, 15/fev./2017). De 2014 para 2015, o PIB do Brasil caiu de 2,34 trilhões para 1,8 trilhão e seguirá caindo aceleradamente, enquanto o das empresas seguirá crescendo aceleradamente (Fonte: Correio Braziliense, 24/11/2015). Considerando isto, em finais de 2017, ou já em 2018, estas duas empresas terão superado em muito longe o PIB brasileiro.

[12] Que ninguém é capaz de calcular em valores financeiros, por estas acima dos limites nacionais, portanto fugir dos limites fiscais. Mas provavelmente está há muito tempo já na casa dos trilhões, com certeza superando Estados como o Brasil. [Para ler sobre a rede Rothschild: https://portal-legionario.blogspot.com.br/2017/02/seu-banco-pertence-aos-rothschild-eis.html] 28/10/2017

[13] Vale a leitura de Eduardo Velasco: A Rota da Seda, o Colar de Pérolas e a competição pelo Índico [http://europasoberana.blogspot.com.br/2013/09/a-rota-da-seda-o-colar-de-perolas-e_28.html] 29/10/2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

Teurgia: O Estado Hegeliano e a Koinônia Grega

Francisco Goya
A filosofia de Hegel tem um fim: a completude, isto é, realização plena do espírito absoluto. O desenvolvimento dialético que acontece ao longo da Fenomenologia do Espírito contém o paradigma processual e metafísico daquilo que se desenvolve no plano político-econômico ao longo da Filosofia do Direito.

A base material por meio da qual este espírito, imanentemente, se desenvolve é a sociedade civil. Este é o estágio inicial que é tomado como dado, o paradigma moderno, a matéria-prima que fornecerá ao espírito os instrumentos para as subsequentes Aufhebungs. A sociedade civil é o estágio inicial, mas não o fim; ela deverá ser superada por novos estágios que se seguem um após o outro.

A sociedade civil é caracterizada pelo reino da singularidade: os indivíduos, que não possuem qualquer relação necessária entre si, constituem uma coletividade frágil e sensível, cuja força centrípeta dessa coletividade é o próprio egoísmo. A aparente unidade dessa sociedade é consequência do interesse individual que cada indivíduo tem de preservar a si mesmo e satisfazer seus próprios interesses. Deste modo, a coletividade se torna um instrumento na mão de cada indivíduo para a satisfação de si mesmo. A unidade dessa coletividade apenas se dá na medida em que ela de fato representa esta satisfação de cada um em singular. A sociedade civil, para Hegel, é assim a representação de um Estado contratual, liberal. A sociedade civil carece de um sentido de identidade, de um fundamento sociológico, étnico e religioso que ultrapasse a condição existencial do homem de mero sujeito de sua história; nela, cada homem se define e se determina por ser apenas um sujeito, um ser à parte e, assim, poder-se-ia dizer: cada um constitui para si seu próprio deus, e sua vida, a vida de deus. O mundo é reduzido aos fenômenos subjetivos de cada um, e a eternidade é reduzida à vida efêmera dos mesmos.

O objetivo de Hegel é apresentar uma forte crítica ao Estado contratual e, com ela, uma superação da condição efêmera do homem que nele acontece. Assim, surge para o filósofo o conceito de Korporation, termo misterioso que certamente quer dizer muito mais do que uma mera “corporação” ou um “sindicato”. A Korporation é uma instituição cujo papel não visa, ou pelo menos não se restringe, a algum tipo de manutenção ou mediação burocrática, econômica, civil entre indivíduos. A Korporation tem por fim assentar um primeiro estágio de universalidade no interior do Estado, para erigi-lo semelhante às colunas gregas que sustentavam a abóbada de um templo. O espírito que se desenrola neste processo, que é o próprio Estado, é racional: é por meio da racionalidade que os elementos singulares encontrarão algum fundamento comum entre si, um fundamento que já está aí, presente, e que portanto não pode ser abstrato nem exterior aos singulares eles mesmos.

O conceito de razão, para Hegel, não pode ser analítica ou dedutiva. Caso contrário o resultado seria unicamente a divisão. Hegel, por sua vez, exige uma razão intuitiva, capaz de elevar a alma humana a um estágio superior que seja interno em si mesma. O papel da Korporation, assim, é um papel espiritual, e neste sentido transcendente, pois trata-se de uma elevação do singular efêmero rumo ao próprio espírito universal.

A Korporation terá, como um de seus princípios fundamentais, a Sittlichkeit, a eticidade, cujo significado está longe de se esgotar em uma espécie de moralismo imposto na esfera pública, ou um código de leis a ser “ensinado” e seguido pelos membros da comunidade. Se assim  fosse, estaríamos em um Estado contratual, onde as razões analíticas e dedutivas deveriam concordar e aderir, de modo externo, a esta “unidade” estatal. Pelo contrário, a universalidade hegeliana acontece através de um sentimento de pertença por parte dos singulares no universal, através de uma identidade espiritual entre singular e universal. A eticidade terá como fim, então, a transmissão do caminho a esta universalidade por onde os singulares poderão ascender e tornar-se particulares. Ao se tornarem particulares, eles deixam sua singularidade para trás, permanecendo ela como um constituinte acompanhante da particularidade, mas não mais determinante. A particularidade acontece quando um sentimento de universalidade surge: o homem se enxerga particular na medida em que se sente parte de um todo. “Parte” não em sentido negativo, como algo que se rompe de um todo, mas em sentido positivo, como algo que pertence a um mesmo organismo vivo de um todo maior que si mesmo.

A Korporation se torna um veículo, uma instituição cosmológica que desperta o conhecimento do singular sobre o universal; pode vir a ser, imanentemente, uma escola, uma doutrina, um conjunto de práticas comunitárias, uma identidade comum. O traço característico aqui é evidentemente religioso. Até se tomarmos a palavra “religião” em sua etimologia, re-ligare, o papel da Korporation se torna evidente: é uma junção entre o que parece estar separado, mas é junto; é um re-ligar daquilo que se separou.

É no Estado, contudo, que a plena realização dessa universalidade, dessa união entre o separado acontece. O Estado hegeliano não é o Estado-nação. Seu princípio é lógico, no sentido hegeliano de lógica, que nos remete ao logos platônico. Desse modo ele poderá se manifestar de inúmeras maneiras, assim como o logos divino se manifesta de muitas maneiras. É, no entanto, a uma organização política a que Hegel se refere, um logos que organize as relações humanas como se constituíssem as relações dos órgãos em um corpo único. A Korporation faz o papel de elevar a singularidade a um nível de particularidade, mas sem parar por aí: ela impulsiona de baixo a particularidade enquanto, de cima, a Sittlichkeit universal, fluindo do monarca, atrai eroticamente o particular rumo a uma universalidade plena e realizada.

Ao constatarmos um movimento de baixo e outro de cima, que se encontram no particular, efetivando a universalidade e, assim, o alcance do espírito absoluto em si e para si, somos capazes de encontrar em Hegel um parentesco com a tradição platônica muito mais forte do que há com outras tradições. A necessidade de um erotismo, de um pathos, para se compreender a racionalidade hegeliana e a concepção de uma união ascendente reforçam seu tom hermético e gnóstico. A dialética do espírito absoluto, em Hegel, é essencialmente mistérica e iniciática; o papel da Korporation poderia ser comparado aos akousmathici dos pitagóricos, que deveriam ouvir mitos de caráter ambíguos e “caçar” seu sentido verdadeiro para enfim subirem ao templo dos mathemathici, que detinham o conhecimento dos números que a tudo no mundo formam, sendo o mundo a manifestação imagética dos números.

A crítica que Hegel faz do Estado contratual, assim, é uma crítica aos fundamentos da contratualidade e da racionalidade modernas. A filosofia de Hegel é também uma arma contra a concepção aristotélica de linguagem e de verdade por correspondência, que certamente derivaram, ao longo do tempo, essa racionalidade moderna a qual chamamos “logicista” e “cientificista”. Hegel nos mostra, ao longo da dialética do espírito, que só com uma concepção diferente de razão se pode alcançar algum sentido de Estado, e que este Estado, se houver, deve se basear em algum princípio de ascendência inspirada. Pois é a alma, estando em seu estágio inferior, que Hegel faz reagir e buscar seus fundamentos que estão na própria universalidade; a universalidade é pré-singular e pós-singular: pré-singular na medida em que o singular já se constitui, ontologicamente, como partícipe do universal, e pós-singular no sentido em que o homem, desperto, reencontra sua pátria perdida.

A Korporation se torna, com isso, um ato ritualístico com fins precisos, apontados para o Estado. Não há uma configuração única para ela, determinada por “premissas” lógicas; mas há, sim, um princípio único e determinado, não pelo homem, mas pelo próprio espírito absoluto que se desenrola. A participação ativa do homem na fundação dessa Korporation está em compartilhar dos desígnios (a Sittlichkeit) e transmiti-los entre os membros da instituição, sobretudo entre os novatos, que devem ser bem recebidos e ensinados (um ensino que não deve ter por verdade a teoria da correspondência aristotélica, mas a identificação erótica entre o novato e a universalidade, portanto a educação deve ser mítica, metafísica em seu sentido espiritual, isto é, o ensino e o aprendizado devem se basear em uma gnosis). Forma-se, assim, uma hierarquia contínua entre os homens em que o superior ensina o inferior, mantendo sempre o olhar rumo à universalidade do Estado. Este laço contínuo, que os platônicos chamam de Corrente de Ouro, desce dos deuses e percorre a hierarquia de cima para baixo, resgatando as almas através daquelas que lhe são superiores. Forma-se, através da Korporation, uma espécie de irmandade, em que todos se veem como semelhantes, carentes das mesmas carências – o que gera identidade e vontade de auxiliar o companheiro.

A universalidade hegeliana, além disso, o Estado, que se desenvolve em um processo histórico, isto é, dialético e processual (o histórico hegeliano não é, necessariamente, o histórico dos historiadores, a passagem dos fatos neutros, mas, pelo contrário, a efetivação das ideias na natureza), observa um fim da história, quando a ideia se desenvolverá plenamente e o espírito se tornará absoluto, esgotando as potencialidades e sublimando as singularidades no universal. Trata-se de uma profecia que imita a anagogê dos gnósticos e dos oráculos caldeus, quando as almas pródigas e a Sofia se reencontram com o Pai. É do Pai que elas são formadas e dele nunca podem, ontologicamente, se afastar; no entanto, para os gnósticos sobretudo, Sofia tropeça e se desvia dele, ou ainda as almas, inferiores a ela, afastam-se dela, tendo o conhecimento da sua natureza levado pelo rio Lethos, o esquecimento. Através da gnosis, então, o sábio reorienta e lidera as almas perdidas de volta à Sofia; esta passagem da condição de ignorância e de singularidade para a condição noética e universal se dá através de um ritual dentro de uma comunidade de sábios e discípulos. Ainda podemos recordar o Apocalipse cristão, que compreende a resolução final da Criação, quando as almas são todas reincorporadas ao Deus Pai, Todo Poderoso e Criador do Céu e da Terra.

A necessidade de uma Korporation, no caso Hegeliano, imita a necessidade do ritual das seitas mistéricas, isto é, da teurgia. Nos dois casos, o espírito absoluto e o retorno das almas, é um acontecimento movido e realizado através da ação, da participação ativa, de uma liberdade e de uma vontade positivas por parte das singularidades que saltam em direção ao abismo do Universal. A ideia hegeliana se efetivando, isto é, tornando-se Wirklichkeit, é uma ideia que se projeta e se realiza, se cria, se produz ela mesma sobre a Realität, no seio da natureza. Aqui observamos o espírito ser invocado na matéria, iluminando o mundo e a ele dando uma forma definida, com contornos eidéticos determinados, com significado. Este fenômeno contém o significado do conceito de razão para Hegel, também ele derivado de uma razão divina, identificado com a ideia formativa que se efetiva sobre um real neutro e obscuro, sem significado e sem sentido. A realização do espírito, por meio da dialética, oferece um sentido preciso para tudo que pertence ao espírito, e o sentido é uma linha em direção ao fim da história, à sublimação no universal.

Desse modo, a teurgia, theos ergeia, “o trabalho divino”, não deixa de ser um modo de descrever a dialética do espírito hegeliana. Karl Marx, por sua vez, tomou de Hegel apenas o que lhe servia para fomentar uma revolução materialista contra o capitalismo feroz, que foi uma dialética material, isto é, a constante transformação material da sociedade; mais precisamente, a luta de classes. Contudo, com isso seu legado foi introduzir uma noção de transformação constante da configuração das classes, impedindo que possa haver qualquer tipo de reunificação entre elas: a luta de classes se tornou ideologia e perdeu seu estatuto instrumental. O resultado foi uma ideologia destrutora, corrosiva da sociedade. O caminho de Hegel vai na direção oposta: além de sua dialética ser de um tipo espiritual e não materialista, e além de se tratar de um estatuto lógico e não de uma categoria específica, como é a luta de classes, a filosofia hegeliana resulta em uma reunificação social, em uma reconstrução de uma nova civilização em cima da matéria morta que é a sociedade civil. O objetivo de Hegel é superá-la, transcende-la, não convocar a manutenção dela mesma em seu interior, uma manutenção que, no caso marxista, foi incapaz de se opor genuinamente ao individualismo moderno, aos princípios que guiam e determinam a sociedade civil capitalista. Pois, para se opor ao capitalismo, é necessário primeiro superar a singularidade em vista de uma universalidade.

As ideologias políticas que até então alcançaram algum tipo de finalidade hegeliana, tendo certamente em sua filosofia se inspirado, foram sobretudo o Nacional-Socialismo alemão e a República Popular Democrática da Coreia do Norte, o primeiro sob o misticismo germânico e esta última sob a filosofia Juche e a tradição dos Kim. Não discutiremos aqui questões irrelevantes e disputadas, como é o caso do suposto Holocausto e do suposto genocídio executado pelos Kim; são informações que as mídias de massas divulgam e sobre as quais os intelectuais e jornalistas não encontram evidências. Nosso interesse aqui é evidenciar que, em ambos os casos, houve uma identidade por parte das singularidades, e estas se puseram voluntárias a serviço da universalidade, de um lado o sangue e solo germânicos e, de outro, a pátria coreana. Em ambos os casos, houve um interesse intenso pelas raízes étnicas por parte dos membros do Estado, o estudo e o interesse pela religião, pelo culto à beleza e ao respeito comunitário, em detrimento da individualidade mesquinha dos banqueiros e grandes empresários. No caso coreano, salientemos um fenômeno voluntário e muito significativo, que é um aumento gradual no povo pelas religiões em geral, principalmente as mais populares, uma delas sendo o próprio xamanismo, que está em vias de desaparecer do nosso mundo, porque o sistema da sociedade civil é incompatível com sua natureza.

Este interesse pelas raízes de si mesmo, e do povo em geral, é significativo e nos leva de volta à queda das almas em relação à Sofia, quando dizíamos que as almas, em seu tropeço espiritual, perdiam sua natureza que era levada pelo rio Lethos. Lethos é o esquecimento: o motivo pelo qual as almas se afastam de Sofia e do Pai é o esquecimento deles e, por conseguinte, o esquecimento de si mesmos. O movimento de buscar suas raízes é o movimento de retorno à Sofia e ao Pai; segundo Heidegger, trata-se de desencobrimento ou desvelamento, termo que traduziria a palavra grega alêtheia (a-lethos, a negação do esquecimento). As almas, em busca de suas raízes, estariam desvelando o ser, isto é, encontrando-se com a verdade, uma vez que alêtheia significa, em grego, verdade. Sofia também vem do grego e significa sabedoria; não é por acaso, então, que o termo gnosis, conhecimento, se deve ao retorno das almas à sua origem nas seitas mistéricas. Nessa busca elas encontrarão seu lugar natural, encontrar-se-ão a si mesmas, conhecerão a si mesmas, conhecendo assim o universo ao qual elas pertencem.

O Estado hegeliano não é um Estado moderno. É uma seita, uma religião, dotada de rituais iniciáticos e de transformações espirituais. Os neoplatônicos descreviam dois movimentos das almas no grande drama universal: a processão (proodos) e a conversão ou retorno (epistrophê). No primeiro, as almas descem, afastando-se das suas origens, gerando o kósmos, o mundo sensível e ordenado onde as almas vivem em corpos separados, no segundo elas retornam, por meio de exercícios noéticos, à sua origem, reconectando-se com os princípios formativos e, em última instância, com o uno, onde toda complexidade é sublimada em uma unidade simples. Assim, a processão é uma maneira de explicar a mesma substancialidade que todos os singulares têm entre si, enquanto a conversão é o ato de reencontro desta substancialidade perdida e rompida; em Hegel, também os singulares só podem encontrar a universalidade porque eles mesmos são originados dela e pertencem a ela, pois ontologicamente eles são ela. O movimento de retorno, assim, não é necessariamente um movimento de sublimação do aspecto físico, mas de um desencobrimento, um rememorar das origens e o conviver na comunidade – a não ser, certamente, quando introduzimos o Apocalipse.

A universalidade é uma comunidade. O universal hegeliano é uma reunificação de seres singulares (seriam só homens ou incluir-se-iam aí também os elementos da natureza?). Marx compreendeu esta comunidade como sendo o coletivo de indivíduos em uma massa homogênea. Mas deste modo a singularidade, preservada na Aufhebung, se aniquilaria no nivelamento de indivíduos atomizados. A universalidade de Hegel preserva a singularidade, não enquanto indivíduo atomizado, mas enquanto elemento específico caracterizado por traços específicos; e nesse caso o singular não é um indivíduo, mas uma pessoa que tem tais e tais qualidades e funções sociais.

Em certa medida, o universal hegeliano é um sistema complexo, uma vez que é composto pelas singularidades; mas não é complexo se compreendermos com isto um conjunto de elementos separados que se unem, pois esta é, inclusive, a representação de uma sociedade contratual e liberal, onde a sociedade é um acidente ou uma realidade abstrata erigida pelos indivíduos, que são essências. Em certa medida, o universal é simples, na medida em que aquilo que cada elemento é em si se esgota na universalidade. Mas não é simples, se se compreende por isso uma sociedade homogênea, como pensou Marx. Acima de tudo, o sistema hegeliano é hierárquico, cuja estrutura não é bem fundamentada em uma configuração social específica, uma vez que esta configuração seria contingente, mas em princípios racionais; no topo, uma aristocracia detém o paradigma ético, a eticidade, ou melhor dizendo, o ethos grego, que não é um código de conduta, mas uma conduta em ação, uma maneira de ser que é sempre ativa e presente. Esta aristocracia conduz as massas da sociedade civil a compartilhar de seu ethos, mas não de sua posição na hierarquia.

A função da aristocracia é a função do teurgo que orienta as massas com as chaves-mágicas da linguagem – e linguagem aqui é Sage, o dizer poético heideggeriano, capaz de dizer sem falar, mostrando. A aristocracia, como o teurgo, detém o poder das formas, o segredo do logos divino, o conhecimento dos números pitagóricos.

Para os platônicos e ocultistas citados, esta universalidade a qual Hegel imita é dada pela koinônia, que significa um universo comunitário onde não apenas os homens participam, mas também os deuses, os anjos, os daímones e outras muitas entidades. Em linguagem fenomenológica, poder-se-ia dizer que se trata de uma comunidade em que o ser, para os membros da comunidade, permanece sempre aberto, passível de ser conhecido e sobretudo experienciado; os membros não são fechados em si mesmos, mas estão em constante diálogo (dia-logos) entre si. A natureza dos elementos é formada pela natureza da universalidade, o que permite, e até mesmo exige, o diálogo, isto é, a relação lógica entre os seres – compreendendo o logos como o princípio formativo de todos os seres.


Aqui novamente podemos trazer à tona o Dasein heideggeriano, que não é um mero ser isolado e fechado em si mesmo, mas um ser cuja natureza é ser-no-mundo e Mistein, ser-com. Os seres se definem por serem seres em relação com outros seres e com o universo como um todo. Portanto eles não são átomos, mas possuem personalidade, possuem um rosto, isto é, possuem um significado. Isto só é possível dentro de uma comunidade enraizada em um mito que dê sentido ao universo onde todos participam, algum princípio hermenêutico porém inefável por meio do qual o Estado, em constante dinâmica, efetiva sua ideia; e este princípio é segredo de teurgos e aristocratas, sejam eles poetas, líderes, políticos, místicos ou filósofos.